Reação

O que disse Rui Pinto: da "parcialidade" da PJ às revelações sobre o F. C. P.

O que disse Rui Pinto: da "parcialidade" da PJ às revelações sobre o F. C. P.

O hacker Rui Pinto, que esta terça-feira viu o Tribunal de Budapeste aprovar a extradição da Hungria para Portugal, diz não se arrepender de nada e anunciou que vai recorrer da decisão.

Em conferência de imprensa, o gaiense criticou a "apatia" das autoridades portuguesas, a "parcialidade" da Polícia Judiciária e lembrou que o F. C. Porto - a quem diz ser associado - também não escapou às revelações da Football Leaks.

Programa de proteção de testemunhas

"Foi-me oferecido [pelas autoridades francesas] um programa de proteção de testemunha porque disseram que a minha situação era crítica e que eu estava em risco [devido às ameaças de morte recebidas]. É lamentável que as autoridades portuguesas nunca tenham tomado isso em consideração. Fico claramente com a impressão que as autoridades portuguesas podem querer que me aconteça alguma coisa. Existe já jurisprudência europeia para a proteção de denunciantes. E por isso é lamentável também que as autoridades portuguesas não tomem isso em atenção e me queiram tratar como um criminoso."

Colaboração com autoridades francesas

"(...) É lamentável que as autoridades portuguesas não tenham oferecido qualquer tipo de ajuda. Como disse, sempre estive disposto a colaborar com todas as autoridades. Felizmente, as autoridades francesas deram mais garantias de que querem lutar contra crimes relacionados com o futebol. Estive em conversações com eles desde 2016, mas as conversações foram dificultadas pelo facto de eu querer permanecer no anonimato. Até que no final de 2018, decidi ir a Paris e testemunhar junto dos procuradores franceses."

Parcialidade da Justiça portuguesa

"Infelizmente não posso confiar nas autoridades portuguesas. Já deram provas que, em casos relacionados com o futebol, são completamente parciais (...) É bastante claro que não houve nenhum clube de futebol, nenhum elemento de clube de futebol que fosse condenado a crimes, sei lá, de corrupção, de lavagem de dinheiro. Nada. Nos outros países, as investigações existem, há resultados e não estou apenas a falar do futebol. Basta ver no caso de Portugal, os LuxLeaks, os Panama Papers, o SuisseLeaks. Em Portugal, parece que não acontece nada, não há nenhuma investigação. O Estado não consegue recuperar dinheiro nenhum. Nos outros países, as investigações avançam, recuperam milhões, mas em Portugal não recuperam nada".

"O caso do Benfica é um exemplo em como a justiça em Portugal é inexistente no que toca ao futebol. Isso é óbvio."

E-mails do Benfica e as autoridades portuguesas

"Existem casos de corrupção com o clube Benfica. Mas, apesar disso, existe uma clara apatia das autoridades portuguesas e não existe vontade dessas autoridades em perseguir os clubes de futebol e os elementos desses clubes de futebol (...) A minha opinião sobre os e-mails do Benfica sincera: é de interesse público."

"Esta tentativa de colagem que existiu do Football Leaks aos emails é absolutamente ridícula."

Combate à "corrupção" no futebol português

"(...) Temos inspetores da PJ, magistrados, juízes que infelizmente levam a paixão clubística muito a sério, recebem convites VIP para assistirem a jogos de futebol. Basta isso para se perceber que as coisas em Portugal não vão mudar. Portugal está podre. Entristece-me. Vejo outros países motivados em lutar contra a corrupção no futebol e Portugal não está. É tudo uma treta. O que se tem passado no caso dos emails, e-Toupeira... Não vai acontecer nada."

Fundo Doyen e a máfia do Cazaquistão

"As revelações do Football Leaks mostraram claramente diversas irregularidades com esse fundo. Existem provas claríssimas que esse fundo é gerido pela máfia do Cazaquistão, mas, apesar disso, as autoridades portuguesas decidiram não investigar o fundo Doyen. Recebi vários pedidos de autoridades europeias, incluindo de um serviço secreto europeu para investigar as atividades desse fundo de investimentos e também para investigar diversos clubes e agentes de futebol."

Suspeitas sobre a PJ

"Se elementos ligados à Doyen tiverem reuniões clandestinas com inspetores da PJ que nem fazem parte do processo, isto é gravíssimo. Quando vemos inspetores da PJ a usarem emails pessoais para falarem com elementos da Doyen e tratarem-se quase como amigos, é gravíssimo. O Ministério Público investiga? Não quer saber disso. Provas? Tenho, estão em França. Entreguei provas disso às autoridades francesas. Têm documentos claríssimos que mostram que a investigação foi feita de maneira completamente irregular. Isto é escandaloso."

Revelações do F. C. Porto

"O Football Leaks revelou pormenores bem interessantes do F. C. Porto. Por exemplo, a colaboração com a Doyen, comportamentos que considero estranhos em relação à participação do filho de Pinto da Costa, Alexandre Pinto da Costa, também outro fundo registado na Áustria, em Viena, chamado Danubio... Existem algumas coisas que me fazem acreditar que possa talvez haver desvio de fundos no F. C. Porto, o que me entristece. Pinto da Costa para mim é um dos melhores presidentes que o futebol europeu já teve, mas também comete erros. E entristece-me algumas coisas que soube sobre o F. C. Porto. Parte delas já são públicas. Se mais vão ser reveladas? Há essa possibilidade. (...) Acho de muito mau gosto algumas acusações em Portugal de que sou movido pelos interesses do F. C. Porto. Sou portista mas não tenho nenhuma agenda escondida."

Enriqueceu com o Football Leaks?

"Não recebi um cêntimo. Chegaram a dizer que recebia 1 euro por cada livro, é mentira. (...) Quem lê o livro consegue perceber como vivo. Ajudo o meu pai no negócio das antiguidades. Tenho uma paixão pela história. Fiquei surpreendido com algumas acusações de que recebia dinheiro do F. C. Porto ou de algumas empresas."

Futuro do Football Leaks

"O Football Leaks não vai parar. Não estou sozinho. Os meus advogados estão a tratar do assunto, isto ainda é o início. Se há mais portugueses envolvidos? Não vou falar sobre isso."

Quem paga a defesa?

"Uma fundação americana que se dedica a ajudar 'whistleblowers' [denunciantes], como é meu caso, vai pagar todas as verbas aos advogados."