Operação Marquês

Relação com Salgado era formal, disse Sócrates ao juiz Ivo Rosa

Relação com Salgado era formal, disse Sócrates ao juiz Ivo Rosa

O ex-primeiro-ministro José Sócrates garantiu ontem ao juiz Ivo Rosa, no primeiro dia em que foi interrogado no âmbito da instrução do processo Operação Marquês, que a sua relação com Ricardo Salgado, ex-presidente do Banco Espírito Santo, era "muito formal".

O Ministério Público (MP) acredita, porém, que o antigo governante socialista terá sido subornado em mais de 20 milhões de euros pelo ex-banqueiro para, através da "golden share" do Estado na Portugal Telecom (PT), submeter a atuação do Governo na gestão da companhia aos interesses do Grupo Espírito Santo (GES).

Em causa estão, sobretudo, o chumbo da Oferta Pública de Aquisição (OPA) da Sonae sobre a PT e os novos investimentos da empresa no setor de telecomunicações no Brasil, com a venda da participação na Vivo e aquisição de uma parte da Oi. Remontam ambos a 2006, um ano depois de Sócrates ter sido eleito primeiro-ministro pela primeira vez.

Atira culpas para Passos

Ao que o JN apurou, ontem garantiu que atuou no interesse do Estado e que nunca sofreu pressões de Salgado. Além do antigo governante, o ex-banqueiro terá ainda corrompido, com o mesmo fim, os ex-administradores da PT Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, igualmente arguidos no processo. Ambos negam os factos de que estão acusados.

No seu interrogatório, o ex-primeiro-ministro aproveitou, de resto, a ocasião para culpar o seu sucessor no cargo, Pedro Passos Coelho (PSD), pela captura da PT pelo GES. Até 2011, quando saiu do Governo, não era assim, garantiu Sócrates.No total, o MP acusou o ex-primeiro-ministro de 31 crimes de corrupção, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada, entre os quais cinco em coautoria com Salgado e nem todos relacionados com a PT.

Entre eles, estão dois de branqueamento de capitais em coautoria também com o empresário luso-angolano Hélder Bataglia e José Pinto de Sousa, primo de Sócrates.

O MP defende que este último terá autorizado que contas bancárias sediadas na Suíça e tituladas por sociedades offshore fossem utilizadas para movimentar dinheiro destinado ao ex-primeiro-ministro. Mas, ao que apurou o JN, este negou, ontem à tarde, ter alguma vez recebido qualquer montante daquele familiar.

Ao todo, o interrogatório, requerido pelo próprio Sócrates, durou cerca de cinco horas, à porta fechada. À chegada ao Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), em Lisboa, o antigo governante não escondeu, de resto, a intenção de reiterar a sua inocência.

"Venho repor a verdade. Bem sei que é um longo caminho, mas é aquilo que tenho feito ao longo de cinco anos", afirmou aos jornalistas, numa referência ao tempo que passou desde que, a 21 de novembro de 2014, foi detido. Um caminho, acrescentou, "mais árduo do que o daqueles que têm feito alegações completamente infundadas, injustas e até absurdas". Já na sala de audiências, chegou mesmo, ao que apurou o JN, a classificar a acusação do MP de "delirante".

Regressa hoje a tribunal

Cinco horas depois, Sócrates abandonou o TCIC visivelmente satisfeito, mas sem comentários. Confirmou ainda que responde hoje a mais questões do juiz e dos procuradores do MP.

A tarde será a segunda das quatro reservadas por Ivo Rosa até depois de amanhã para interrogar o ex-primeiro-ministro. À entrada, um dos procuradores titulares do inquérito, Rosário Teixeira, adiantara "não esperar nada de novo" do interrogatório a Sócrates.