
Sandro, pai de Valentina
Orlando Almeida / Global Imagens
Desconfiava que a filha, Valentina, de nove anos, tivesse mantido contactos sexuais com colegas de escola e com o padrinho e decidiu arrancar-lhe uma confissão à pancada.
Agrediu-a com uma colher de pau e um chinelo, com palmadas e murros. Apertou-lhe o pescoço e queimou-a com água a ferver na zona genital. A criança acabou por sofrer uma hemorragia interna e morreu, após horas de agonia. A madrasta assistiu a tudo e ajudou o companheiro a esconder o corpo numa mata, em Peniche. O caso, que chocou o país, vai a julgamento na próxima quarta-feira e os dois acusados decidiram contar tudo aos juízes do Tribunal de Leiria. Dizem que estão arrependidos.
De acordo com uma fonte ligada à defesa, ambos decidiram que vão falar no julgamento para explicar como Valentina morreu e como levaram o corpo para a zona florestal onde tentaram esconder o cadáver. "Eles estão muito arrependidos e há muita coisa que precisa de ser elucidada. Vão explicar o que é possível explicar", disse ao JN a mesma fonte.
suspeita de abusos
O confinamento, imposto pela pandemia em março do ano passado, obrigou Valentina a trocar o Bombarral, onde vivia com a mãe, pela casa do pai, no n.º 18 da Rua Jerónimo Ataíde, em Atouguia da Baleia, Peniche. Na pequena habitação, viviam o progenitor, Sandro Bernardo, 33 anos, a madrasta, Márcia Monteiro, 39 anos, o filho desta, de 13, e ainda as duas filhas do casal, uma de cinco anos e outra com sete meses.
De acordo com a acusação do Ministério Público de Leiria, Sandro estava convencido de que a filha tinha mantido contactos sexuais com colegas da escola. A 1 de maio, cinco dias antes de Valentina morrer, o pai confrontou-a com as suspeitas. Para a abrigar a falar, ameaçou-a com uma colher de pau. Valentina acabou por admitir, não se percebe, a partir da acusação, se foi para que a violência acabasse. Não o conseguiu, pois desferiu-lhe palmadas nas pernas.
A fúria passou, mas após uma conversa a sós com a madrasta e por indicação desta, Valentina confessou outra coisa ao pai. Teria sido vítima de abusos de um adulto que tratava por padrinho. Esta situação foi investigada pelo MP e arquivada por não haver qualquer prova. Novamente enfurecido, Sandro voltou a bater na criança, com a colher de pau. Valentina sofreu lesões que foram detetadas, mais tarde, na autópsia.
terror na banheira
Já na manhã do dia 6 de maio, sem nunca ter alertado as autoridades sobre as suas suspeitas, o pai voltou a confrontar a filha. Queria saber, a todo o custo, se ela tinha sido "violada". Seguiram-se mais agressões, a que a madrasta assistiu.
Levou a menina para a casa de banho, onde a despiu parcialmente e a manteve à força na banheira. Ameaçou-a com água a ferver, sabendo que Valentina lhe tinha pavor. Queria saber qual era a natureza dos contactos sexuais com o padrinho. Como a filha nada revelava, atirou-lhe água a ferver para a zona genital, enquanto ela implorava que parasse. Ainda segundo o MP, perante a falta de resposta, Sandro deu-lhe murros por todo o corpo. Agarrou num chinelo e continuou a bater-lhe até a sola ficar marcada na pele.
Sempre perante a passividade de Márcia, Sandro deu uma forte pancada na cabeça da criança, provocando uma hemorragia interna. Valentina caiu, inanimada, e, pouco depois, começou a ter convulsões. Ouvindo os gritos, o filho mais velho de Márcia foi à casa de banho saber o que se passava, mas os arguidos mandaram-no para o quarto e ficar calado. Disseram-lhe que perderia as irmãs se contasse alguma coisa.
Horas de agonia e dor
Valentina continuava em agonia, mas ninguém chamou por socorro. Deitaram a criança no sofá, onde ficou até à noite, e disseram aos outros filhos que a criança, naquele momento já moribunda, estava a dormir. Durante a tarde, saíram de casa para fazer compras e ir à lavandaria.
A meio da tarde, o filho mais velho viu Valentina a espumar-se e avisou a mãe. Quando perceberam que a menina morrera, decidiram esconder o corpo. Esperaram pela noite, colocaram-no no carro e conduziram nove quilómetros até uma zona florestal, na Serra d"El Rei, onde o pai escondeu o cadáver com arbustos. No dia seguinte, participaram à GNR que a menina tinha desaparecido. Foram presos dias depois.
Pormenores
Mãe é primeira testemunha
Sónia Fonseca, a mãe de Valentina, é a primeira testemunha de acusação que irá prestar declarações em julgamento, depois de o tribunal ouvir Sandro e Márcia.
Abuso sexual arquivado
O suposto abuso sexual de que teria sido vítima Valentina foi arquivado pelo Ministério Público. A situação foi investigada mas as autoridades nada descobriram que sustentasse a prática dos crimes.
Os dois em prisão preventiva
Os dois arguidos foram detidos pela Polícia Judiciária de Leiria e colocados em prisão preventiva. Sandro Bernardo está na cadeia de Lisboa e Márcia Monteiro ficou na prisão de Tires.
