Ciência

A imagem que fez luz sobre os buracos negros em 2019

A imagem que fez luz sobre os buracos negros em 2019

O ano de 2019 na ciência ficou marcado pela revelação da primeira imagem do que à partida era impensável: um buraco negro, região densa no centro das galáxias que é invisível porque dela nada escapa, nem mesmo a luz.

O feito, divulgado em 10 de abril e que teve grande repercussão mediática, foi conseguido graças a uma rede de radiotelescópios no mundo e nele esteve envolvido o astrofísico português Hugo Messias, que participou nas observações a partir do Chile.

Para José Afonso, coordenador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, com o qual Hugo Messias colabora, foi "uma vitória do espírito humano e da técnica", reconhecida em novembro com o Prémio Breakthrough, no valor de 2,7 milhões de euros.

O prémio, patrocinado por Mark Zuckerberg, um dos fundadores da rede social Facebook, e Sergey Brin, ex-presidente do motor de busca Google, distingue o avanço científico de excelência.

Para o ex-comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação Carlos Moedas, tratou-se de "um momento de mudança" para a ciência.

Na realidade, o que foi mostrado ao mundo foi a imagem da silhueta de um buraco negro supermaciço, formada por gás quente e luminoso em seu redor (matéria incandescente no estado de plasma).

"O diâmetro do anel revela que no interior existe um corpo extremamente 'massivo'. Não só isso, mas pela assimetria, por essa morfologia ter permanecido igual ao longo da campanha de observação e pela existência de um jato a sair das suas redondezas", descreveu à Lusa Hugo Messias, assinalando que o objeto "está a rodar no mesmo sentido que a matéria incandescente em volta".

A sombra do buraco negro é o mais próximo do buraco negro em si, uma vez que este é um corpo denso e totalmente escuro e, portanto, não se vê.

O termo buraco é enganoso, pois não existe qualquer buraco. O que se passa é que "qualquer matéria que se aproxime para lá da última órbita de fotões [partículas de luz] não regressará, dando a impressão que caiu para um poço sem fundo", esclarece Hugo Messias.

Porquê negro? O astrofísico responde: "Como a luz não consegue escapar destas regiões do espaço, estas aparecerão escuras (ou negras) se as tentarmos observar". Em corpos densos como os buracos negros, a velocidade de escape é maior do que a velocidade da luz.

O buraco negro observado tem uma massa 6,5 milhões de vezes superior à do Sol e está localizado no centro da galáxia Messier 87, na constelação Virgem, a 55 milhões de anos-luz da Terra.

A sua "fotografia" foi obtida a partir de dados recolhidos em 2017 das observações feitas, no comprimento de onda rádio, com uma rede de oito radiotelescópios espalhados por vários pontos do globo, que funcionaram como um só e com uma resolução sem precedentes.

O "telescópio gigante" foi designado Event Horizon Telescope, tendo o astrofísico português Hugo Messias participado nas observações com o radiotelescópio ALMA, no Chile. Outros telescópios estavam posicionados, por exemplo, na Serra Nevada, em Espanha, no Havai, nos Estados Unidos, e na Antártida.

O alcance de observação dos oito radiotelescópios, sincronizados por relógios atómicos, foi comparado a ler um jornal exposto em Nova Iorque, nos Estados Unidos, a partir de um café em Paris, em França.

Ao todo, mais de 300 cientistas de diversos países estiveram mobilizados nas observações e no tratamento de dados.

Além de inédita, a imagem dos contornos do buraco negro permitiu comprovar mais uma vez a Teoria da Relatividade Geral, de 1915, do físico Albert Einstein, que postula que a presença de buracos negros, os objetos cósmicos mais extremos do Universo, deforma o espaço-tempo e sobreaquece o material em seu redor.

Para o astrofísico José Afonso, especialista no estudo das galáxias, a "foto" abriu caminho para aprofundar a investigação sobre os buracos negros e perceber melhor como as galáxias se formaram. Porque até 10 de abril só havia conceções artísticas.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG