Serviço remunerado na Polícia: todos se queixam, mas ninguém abdica do dinheiro

Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens
A maioria dos polícias considera que o serviço remunerado não dignifica a profissão, torna os agentes mais negligentes e suscetíveis ao erro e devia ser efetuado por empresas privadas. Os mesmos agentes estão, no entanto, contra a extinção de um trabalho que lhes garante um rendimento fundamental para fazer face às suas despesas. As conclusões são de Cédric Oliveira da Costa e estão plasmadas na tese de mestrado "Os serviços remunerados na Polícia de Segurança Pública: Um mal necessário ou um bem (in)dispensável?".
Na dissertação apresentada no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, Cédric Oliveira da Costa defendeu que o serviço remunerado tem a vantagem de ser "uma fonte de rendimento extra", que "combate os empregos paralelos" nas forças de segurança e que contribui para que haja a "a perceção de reforço do policiamento".
O então aluno do XXXII Curso de Formação de Oficiais de Polícia apurou, em 2020, que estas virtudes não chegam para colmatar as desvantagens. "A imagem várias vezes associada à presença de um polícia à porta de um qualquer supermercado levanta dúvidas quanto à dignidade daquela missão, de cariz particular e que as pessoas terão a tendência para menorizar, considerando que qualquer pessoa, à troca de uma determinada quantia, pode usufruir de algo que deveria ser público", escreveu.
Descansar durante o serviço ordinário
Com base num inquérito a 1257 polícias do Comando Metropolitano de Lisboa, o agora oficial da PSP advogou que o "aumento de horas de trabalho e consequente ausência de tempo de lazer" pode tornar "os polícias mais suscetíveis ao erro". "Além de se considerarem mais cansados, quando comparados com os que completam menos horas de trabalho, [os agentes que efetuam remunerados] admitem também alguma negligência, descansando, por vezes, durante o serviço ordinário, por forma a compensar o esforço suplementar decorrente dos serviços extraordinários", descreveu.
"Cerca de metade" dos polícias inquiridos concordou, ainda, que muito dos serviços remunerados "são mais indicados para os profissionais da segurança privada do que propriamente para polícias". Assim, concluiu Cédric Oliveira da Costa, "salvo em situações muito pontuais, não deveria ser permitido aos polícias a realização de serviços remunerados nos seus dias de folga, sob pena de, com o tempo, a fadiga acumulada vir a ter consequências irreversíveis nos indivíduos, nas suas famílias e na própria comunidade".
Isto porque, continuou, "é prática corrente um polícia ser escalado para um serviço remunerado logo após, ou até mesmo algumas horas após o términus do turno noturno, altura do dia em que a privação do sono, associado às horas de trabalho anteriores, podem levar à perda do desempenho cognitivo e, consequentemente, a maior exposição ao erro".
Casos
Agente da PSP: "Estava sempre com a farda vestida"
António, 40 anos de idade e 15 de polícia. O nome é falso, mas as palavras saíram diretamente da boca de um agente que considera que "os serviços remunerados são o cancro da PSP". Mesmo que, como alega, sejam um complemento importante ao ordenado dos agentes da autoridade.
Colocado no Comando Metropolitano de Lisboa durante os primeiros 11 anos da carreira, António acrescentava entre 400 e 500 euros dos serviços remunerados a um salário que, só agora, passou a rondar os 1200 euros. "Compensava em termos financeiros, sobretudo quando pagava uma renda de casa em Lisboa e outra no Norte", justifica.
Tal como a maioria dos colegas, o dinheiro e só o dinheiro levou o agente a aceitar passar quatro horas seguidas junto à porta de um hipermercado ou nas urgências da Maternidade Alfredo da Costa e do Hospital Dona Estefânia. Também trabalhou num bingo da capital. "Saía às 4 horas e entrava ao serviço na manhã seguinte, às 7.45 horas. Estava sempre com a farda vestida e não tinha vida social", recorda.
Tantas horas de trabalho tiveram consequência. "É óbvio que o cansaço refletia-se no serviço. Ninguém consegue estar concentrado todo o dia só com duas horas de sono", frisa. Devido a esta repercussão, que se estende a parte significativa do efetivo da PSP, António defende que os serviços remunerados "não beneficiam em nada a profissão de polícia". "São serviços para um segurança privado fazer", frisa.
Militar da GNR: "O pessoal está cansado"
"Às vezes, faço quatro remunerados num dia". O desabafo é de um militar da GNR, com 15 anos de experiência, que descreve um dos últimos serviços para que foi escalado, num posto do Grande Porto. "No fim de um turno de oito horas, saí às 7 horas e, hora e meia depois, iniciei um remunerado que durou até às 12.30 horas. Às 13.30 horas estava de novo a controlar o trânsito junto a umas obras na estrada, serviço que acabou às 17.30 horas".
Se, nesse dia, houvesse uma festa popular, este guarda faria, muito provavelmente, outro serviço remunerado entre as 20 e as 2 horas, antes de começar novo turno de trabalho ordinário às 7 horas. "Há guardas que fazem gratificados cinco dias numa semana. E os fins de semana são para esquecer. Os guardas passam os dias nos campos de futebol", afirma.
Este militar, que falou ao JN também sob anonimato, queixa-se de "não ter vida própria" devido a um volume de trabalho que "influencia a relação familiar". "Há colegas que, por causa de problemas conjugais, deixaram de fazer este tipo de serviço", revela.
Ele, mesmo cansado, continuará a aceitar o escalonamento para remunerados, porque o benefício financeiro equilibra um salário que considera curto. "Em janeiro deste ano, fiz 30 remunerados e recebi 1175 euros. Mas em maio, por exemplo, só recebi 295 euros", relata.
Aos 42 anos, e com um ordenado base de cerca de 1100 euros, este guarda não tem dúvidas que "o pessoal está cansado", mas abdicar do dinheiro não é opção.
