
Em Portugal, existem cerca de 260 barragens
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JN KIDS - Produzem energia, guardam a água que cai no inverno para ocasiões do ano em que não chove, servindo cidadãos e produções agrícolas. Até protegem as populações de cheias quando chove. Porém, quando a chuva é muita - como é o caso agora em Portugal e Espanha -, é preciso libertar água para deixar entrar a nova que vem, procurando minimizar o risco de inundação.
Quantas barragens existem em Portugal?
Em Portugal, existem cerca de 260 barragens com altura superior a 15 metros e capacidade de armazenamento acima de um milhão de metros cúbicos, segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Estima-se ainda a existência de mais de oito mil açudes e pequenas barragens espalhados pelo território nacional, cuja principal finalidade é assegurar a rega de zonas agrícolas e o abastecimento de água para consumo animal. Estas infraestruturas podem ser construídas em betão, terra ou pedra.
Para que servem as barragens?
Estas estruturas implantadas em zonas de declive acentuado dos rios "guardam" a água que serve depois para utilizações posteriores em rega, abastecimento público - a água que sai nas torneiras - e para a produção de energia, gerindo, quer no espaço geográfico quer ao longo das estações do ano, as necessidades da região onde se situam. Ao fazerem essa gestão, as barragens retêm e armazenam água em "lagos artificiais" para fazer face a alturas do ano em que não chove. Apesar de não evitarem as cheias nos rios, como temos vindo a assistir nas últimas duas semanas em que as barragens - com capacidade limitada - tiveram de libertar água devido às fortes chuvas e água que vinha de rios espanhóis, estas estruturas podem ajudar a atenuar os efeitos das inundações, sobretudo para cheias frequentes e de média frequência.
Contudo, as barragens também trazem desvantagens, alterando paisagem, habitats naturais e mesmo submergindo zonas anteriormente habitadas. Foi o caso, por exemplo, da Aldeia da Luz, no Alentejo, quando a barragem do Alqueva, no rio Guadiana, foi construída. Em novembro de 2002, foi concluída uma nova Aldeia da Luz para a qual foram mudados os seus cerca de 400 habitantes originários, numa nova zona onde as águas do "grande lago" já não chegariam.
Com as tempestades das últimas semanas, quanta água foi já libertada?
Desde o primeiro dia do ano até 7 de fevereiro, o presidente da APA, José Pimenta Machado, revelou que tinham já sido libertados 750 hectómetros cúbicos de água (um hectómetro equivale a mil milhões de litros), ou seja, o consumo médio de todos os portugueses num ano inteiro. Esta quantidade enorme de água estava retida nas albufeiras que as barragens formam, mas tiveram de ser libertada sem que fosse possível fazer outro aproveitamento da mesma.
Qual está a ser a estratégia usada para a descarga?
Mediante tanta chuva, a estratégia tem passado, segundo os vários responsáveis têm afirmado nas últimas semanas, pelas descargas controladas. A água das barragens vai sendo libertada sobretudo quando a precipitação aumenta e as marés o permitem, uma decisão que acontece para conseguir "ganhar" espaço para a nova água que chega. Foi classificada como decisão arriscada porque a tempestade poderia não vir e a água previamente libertada poderia fazer falta mais tarde, mas tal não aconteceu, o que evitou cheias de ainda maior dimensão. Contudo, com a sucessão de tempestades que têm atravessado o território nacional, esse "espaço" que se criou nas albufeiras vai diminuindo, aumentando depois a pressão e, com isso, o risco de cheias de cada vez que se abrem as comportas.
Como nos relacionamos com Espanha quando os rios atravessam os dois países?
Portugal e Espanha têm de dialogar sobre a gestão de todas as bacias dos rios que os dois países partilham - Douro, Guadiana, Minho e Tejo - quer quando há cheias, quer quando há escassez de água. Nas últimas semanas, é o primeiro cenário que se tem vindo a impor, numa circunstância em que os dois países têm vindo a registar um longo período de chuvas. O Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico, que tem a tutela do ambiente e dos rios em Espanha, tem estado em colaboração com o Comité Permanente da Comissão de Descarga de Barragens para coordenarem decisões por forma a proteger as populações.
Ter as barragens cheias agora significa que vamos ter mais água no verão?
Barragens cheias no inverno são, em regra, um sinal positivo para o verão, pois garantem maiores reservas de água para consumo humano, agricultura e produção de energia, reduzindo o risco imediato de escassez. No entanto, não constituem uma garantia absoluta, uma vez que o verão português é longo e seco, o consumo aumenta, a evaporação é elevada e a situação varia entre bacias hidrográficas. Assim, a tranquilidade nos meses mais quentes dependerá sobretudo de uma gestão cuidadosa das reservas e de um uso responsável da água ao longo da primavera e do verão.

