Tóquio 2020

O longo caminho de Pichardo rumo ao ouro prometido

O longo caminho de Pichardo rumo ao ouro prometido

O atleta escreveu mais um capítulo histórico no desporto nacional, mas as garantias do sucesso há muito que tinham sido dadas, mesmo numa vida repleta de desafios que incluiu uma fuga do país natal.

Pedro Pablo Pichardo nasceu a 30 de junho de 1993 em Santiago de Cuba, mas acabou por escolher Portugal para viver e voar alto. E desde cedo comprovou-se que o atleta estava mesmo destinado ao céu. Inquieto em criança, o triplista brincava muitas vezes na rua com os amigos. Mau no futebol - escolhia jogar à defesa -, Pichardo é filho de um treinador de atletismo e de uma comerciante e passou por algumas dificuldades financeiras quando vivia em Cuba. É o mais novo de quatro irmãos e foi mesmo graças à irmã Rosalena que foi aos primeiros treinos de atletismo.

Começou "por brincadeira" aos seis anos - a grande paixão dele até era o boxe, mas o pai não o deixou praticar - e aos sete passou a treinar com mais afinco. Aos 14 anos, iniciou-se no triplo salto e começou a ser um caso sério. Pablo mudou-se para Havana por não haver grandes condições em Santiago (até treinava descalço num campo de basebol) e ia com o pai, Jorge Pichardo, de comboio para as competições graças a alguns amigos do progenitor, que lhes emprestavam dinheiro. Chegou mesmo a ter de dormir nas bancadas dos estádios.

O agora atleta do Benfica era treinado pelo pai - ainda hoje é - mas entrou em rota de colisão com a federação cubana em 2014, por não o deixarem continuar a trabalhar com o progenitor e foi castigado. Ainda em Havana, começou a treinar com Ricardo Ponce, mas as coisas não correram bem: além de não ter grandes resultados desportivos, o triplista garantiu que o queriam obrigar a treinar até lesionado. Jorge Pichardo foi então até Havana para treinar o filho às escondidas mas o atleta foi castigado um ano e esteve todo esse tempo sem competir. O pai ficou proibido de continuar a exercer a profissão de treinador.

A dupla não desistiu, continuou a trabalhar e o atleta acabou por regressar em 2015 e subir ao pódio nos Mundiais de Pequim, lado a lado com Nelson Évora (medalha de bronze) e de Christian Taylor (ouro). Só que, pouco depois, Pichardo sofreu uma lesão no tornozelo e, nos Jogos Olímpicos de 2016, queriam-no obrigar a competir mesmo com uma fratura de 7,4 milímetros e ameaçaram-no com um novo castigo. Mesmo assim, o atleta recusou competir no Rio de Janeiro.

Em 2017, e por achar que no país natal não conseguiria singrar na carreira, desertou no mês de abril durante um estágio da seleção cubana em Estugarda (Alemanha). A notícia correu o mundo, ou não se estivesse a falar de uma das grandes promessas do triplo salto - é um dos cinco triplistas que conseguiram ultrapassar a marca dos 18 metros em competição - e esteve em destino incerto durante algum tempo até que o Benfica o conseguiu desviar do Barcelona e anunciou a sua contratação.

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A rivalidade com o outro campeão Nelson Évora

O atleta foi oficializado no clube encarnado em abril, pouco depois de Nelson Évora ter assinado pelo Sporting, e a naturalização demorou apenas alguns meses, ao abrigo de um inicial estatuto de refugiado. A 7 de dezembro, Pichardo já era português, mas ainda teve de esperar quase ano e meio para competir com as cores nacionais.

A chegada do atleta ao Benfica levou a uma rivalidade com Nelson Évora, com algumas farpas pelo meio, como foi o caso das declarações do medalhado de ouro de Pequim2008, após se ter despedido nos Jogos Olímpicos. Em 2019, ainda estava no clube de Alvalade, Évora, hoje atleta do Barcelona, chegou mesmo a afirmar, em declarações ao jornal dos leões, que a naturalização de Pichardo era um "ataque pessoal". "Todos têm o direito de mudar de nacionalidade. Somos cidadãos do mundo. Acho é que não temos o direito de passar por cima de muitas coisas, de uma história. Por interesses clubísticos fizeram-se coisas inacreditáveis. Cheguei a Portugal com seis anos de idade. Foi nesse sentido que não achei justo. Foi feito por questões clubísticas e com o objetivo de ataque pessoal quando não houve nenhuma má intenção da minha parte na mudança de um clube para o outro. Não sei porque é que deram a volta ao mundo para fazer esta borrada", afirmou.

Pichardo não se ficou e, em entrevista ao DN em 2018, falou em "quebra de confiança" com o companheiro de profissão.

"Conheci-o em competições, até que nos Mundiais de 2015 ele foi medalha de bronze e eu de prata. Nessa altura falámos muito, no pódio, na sala de imprensa e começámos uma boa amizade. Já em Portugal continuámos essa boa relação e falámos, mas quando tive a nacionalidade portuguesa, não sei o que se passou... de um momento para o outro ele bloqueou-me nas redes sociais. Não fiz mal a ninguém, não é ilegal, só faço triplo salto. Quebrou-se a confiança", vincou.

Polémicas à parte, Pichardo gosta de jogar Playstation nos tempos livres e a zona do país de que mais gosta é o Algarve, por lhe lembrar Cuba. Não gosta de bacalhau e tem como sonho ultrapassar a barreira dos 19 metros. Mas hoje, já conseguiu a medalha mais desejada. E o hino português ouviu-se no Japão.

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