Gigantes da tecnologia reforçam lóbi na Europa para travar restrições a adolescentes

Gigantes tecnológicas reforçam presença em Bruxelas com ações para influenciar regras sobre o acesso de adolescentes às redes sociais na União Europeia
Foto: Saeed Khan/AFP
Meta, Google e TikTok investem milhões em campanhas e encontros com políticos e lobistas para evitar proibições a jovens nas redes sociais, enquanto Portugal aperta regras para menores de 16 anos.
Nos últimos meses, as gigantes de Silicon Valley intensificaram a presença em Bruxelas para influenciar decisões sobre o acesso de adolescentes às redes sociais. Empresas como a Meta, dona do Facebook e Instagram, Google, proprietária do YouTube, e da ByteDance, que detém o TikTok, têm investido milhões em outdoors chamativos, reuniões com deputados indecisos e centenas de lobistas, numa tentativa de moldar regras que podem ter impacto em toda a Europa e servir de modelo global.
Em novembro, Kim van Sparrentak, deputada do Partido Verde na Holanda, ouviu num podcast uma mensagem da Meta contra a proposta de proibição de redes sociais para adolescentes. "Achei que havia algo errado comigo", disse a parlamentar, que rapidamente se tornou alvo das campanhas de lóbi de alto risco. Na União Europeia, estas empresas enfrentam a ameaça de impedir milhões de jovens de aceder a Instagram, TikTok ou YouTube, plataformas apontadas por especialistas como viciantes e potencialmente prejudiciais à saúde mental.
Os lobistas americanos defendem que cabe aos pais, e não ao Estado, decidir sobre o uso das redes sociais. "Eles estão à procura da melhor opção", explica Bram Vranken, investigador do Corporate Europe Observatory. A Meta tem promovido contas para adolescentes com controlo parental e defende a criação de uma "idade de maioridade digital", exigindo autorização explícita para menores de 15 ou 16 anos.
Estratégias e impacto
Bruxelas concentra os esforços de lóbi. No ano passado, o setor gastou cerca de 151 milhões de euros com deputados europeus, um aumento de 55% desde 2021. A Meta liderou os gastos, com cerca de 10 milhões de euros, seguida da Google, com 4,5 milhões. Atualmente, existem 890 lobistas de tecnologia em Bruxelas, mais do que membros do Parlamento Europeu. Os encontros vão desde deputados indecisos até políticos de extrema-direita, muitas vezes decisivos em votações estratégicas.
As campanhas públicas completam a ação. Outdoors mostraram Gutenberg e Marconi, afirmando que seriam "sufocados" por regulamentos modernos da UE. Em jornais, a Meta defendeu a maioridade digital como alternativa a proibições totais. "Estão simplesmente a bombardear-nos", comentou van Sparrentak.
A influência das gigantes da tecnologia revela-se assim uma força global capaz de influenciar debates sobre segurança e limites digitais em vários continentes.
Portugal acompanha a tendência de limitar o acesso de adolescentes às redes sociais. A Assembleia da República aprovou recentemente regras que só permitem aos jovens usar estas plataformas com consentimento dos pais até aos 16 anos, colocando o país na linha da frente em políticas de proteção digital.

