
Kasra Mostofi vive em Portugal desde 2018
Foto: Kasra Mostofi
Kasra Hossein Mostofi, iraniano que vive em Portugal desde 2018 e está a fazer um doutoramento na Universidade do Minho, conta ao JN como reagiu à guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão. O investigador defende a campanha militar israelo-americana e o regresso do xá para liderar uma transição, sendo ainda grato ao Governo português pela permissão do uso da Base das Lajes pelas forças de Washington.
Qual foi a reação à morte de Ali Khamenei?
Em primeiro lugar, qualquer perda de vidas é trágica e a guerra nunca é algo que se celebre. No entanto, muitas pessoas reagiram com um sentimento de alívio ou esperança, pois veem como um possível início de mudança para uma maior liberdade e democracia.
Sente que há algum êxito dos EUA na tentativa de causar uma revolta popular interna no Irão contra a República Islâmica? Ou há uma união contra o inimigo externo?
Os Estados Unidos aproveitaram esta oportunidade para atacar o Irão, não por causa do povo iraniano, mas porque era a melhor oportunidade. Mas até nós, sabendo que um presidente como Trump só pensa em beneficiar os EUA, estamos gratos porque deu um grande passo para a revolução iraniana. Sem a sua ajuda, não seria possível que as pessoas voltassem às ruas.
O que estão a fazer agora não é atacar pessoas comuns. Não atacam edifícios comuns. Só atacam edifícios militares. Apenas tentaram matar oficiais da Guarda Revolucionária Islâmica.
Portanto, sabemos que ele atacou devido aos seus próprios interesses, talvez por causa do petróleo do Irão, como na Venezuela. Mas, neste momento, sem a sua ajuda, é impossível fazer uma revolução. E Trump não quer escolher um líder para o Irão, na verdade. Já sabemos quem lá estará. E o novo líder é o rei da era anterior, Reza Pahlavi. Não quer vir ao Irão para ser presidente ou rei. Quer vir para um período de eleições democráticas. Depois disso, quem o povo escolher será o presidente. Será um país democrático como Portugal.
Como tem sido a rotina de amigos e familiares desde o início da guerra? Tem conseguido manter contacto?
A Internet internacional está 100% bloqueada. Estão completamente sem Internet e até sem telefone fixo, mas algumas pessoas têm acesso a um Starlink, como o meu irmão no Irão. Mesmo com a atual situação de guerra e instabilidade, todas as pessoas têm otimismo e motivação, não estão tristes. Tentam motivar-se e apoiar-se mutuamente para superar essa situação difícil. Mas não estão zangados com os Estados Unidos ou com Israel. Estão muito felizes, apesar da situação difícil.
As pessoas estão esperançosas e acreditam que podem alcançar a liberdade muito, muito em breve, não a longo prazo. Porque este regime está quase a terminar, estão a esgotar-se os mísseis. Assim, creio que estes são os últimos dias do regime do aiatola.
Há uma diáspora iraniana em Portugal muito vocal desde o início dos protestos contra a República Islâmica. Estes representam a maioria dos iranianos em Portugal?
O facto é que grande parte das pessoas que se veem nas ruas de Portugal são, com certeza, da maioria. Mas há uma grande diferença entre elas. Muitas comunidades de iranianos em Portugal são apoiadas pelo Irão nesta guerra.
Eu próprio tive contacto com a embaixada do Irão, porque publiquei um livro sobre como se mudar para Portugal, pela embaixada do Irão, há quatro anos. Ligaram-me e ofereceram-me dinheiro para os ajudar nesta comunidade, mas eu recusei. E disse-lhes: "Não posso colaborar com a embaixada que matou milhares de jovens iranianos".
Sabemos que Israel não é um país com bom comportamento, mas agora, pelo menos, precisamos da sua ajuda. Sabemos que a mentalidade deles é toda virada para a guerra, para tomar o território. Mas, nesta fase, precisamos deles. Assim, não temos outra escolha. Por causa disso, pode ver pessoas do Irão a transportar a bandeira dos Estados Unidos e a bandeira de Israel em frente ao Parlamento português.
Como vê a posição do Governo português sobre o uso da Base das Lajes pelos EUA?
Agradecemos esta decisão e, no próximo protesto, que será no próximo sábado, todos os iranianos agradecerão. É uma decisão muito correta e boa. Talvez alguns governos, como o de Espanha, digam que não, que não querem matar pessoas. Se os Estados Unidos não atacarem o Irão, o regime matará milhares de jovens iranianos.
E, depois, as Nações Unidas virão dizer: "Estamos preocupados com as mortes no Irão". Se estão preocupados, devem agir agora. Não podem dizer para parar a guerra só porque estamos preocupados. Não precisamos da sua preocupação.

