
O gesto tem o intuito de transmitir uma mensagem de resistência e desafiar o regime islâmico
Foto: Blanca Cruz / AFP
Os iranianos enlutados estão a realizar funerais eufóricos e sumptuosos dos manifestantes que morreram nos protestos, com música e dança, num desprezo intencional à cultura e tradição da teocracia iraniana.
Em vez de realizarem cerimónias fúnebres tradicionais e solenes, presididas por um clérigo xiita, os familiares enlutados estão a transformar os enterros em celebrações exultantes da vida dos entes queridos, segundo noticiou o jornal britânico "The Guardian".
O gesto tem o intuito de transmitir uma mensagem de resistência e desafiar o regime islâmico: em vez de expressarem a dor, optam por demonstrar alegria. As famílias disseram que decidiram realizar eventos vibrantes para captar o espírito com que a pessoa falecida vivia.
Imagens de vários funerais foram partilhadas nas redes sociais. Os vídeos retratam cenas de euforia, incluindo mulheres sem o tradicional véu islâmico, gritando e dançando ao som de música popular tocada em potentes sistemas de som.
A dança é uma parte importante da cultura iraniana, mas geralmente limita-se a ambientes fechados, como festas privadas e casamentos, devido às restrições religiosas impostas pelo regime. Em contraste, muitos dos funerais retratados nas redes sociais têm lugar ao ar livre, em locais que parecem desafiar abertamente os costumes conservadores. Cenas de mulheres a dançar e a cantar em público podem ser interpretadas como uma rejeição dos princípios básicos da República Islâmica, que proíbem a dança e o canto feminino.
Muitos funerais terão ocorrido apenas depois de os familiares terem sido obrigados a pagar elevadas quantias para retirar os corpos das morgues oficiais. Há relatos de corpos que só foram cedidos após os familiares assinarem declarações em como o falecido pertencia à Basij, a milícia pró-regime - uma tática para reforçar a designação, pelas autoridades, de manifestantes como "terroristas" que atacaram as forças de segurança e aumentar o número de baixas reportadas do lado do regime.
Algumas projeções estimam que 30 mil pessoas tenham sido mortas nas manifestações que eclodiram no final de Dezembro e se espalharam por todo o país. Outras estimativas sugerem números ainda mais elevados.
Majidreza Rahnavard
Uma inspiração pode ter sido Majidreza Rahnavard, executado em 2022, aos 23 anos, depois de ter sido acusado de esfaquear dois membros da Basij durante os protestos Mulher, Vida, Liberdade.
Após a sua morte, surgiram imagens de Rahnavard momentos antes da execução, apelando a que ninguém lamente a sua morte, leia o Corão ou reze. "Apenas celebrem e toquem música festiva", instou.
Desde então, os opositores do regime adoptaram Rahnavard como um herói popular e invocaram as suas palavras como um legado.

