Covid-19

Sem receitas nem apoios, zoos lutam para manter animais

Sem receitas nem apoios, zoos lutam para manter animais

De portas fechadas mas sem poderem parar, aquários e jardins zoológicos avisam que não aguentam muito mais.

As portas dos jardins zoológicos e aquários fecharam há mais de um mês, mas, lá dentro, todos os dias continua-se a alimentar e a tratar dos animais. São milhares e milhares de euros de despesa e as receitas estão a zero. Sem as entradas, nem apoios extraordinários, cada dia fica mais difícil cuidar dos animais.

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"Não é fácil. É uma despesa muito grande. Não há receitas, mas os custos são os mesmos", explica Olga Freire, presidente da Junta de Freguesia da Maia, proprietária do Jardim Zoológico da Maia, que tem uma despesa mensal corrente de 60 mil euros. "Tenho duas grandes preocupações: pagar os salários aos funcionários e dar de comer aos animais", revela Olga Freire.

Francisco Simões de Almeida fundou o Badoca Safari Park, em Santiago do Cacém, há 29 anos. Hoje, com cerca de 400 animais, vê o futuro incerto. O Badoca funciona oito meses por ano. Devia ter aberto a 16 de março mas, por causa da pandemia, não foi possível. "Ou seja, estou fechado desde novembro. Se daqui a dois meses esgotar o pouco que tinha de lado, não sei como vai ser", avisa o empresário, que já dá como perdidos os 15 mil alunos que ali vão todos os anos em visitas de estudo.

Apesar de ter 22 dos 25 empregado em lay-off, os custos no Badoca ainda são elevados. "Isto não é como um restaurante, onde se pode fechar a porta e mandar todos para casa. Tenho que ter luz, água, tratar e alimentar os animais e dar-lhes cuidados médicos. É muito dinheiro", garante.

Animais são preocupação

Francisco Simões de Almeida elogia os três funcionários que ficaram, "três heróis que andam a trabalhar sem parar para o bem estar dos animais". O empresário assegura que, mais do que o negócio, a grande preocupação são os animais.

"Se o parque falir, faliu; mas o que é que eu faço com os animais? Não vou por uma girafa à venda na Internet. Sou uma pessoa responsável", garante.

O problema afeta todo o setor, especialmente os privados. O proprietário do Badoca Park e também a diretora do Zoo de Santo Inácio - que considera a situação "preocupante" - já contactaram a tutela a perguntar por soluções. "Disseram-me que podia candidatar-me às linhas de crédito das PME, mas que, para já, as verbas já estavam todas atribuídas", lamentou Francisco Simões de Almeida.

Soluções em estudo

A Associação Portuguesa de Zoos e Aquários também já terá contactado o Governo que, para já, não se comprometeu com nenhuma medida. Todavia, fonte do Ministério da Agricultura adiantou ao jornal Expresso que estão a ser estudadas soluções para canalizar alimentos para os animais.

O fundador do Badoca Park avisa que não basta despejar toneladas de vegetais nos zoos para resolver o problema. "Resolvem nos primeiros dias, mas depois apodrecem e não já servem para nada", explica Francisco Simões de Almeida.

Os jardins zoológicos e os aquários dizem que continuam a contar com a ajuda dos privados, particulares e empresariais, mais ainda neste momento difícil. Até, porque, quando tudo isto passar, "serão dos espaços mais agradáveis para festejar o regresso a normalidade", promete Olga Freire.

Equipas rotativas
Para assegurar os cuidados em caso de trabalhadores infetados, alguns zoos criaram equipas autónomas que trabalham alternadamente para evitar contágios entre si.

Visitas virtuais
Alguns zoos, como os de Lagos e de Lisboa, publicam regularmente nas redes sociais vídeos de animais e dos bastidores do zoo, com temáticas educativas e visitas virtuais.

Reforço de stocks
No início da pandemia, o zoo da Maia reforçou o stock de ração e de alimentos para evitar possíveis roturas de produto e constrangimentos de distribuição.

Solidariedade
Estão em preparação, várias campanhas para angariar apoios, todavia terão que ser bem enquadradas para não pôr em causa eventuais apoios extraordinários ao lay-off ou linhas de crédito bonificadas.

O silêncio apenas é interrompido pelos sons da natureza. Não há gargalhadas, guinchos de entusiasmo nem choros. Desde o dia 16 de março que os animais no zoo de Santo Inácio, em Gaia, não recebem visitas e, por isso, o som de um pequeno grupo de pessoas despertou a curiosidade de Pierre, um búfalo asiático. Debaixo de uma chuva miúda, Pierre interrompeu o lanche para mostrar o seu pelo negro e a sua beleza exótica, alheio a toda e qualquer preocupação.

Para já ainda há erva fresca e tratadores para cuidar dos habitats. "Todos os dias temos equipas de tratadores que mantêm os cuidados dos animais", explica Teresa Guedes, diretora do Zoo de Santo Inácio.

Mas o cenário pode ficar negro, admite a também engenheira zootécnica. São cerca de 600 animais, de 200 espécies diferentes, que todos os dias precisam de ser alimentados e medicados. Um custo que varia entre os 12 e os 15 mil euros, graças às doações de fruta e legumes de três superfícies.

"Se as doações pararem, sem contas certas, possivelmente esta despesa subirá para os 20 mil euros." Uma situação preocupante, admite a diretora do espaço que lembra que sem visitas não há receitas. "Já pedimos ao Ministério da Agricultura e do Ambiente ajuda, para ver se nos podem apoiar."

Para já, os animais não estão em perigo e a atitude tem sido positiva, mesmo não havendo data para voltar a abrir as portas. "Os animais estão a sentir falta de ver as pessoas. Há um mês que há um vazio e queremos voltar a ver aqui a criançada e a alegria", remata Teresa Guedes, com otimismo.

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