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Traumas com mais impacto na saúde mental dos polícias do que a covid

Traumas com mais impacto na saúde mental dos polícias do que a covid

Os resultados preliminares de um estudo sobre o impacto da covid-19 na saúde mental dos agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), publicado pela Academia Europeia de Polícia (CEPOL), revelaram que a pandemia afetou desproporcionalmente os profissionais desta força de segurança.

"A preocupação em ser exposto a um vírus potencialmente fatal parecia causar menos tensão e ter menos repercussão psicológica nos polícias do que a exposição a experiências relacionadas com ferimentos graves ou morte, mesmo que essas experiências não sejam uma ameaça direta" é possível ler no projeto de investigação, que assinala ainda que é nos agentes com menos de 11 anos de experiência profissional onde há "menos sintomas de stresse pós-traumático (SPT) em comparação com aqueles com experiência profissional mais longa".

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Já os níveis de stresse pós-traumático entre polícias casados ou que viviam em união de facto revelaram-se "mais baixos" do que entre os agentes que relataram ser solteiros, divorciados ou viúvos durante o período pandémico. No que toca ao impacto da covid, a responsabilidade em cuidar de um familiar idoso também significou um aumento do sofrimento psíquico e dos níveis de stresse pós-traumático.

Conduzido por dois investigadores da Mid Sweden University e da Umeå University, na Suécia, o estudo pretendeu medir o efeito da exposição à covid-19 na saúde mental dos polícias, uma vez que estavam "entre os trabalhadores da linha da frente" com o papel específico de fazer cumprir as estratégias de gestão da pandemia, "como restrições, recolheres obrigatórios e confinamentos".

"Os polícias estavam na linha da frente, mas, contrariamente aos enfermeiros que estavam a ser recebidos como heróis, os agentes não o estavam a ser. Isso agravou ainda mais o stress. Embora eles possam sentir que estão a ajudar população, a população não os reconheceu. E, por isso, achamos que era importante estudar este grupo", adiantou a investigadora portuguesa Teresa Rosário ao JN.

Apesar de, em média, os níveis de esgotamento e sofrimento psicológico estarem "ligeiramente mais altos do que aqueles relatados durante condições normais", não se está "à beira de uma grande crise de saúde mental na profissão devido à pandemia", concluem os investigadores Teresa Rosário e Hans Olof Löfgren.

Ainda assim, e porque a pandemia "a pandemia está a ter um efeito heterogéneo" nos agentes, sublinham, "serviços personalizados" podem ser a solução para atender às necessidades de saúde mental.

"Às vezes, há a tendência de dizer que se faz um programa, mas há programas de saúde mental que podem ser bons para uns e maus para os outros", frisa Teresa Rosário, que defende ainda que deve ser dada atenção não apenas aos polícias expostos a riscos, mas também àqueles que relataram não terem sido expostos, pois também apresentam vulnerabilidades psicológicas. "Se o suporte for fornecido, o problema pode ser contido sem grandes perdas de empregos", defendem os especialistas.

O trabalho foi aprovado pela Direção Nacional da PSP e realizado, entre julho e dezembro de 2020, a partir de um questionário a 1639 polícias, "sendo que 97,4% (1597) cumpriram o único critério de inclusão de estar em serviço ativo a 1 de janeiro de 2020".

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