Segurança

Vigiar infetados por telemóvel só mesmo na China e Israel

Vigiar infetados por telemóvel só mesmo na China e Israel

Governo recusa qualquer vigilância através de aplicações por ameaçar direitos de privacidade.

Na China, a circulação dos indivíduos está indexada a um sistema de cores (verde, amarelo e vermelho) ditado por uma aplicação de telemóvel que avalia o grau de risco de cada um; em Israel, o primeiro-ministro anunciou ao país, sem sequer fazer aprovar a medida no Parlamento, que iria aplicar "a todos os cidadãos" as mesmas medidas extremas de rastreamento que são utilizadas para detetar e neutralizar os suspeitos de terrorismo.

Em Portugal, o Governo de António Costa deixou de fora, para já, qualquer tipo de medida de geolocalização que fira a liberdade individual e vai esperar pelo que poderá acontecer quando as aplicações através de bluetooth estiverem a funcionar, conforme indicações da Comissão Europeia. A Europa, o continente mais dizimado até ao momento pela pandemia da Covid-19, deu como praticamente certa a adoção de "apps" para telemóveis com rastreio de localização através de GPS, mas a Comissão Europeia fez marcha atrás, ouvindo os alertas de vários especialistas em segurança.

Para tal, emitiu um guia para os estados-membros e empresas serem capazes de desenvolver aplicações de telemóvel através de "bluetooth".

Esta tecnologia é considerada menos intrusiva do que o GPS, ao não conceder informações precisas sobre a localização dos indivíduos. Pode ainda ser usado para a análise de padrões de mobilidade e permite alertar as pessoas que tenham estado próximas de infetados.

Taxa de sucesso

Se o objetivo é detetar precocemente as cadeias de transmissão, o importante é saber com quem estive próximo e não o local onde me encontro", aponta Luís Antunes, especialista em segurança informática da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

O sistema não é infalível. Antes de mais, porque a taxa de sucesso depende da sua implementação: é preciso que pelo menos 60% da população descarregue a "app" para que a sua eficácia seja notória. Mas, apesar deste "handicap", a aplicação deve preencher um conjunto de requisitos que passam pela ausência de uma autoridade central para que os dados obtidos não fiquem na posse de uma só entidade.

O "puxão de orelhas" público que a Comissão Europeia deu esta semana às gigantes norte-americanas Google e Apple - alertando-as que devem adaptar as suas anunciadas "apps" de rastreamento aos valores europeus - pode ser visto como uma forma clara do "velho continente" marcar uma posição firme numa altura em que assistimos à capitulação de direitos fundamentais em todo o globo. Mas será realmente eficaz?

Discurso ingénuo

Especialista em gestão informática do Instituto Superior Técnico, José Tribolet apelida de "ingénuo" um certo discurso de temor da perda de privacidade. "Quando se diz que um Estado pode ficar com um poder enorme no que toca aos dados de rastreamento dos indivíduos, estamos a brincar. O Estado já tem esse poder! Não são é casos públicos, como os de segurança do Estado e de defesa militar", aponta, clarificando que o mais importante é saber as condições em que pode haver uso democrático desses instrumentos recolhidos num período de exceção como o atual.

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