Grande manifestação para assinalar aniversário de desastre mortal em estação ferroviária na Sérvia

As cerimónias começaram com 16 minutos de silêncio em homenagem às 16 vítimas
Foto: Djordje Kostic/AFP
Dezenas de milhares de pessoas de toda a Sérvia concentraram-se, este sábado, em Novi Sad, no norte do país, para homenagear as vítimas do desabamento parcial ocorrido há um ano na estação ferroviária da cidade.
O protesto foi também uma expressão maciça do crescente descontentamento com o Governo do presidente, Aleksandar Vucic.
O desabamento da cobertura de betão da estação ferroviária de Novi Sad, a 1 de novembro de 2024, causou a morte de 16 pessoas.
A tragédia desencadeou protestos de rua liderados por jovens e um movimento nacional que exigia mudanças políticas que abalaram o controlo apertado de Vucic sobre o poder.
Os manifestantes creem que a estrutura de betão do recém-renovado edifício da estação de Novi Sad abateu por insuficiência ou má qualidade dos materiais utilizados, devido à corrupção desenfreada e ao nepotismo nos projetos de infraestruturas estatais com a China, o que levou ao fatal incumprimento das normas de segurança na construção.
Ninguém foi responsabilizado, embora 13 pessoas tenham sido acusadas.
A estudante universitária Nadja Solaja disse à multidão que o desastre foi um "crime e um assassínio" e não um acidente, argumentando que, se as autoridades tivessem cumprido a lei, "não teria havido derramamento de sangue".
"Têm sangue nas mãos", disse Solaja, usando um "slogan" que assinalou o último ano de protestos, juntamente com a simbólica impressão a vermelho de uma mão.
Dijana Hrka, mãe de uma das vítimas mortais, Stefan Hrka, anunciou que vai iniciar uma greve de fome no domingo, em Belgrado.
"Preciso de saber quem matou o meu filho. Alguém tem de ser responsabilizado por isso", sustentou.
As cerimónias de hoje começaram com 16 minutos de silêncio em homenagem às 16 vítimas, exatamente às 11.52 horas locais (10.52 horas de Portugal continental), hora do desabamento.
As pessoas também depositaram coroas de flores e acenderam velas à entrada da estação.
"Estamos aqui para prestar a nossa homenagem e expressar a nossa tristeza", declarou Vera Jaramazovic, que ali se deslocou da cidade de Subotica, no norte do país.
"Esta sociedade está a sofrer, a sofrer muito", comentou.
Vucic reprimiu as manifestações dos últimos meses, com a polícia a deter centenas de pessoas e a usar gás lacrimogéneo e bastões para dispersar as multidões.
A grande participação na concentração de hoje quis demonstrar que a determinação da sociedade sérvia continua forte.
Na véspera da homenagem, Vucic pediu desculpa aos estudantes que protestavam, depois de os ter ameaçado com detenções em massa e rotulado, como frequentemente faz, como "terroristas" instruídos pelo Ocidente para o derrubar e destruir a Sérvia.
"Disse algumas coisas de que agora me arrependo", declarou Vucic numa declaração televisiva, na qual apelou para o diálogo.
"Todo este ódio a fervilhar na nossa sociedade não pode trazer nada de bom, só pode levar a mais destruição", observou.
Os estudantes em protesto rejeitaram o pedido de desculpas, exigindo eleições legislativas antecipadas, na esperança de derrubar o Governo populista.
Enquanto Vucic amenizava o seu discurso, as autoridades cancelaram a circulação de comboios em todo o país, impedindo muitos manifestantes de chegarem a Novi Sad. Outros deslocaram-se para a cidade de automóvel, de bicicleta ou a pé.
Hoje, Vucic assistiu em Belgrado a uma missa pelas vítimas do desabamento de Novi Sad, e o Governo sérvio decretou apressadamente um dia de luto nacional.
A Sérvia pretende aderir à União Europeia (UE), mas o processo de adesão está paralisado, uma vez que Vucic cultivou relações próximas com a Rússia e a China, ao mesmo tempo que reprimia as liberdades democráticas no país para obter o controlo total.
A Comissária da UE para o Alargamento, Marta Kos, escreveu na rede social X que a tragédia da queda da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad "está a mudar a Sérvia".
"Levou as massas a exigir responsabilização, liberdade de expressão e democracia inclusiva", afirmou Kos, acrescentando que "são esses os valores que devem levar a Sérvia à UE".
Na sexta-feira à noite, multidões encheram as ruas de Novi Sad para acolher milhares de jovens, sobretudo, que percorreram a Sérvia a pé nas últimas duas semanas para participarem na manifestação.
Havia pessoas a chorar enquanto abraçavam os estudantes à sua chegada, alguns dos quais tinham palmilhado distâncias de até 400 quilómetros para chegar à cidade.
