
Cães devem ser treinados a obedecer às ordens dos donos
Orlando Almeida / Arquivo Global Imagens
Especialistas alertam que os bebés podem ser vistos como obstáculo à atenção dos donos.
Cães postos de parte em casa pelas famílias quando nasce um bebé veem os recém-nascidos não como um ser humano, mas como um obstáculo entre eles e a atenção dos donos. Este alerta é deixado pelos treinadores de cães, ouvidos pelo JN, e que lamentam só serem procurados para corrigir o comportamento dos animais quando surgem problemas, em vez de os proprietários adotarem uma atitude proativa para evitar esses problemas.
"Os bebés não são vistos como um humano para o cão, mas como um animal diferente que está a causar o afastamento dos seus donos. Assim, o objetivo do cão é eliminar o problema", conta Pedro Mendes, treinador certificado pelas forças de segurança, que treina em Salvaterra de Magos. "Quando atacam nem sabem que fizeram algo de mal", acrescenta.
Pedro Silva, treinador certificado de Montemor-o-Velho e que tem experiência com cães que já atacaram crianças, tendo corrigido esses comportamentos, garante que a agressão não resulta da raça. "A raça nada tem a ver. Estes animais estavam no centro do universo dos donos e, quando surgiu um bebé, não receberam tanta atenção ou foram postos de parte. Então, passaram a ver o bebé como obstáculo à felicidade".
O treino é fundamental. "O cão não pode impor a sua vontade à família. Tem de perceber que, na família, está no fim da lista e os exercícios servem para recentrar o cão no universo familiar", afirma Pedro Silva. Os treinos passam, essencialmente, por ensinar os donos a dar ordens que os cães respeitem. "Como tudo, demora muito tempo e obriga a muita repetição".
Ficam ansiosos
No caso recente do ataque no Carregado, o cão era de raça pastor belga malinois, os cães-polícia. "Não são cães para qualquer um, precisam de treino. Vivem para trabalhar e, se não tiverem uma função, ficam ansiosos e adotam comportamentos agressivos", garante Pedro Mendes. O treino devia ser obrigatório para todos os cães. Em raças específicas, como o pastor belga malinois que exige muito do seu dono, "nem sequer devia ser permitido que fossem os primeiros cães", prossegue.
Já Pedro Mendes analisa o período pós-covid como um fator stressante para muitos cães. "Habituaram-se a ter os donos em casa e uma atenção constante. Com o regresso às empresas, muitos desenvolveram ansiedade de separação". A solução exige trabalho e passa por habituar os cães, aos poucos, a estarem sozinhos. "Os donos têm de deixar de prestar tanta atenção ao cão quando estão em casa para que se habituem".

