
João Nepomuceno Andrade
DR
Antigo espião foi diretor regional na Madeira e pertencia ao topo da hierarquia de grupo internacional que lesou 13 mil pessoas em todo o Mundo com promessa de lucro fácil. É acusado de associação criminosa, burla e branqueamento.
Era um gigantesco esquema de burla em pirâmide que prometia lucros chorudos e em tempo recorde. Em apenas um ano, os cérebros da "bolha", batizada com a marca Wings, angariaram, a partir de Portugal, cerca de 13 mil clientes em todo o Mundo e arrecadaram mais de 15 milhões de euros. O Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) do Ministério Público (MP) acaba de acusar 11 arguidos e duas empresas por crimes de associação criminosa, burla e branqueamento de capitais.
A fraude, criada por cidadãos brasileiros, atualmente em parte incerta, tinha na liderança em Portugal um homem que passou a vida na sombra. João Nepomuceno Andrade, de 64 anos, que foi espião do Serviço de Informações de Segurança (SIS), chegou ao topo da carreira e aposentou-se como diretor regional da Madeira, em 2003. A estrutura foi desmantelada pela Polícia Judiciária (PJ) de Setúbal em 2015 e tinha uma organização empresarial hierarquizada, escudada em duas firmas, uma delas a Happy SGPS, SA.
O engodo para atrair investidores eram supostas aplicações informáticas que, prometiam, revolucionariam o mercado global digital. Sérgio Tanaka, brasileiro, de 45 anos, natural de São Paulo, que se apresentava como detentor de uma holding com presença em seis países, era o presidente do Conselho de Administração.
De acordo com a acusação, a que o JN teve acesso, o esquema começou em setembro de 2013, no Brasil, onde Tanaka, auxiliado pelos compatriotas Cláudio Campos, José Lima e Rogério Coelho e pelo português Carlos Barbosa, planeou o sistema de pirâmide financeira Wings e Wings Network.
"De uma forma organizada e metódica, os arguidos definiram o modelo de funcionamento, a marca, o site, formas de recebimento, ações de divulgação, necessidade de advogados e contabilistas, bem como a presença na comunicação social", explica o MP. Também criaram um simulador informático onde era efetuado o registo de aquisições dos pacotes e sistemas multiníveis por parte dos novos participantes.
Logro das aplicações
Dando uma aparência de legalidade, vendiam aplicações informáticas, desde soluções para criar páginas personalizadas na Internet, através do telemóvel, até ao marketing digital e armazenamento de dados protegidos numa nuvem virtual. Nada disso existia.
Como o objetivo era angariar o máximo de clientes possíveis num curto espaço de tempo, decidiram recrutar na Europa. Quiseram atacar em simultâneo em Portugal, Espanha e Itália e, para cada país, definiram um plano de ação com organização de eventos para promover o esquema. Por exemplo, webseminários de apresentação, vídeos promocionais, formações, mas também publicidade nos média.
Espião nas apresentações
É aqui que entra João Nepomuceno Andrade, o ex-espião do SIS. Segundo o DCIAP, pertencia ao topo da pirâmide em território nacional e fazia as apresentações principais para angariação de novas vítimas. Chegou a intervir em encontros com centenas de pessoas e a fazer vídeos promocionais. Prometia lucros elevados, rápidos e seguros a quem investisse ou angariasse novos investidores.
Outro elemento da rede pertenceu à PSP. José Anastácio, 46 anos, residente em Setúbal. É acusado de se ter feito passar por consultor financeiro para enganar investidores e sacar-lhes 250 mil euros.
O esquema terminou a 20 de junho de 2014, altura em que veio a público uma investigação à Wings nos Estados Unidos da América. Deixaram de responder aos clientes. Após vários anos em fuga, Carlos Barbosa, considerado o número dois na Europa, foi detido pela PJ e entretanto libertado. Tal como os outros, aguarda julgamento.
Perfis
Sérgio Tanaka
Era o presidente do Conselho de Administração e principal beneficiário do esquema. Quando vinha para Portugal, para controlar o esquema, viajava sempre em classe executiva enquanto os outros arguidos ficavam na turística.
Carlos Barbosa
Era o número dois da estrutura e tinha a função de CEO, para além de ser o seu rosto oficial. Aparecia em vídeos e eventos públicos. Foi detido pela Polícia Judiciária de Setúbal em 2017, após longos meses em fuga.
João Nepomuceno Andrade
Considerado um dos líderes da pirâmide em Portugal, foi agente da PSP até 1994, altura em que seria nomeado, em comissão de serviço, para o SIS, onde ficou até 2003. Reformou-se nesse ano, quando era diretor regional do SIS.
