
Assinatura ocorreu em Assunção, no Paraguai, onde foi criado o Mercosul em 1991
Foto: Luis Robayo/AFP
Após mais de 25 anos de negociações, a União Europeia (UE) e o Mercosul assinaram neste sábado, em Assunção, no Paraguai, um acordo que vem criar a maior zona de livre-comércio do Mundo. Governo fala em "grandes oportunidades" e agricultores pedem investimento.
Presentes estiveram o anfitrião do encontro, o presidente paraguaio, Santiago Peña, cujo país assegura a presidência rotativa do Mercosul; a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e outros quatro líderes latino-americanos: Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia) e José Raúl Mulino (Panamá). Ausente esteve o presidente do Brasil, Lula da Silva. Governo congratula-se com o acordo, já os agricultores e produtores reagem com cautelas.
"Estamos a criar a maior zona de livre-comércio do Mundo, um mercado que representa quase 20% do PIB global", com 720 milhões de pessoas e um peso económico de 22 biliões de dólares (19 biliões de euros), referiu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante a cerimónia. "Reflete uma escolha clara e deliberada: escolhemos o comércio justo em vez das tarifas; escolhemos uma parceria de longo prazo em vez do isolamento e, acima de tudo, queremos oferecer benefícios reais e tangíveis às nossas sociedades e empresas", acrescentou.
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O Conselho da União Europeia anunciou, a 9 de janeiro, a aprovação do acordo comercial com quatro países do Mercosul, que elimina as tarifas sobre 91% das exportações da UE ao longo de 15 anos, enquanto terminam, gradualmente, as tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul num período de até dez anos. No bloco comunitário, o tratado divide opiniões, e Portugal não é exceção. O ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, defendeu que este acordo é essencial para Portugal e que vai criar "grandes oportunidades" para produtos como vinho, azeite e queijo. O ministro alegou que Portugal terá a oportunidade de saldar um défice de 500 milhões de euros na balança comercial com o Mercosul.
Agricultores temerosos
A Confederação dos Agricultores de Portugal destacou o impacto "particularmente relevante" para setores como o vinho, azeite e frutas, salientando as garantias dadas pelas cláusulas de salvaguarda em matéria de concorrência. Para a Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri), apesar das oportunidades de exportação, o acordo pode apresentar ameaças ao mercado interno, uma vez que, sem uma "rigorosa fiscalização", os agricultores não estarão a competir em pé de igualdade. A Confagri pede mais investimento no setor agroalimentar para aumentar a competitividade.
Também a Associação dos Jovens Agricultores de Portugal louvou as oportunidades introduzidas, mas pediu "cautelas urgentes" na defesa da agricultura, assinalando que os países do Mercosul têm um custo de mão de obra muito inferior e que a utilização de alguns produtos fitofarmacêuticos e veterinários coloca entraves às exigências da UE.
Ecos
CIP saúda acordo
A Confederação Empresarial de Portugal (CIP) afirmou que o acordo abre "grandes perspetivas de crescimento económico nos dois lados do Atlântico", sendo "uma boa notícia para as empresas" da União Europeia, dado que "representa uma oportunidade para reverter o arrefecimento genérico que se verificou nos mercados ao longo de 2025".
Protestos em Berlim
Cerca de 2500 pessoas manifestaram-se neste sábado em Berlim, na Alemanha, utilizando 50 tratores, contra o acordo assinado entre a UE e o Mercosul. A manifestação foi convocada pelo movimento "Estamos fartos", que considera que o tratado prejudica os agricultores com o aumento da pressão e da concorrência.

