Atestados falsos e transporte de cadáveres: hospital de Nápoles controlado pela máfia italiana

Foto: Matteo Corner/EPA
A Polícia italiana deteve, na quarta-feira, quatro pessoas por um suposto plano do grupo mafioso Camorra para se infiltrar num hospital de Nápoles, simular acidentes para receber indemnizações de seguros e transportar cadáveres em macas com máscaras de oxigénio para lucrar com o transporte em ambulâncias particulares.
A investigação revelou uma rede de atividades criminosas lucrativas supostamente realizadas por membros do clã Contini da Camorra, a máfia napolitana, dentro do hospital San Giovanni Bosco. Segundo os procuradores, as "operações foram possibilitadas pela capacidade de intimidação da organização".
De acordo com o jornal britânico "The Guardian", o clã assumiu o controlo do café e do bar do hospital, bem como das máquinas de venda automática de lanches e bebidas espalhadas pelo edifício, um serviço aparentemente trivial, mas que movimenta milhões de euros anualmente em contratos de fornecimento de alimentos e gestão de pessoal. Neste esquema, empresas ligadas à máfia eram favorecidas na obtenção dos contratos, oferecendo produtos de qualidade inferior a preços inflacionados. O controlo estendia-se à distribuição de vales-refeição, com o desvio de fundos para beneficiar pessoas ligadas à organização criminosa.
Depois, continuam os procuradores, "explorou uma associação que atuava no setor de serviços de ambulância, contando com a cumplicidade de pessoal médico, seguranças privados e funcionários de outras empresas que trabalhavam dentro do hospital". Os mafiosos recebiam favores ilícitos, como a emissão de atestados médicos falsos, incluindo aqueles usados para obter libertações ilegais da prisão, e o transporte ilegal de cadáveres em ambulâncias em vez de serviços funerários autorizados.
Uma médica está acusada de falsificar a alta de uma paciente que já tinha falecido para permitir que o corpo fosse transportado para casa numa ambulância particular ligada ao clã. Segundo o mesmo jornal, o corpo era colocado numa maca com uma máscara de oxigénio, criando a ilusão de que o paciente ainda estava vivo durante o trajeto para casa.
Outro esquema envolve uma série de fraudes contra seguradoras. Com a ajuda de médicos e profissionais coniventes, os suspeitos simulavam acidentes, recrutavam e pagavam a testemunhas falsas e elaboravam laudos periciais falsificados para garantir o pagamento de indemnizações.
Médicas e advogado investigados
Além da médica acusada de falsificar a alta de uma paciente já falecida, as autoridades também estão a investigar uma psiquiatra que trabalha para a autoridade de saúde local e que está acusada de emitir atestados médicos falsos em nome de indivíduos ligados a clãs da Camorra, permitindo obter benefícios judiciais e, em pelo menos um caso, conseguir a libertação da prisão com base em avaliações psiquiátricas forjadas.
Por sua vez, um advogado está a ser acusado de participação externa numa associação mafiosa. Segundo os procuradores, o suspeito atuava como intermediário de informações entre o sistema prisional e outros ambientes, principalmente em relação aos pagamentos mensais, conhecidos como "mesate", destinados às famílias dos membros encarcerados.

