Football Leaks

Quem é Rui Pinto, o gaiense que abalou o Mundo do futebol

Quem é Rui Pinto, o gaiense que abalou o Mundo do futebol

Rui Pinto, de 30 anos, é um autodidata na arte de contornar os sistemas de segurança informáticos e é, pelo menos nesta altura, o único suspeito de ter roubado milhares de e-mails do Benfica.

Rui Pinto terá entrado na pirataria informática há meia dúzia de anos, enquanto vivia na casa dos pais, em Lavadores, Vila Nova de Gaia. Licenciado em História, fez Erasmus em Budapeste, capital da Hungria onde se refugiou nos últimos anos, até ser descoberto e levado a um tribunal, que ordenou a extradição para Portugal.

Apaixonado por Arqueologia e natural de Vila Nova de Gaia, Rui Pinto já reconheceu ter sido o autor da divulgação, através do denominado "Football Leaks", de segredos contratuais do F. C. Porto, Sporting e outros clubes europeus. Rapidamente se tornou caso mundial, com revelações sobre a própria UEFA ou clubes como o PSG (França), o Manchester City (Inglaterra) ou o Twente (Holanda).

Cristiano Ronaldo é um dos futebolistas que o Football Leaks mais afetou. Os documentos usados pelo Fisco espanhol obrigaram o internacional português a pagar 18,8 milhões de euros de impostos em falta, para evitar prisão efetiva. A investigação aos e-mails fornecidos por Rui Pinto à revista alemã "Der Spiegel" levou Ronaldo a ser publicamente confrontado com acusações de violação alegadamente perpetrada há vários anos em Las Vegas nos Estados Unidos. Nasceu o caso Kathryn Mayorga.

O acervo de documentos usado pelo Fisco espanhol também levou ao banco dos réus José Mourinho. Tal como Ronaldo, foi acusado de usar empresas offshore para esconder rendimentos. Recentemente, aceitou uma condenação a um ano de prisão, com pena suspensa, e o pagamento de uma multa de dois milhões de euros, por fraude fiscal.

Autoridades de Portugal, Espanha, Reino Unido, Irlanda e Holanda estão a passar a pente fino os negócios do "superagente" Jorge Mendes. Existem suspeitas de fraude fiscal que foram expostas pelas informações veiculadas pelo Football Leaks.

A investigação em Portugal passa pelos "três grandes" do futebol

Rui Pinto começou a ser investigado em Portugal em 2015 por suspeita de ter roubado os segredos da Doyen Investment Sports, um fundo de investimento no futebol, bem como de contratos de jogadores do F. C. Porto, sobretudo os que implicaram pagamento de comissões a Alexandre Pinto da Costa, filho de Pinto da Costa - casos de Defour e Mangala.

No alegado ataque aos leões, Rui Pinto terá sido o autor da divulgação dos contratos dos futebolistas Marcos Rojo e Labyad e do treinador Jorge Jesus publicados na Internet. O mundo do futebol ficou então a saber, por exemplo, que Jesus tinha um salário de cinco milhões de euros anuais a que poderia somar mais dois milhões caso se sagrasse campeão nacional.

É, por agora, o único suspeito de ter revelado os e-mails do Benfica. Divulgada por Francisco J. Marques, no Porto Canal, a informação estará na origem de vários processos judiciais dos encarnados, como o e-Toupeira, Mala Ciao e Lex.

Paulo Gonçalves, ex-assessor jurídico do Benfica, arguido no caso dos e-mails, já foi formalmente acusado pelo Ministério Público no caso e-Toupeira, em que também irá responder um funcionário judicial, suspeito de ter informado o dirigente encarnado sobre processos em segredo de justiça.

No âmbito da Operação Mala Ciao, a PJ do Porto realizou 24 buscas, incluindo às instalações do Vitória de Setúbal, Desportivo das Aves, Marítimo e Paços de Ferreira. Em causa está um eventual esquema de empréstimos de jogadores dos encarnados a clubes da I Liga, com o objetivo de adulterar a verdade desportiva e manipular resultados.

Na Operação Lex, Luís Filipe Vieira é suspeito de prometer oferecer ao juiz Rui Rangel um cargo na futura universidade das águias em troca de uma cunha num processo fiscal. Ambos foram constituídos arguidos, tal como outros 11 indivíduos. O fim do segredo de justiça interno decretado há cerca de um mês já permite aos arguidos contactarem entre si.

As autoridades portuguesas apontam para Rui Pinto porque os métodos de intrusão informáticos usados no caso do "Football Leaks" e no roubo de correspondência do Benfica são os mesmos. Um dos e-mails usados para piratear os e-mails do Benfica também tinha sido usado no "Football Leaks".

Um método único de intrusão que o evidencia como suspeito

Conhecido por "Spear Phishing", o tipo de ataque utilizado por Rui Pinto distingue-se de outras técnicas de intrusão. "Trata-se de um ataque feito em função de uma seleção de um alvo - pessoa ou empresa - muito concreto, sobre o qual é feita uma investigação nas redes sociais. O hacker procura saber os dados pormenorizados do alvo, as suas rotinas", explicava a edição da revista "Sábado", num artigo sobre o pirata gaiense.

Assume-se como um "whistleblower" - ou seja, um denunciante de crimes. É defendido pelos advogados William Bourdon (francês ligado à defesa do antigo funcionário da CIA e da NSA, nos Estados Unidos, Edward Snowden) e Francisco Teixeira da Mota, um dos maiores especialistas portugueses em liberdade de expressão.

A tese da defesa assenta no pressuposto de que Rui Pinto, enquanto "whistleblower", deve ser protegido mediante o interesse público das suas denúncias, ao abrigo das regras europeias.

Antes foi implicado num caso de desvio de cerca de 300 mil euros de contas do Caledonian Bank, sediado nas ilhas Caimão e com milhares de contas offshore. Posteriormente, foi descoberto e devolveu parte do dinheiro.

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