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A terra de Manaus é o retrato de um genocídio

A terra de Manaus é o retrato de um genocídio

É a uma terra clara que descem, uma a uma, as urnas de Manaus. São alinhadas como num dominó, na mesma cova.

O tempo já não chega para o cuidado com que se cava uma última morada resguardada, a morte é a maior das intimidades.

Não. A vala é comum, os féretros todos iguais, a dor dos poucos que assistem, na margem do precipício, é maior. Uma cruz com o nome, o lugar na fila, as datas que confinam uma história. Todas as finais iguais idênticas, um dia de abril de 2020. "O que valem as nossas vidas agora? Nada".

Gilson é dos prostrados em Manaus. A mãe morreu-lhe do vírus, quando o mal que a levou ao hospital era um coração teimoso. Era uns 20, ali naquele fundo castanho, ela no meio. "Nada". Uns quantos no rol diário de vítimas brasileiras da pandemia perante as quais o presidente da República pergunta "E daí?". Foi apenas a última das suas tiradas, a cumular uma sucessão de negações da gravidade de um mal como não há memória.

Uma sucessão de ditos e feitos - o desprezo pelo confinamento perante uma "gripezinha" num país que se banha "no esgoto", o aperto da mão de uma idosa com a mão com que esfregou o nariz, ele que, "atleta", teria, no máximo, um "resfriadinho", a negação em mostrar o resultado do teste à Covid-19, a demissão de um ministro que dizia o seu contrário, a sobreposição da economia à morte, "não sou coveiro", "sou Messias mas não faço milagre", o rol é demasiado extenso - que o Conselho nacional de Saúde do Brasil classificou de genocidas. Criminosos. Irresponsáveis.

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Destituição, dizem

"Não temos dúvidas de que as mortes causadas pelo novo coronavírus pesarão sobre os ombros do Governo Bolsonaro, em meio à crescente crise política e ao desarranjo do pacto federativo inaugurado na Constituição de 1988, e pode culminar no seu impeachment".

Claro e conciso. É um conselho consultivo do Sistema Único de Saúde que o diz. Lamenta a "campanha de desinformação" liderada pelo presidente. Lamenta o desinvestimento na Saúde desde 2018 e a "austeridade fiscal" imposta pelo ministro da Economia, travando o respeito pelo isolamento social e disseminando o vírus e a morte. "Capital se ganha, se perde e se recupera novamente, mas vidas perdidas não podem ser recuperadas."

E a crueza dessa verdade está nos números. Ao 45.º dia após a primeira morte com Covid-19, o Brasil continuava ontem a sua paulatina subida no número diário de óbitos e começava a revelar a pior situação do Mundo.

Nem Espanha, nem Itália, nem sequer os EUA, onde os mortos eram muito superiores nesse mesmo 45.º dia, estavam assim. Estavam estabilizados no tétrico balanço, ou já a descer. E são, todos eles, realça uma análise da "Folha de S. Paulo" que alerta para a "subnotificação", países desenvolvidos com sistemas de saúde capazes que, ainda assim, colapsaram. A perspetiva de futuro, se a curva não infletir e numa altura em que o confinamento se esvai, é da cor da terra de Manaus.

Arthur Virgílio Neto, prefeito da mortificada capital do Amazonas, já nem fala em emergência. Invoca Gabriel García Marquez e diz que ali, onde há filhos que enterram pais porque faltam mãos que deem vazão, é "o desastre total". "Como um país que está em guerra - e perdeu".

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