
"Os Estados Unidos são uma potência estabelecida, mas que está gradualmente a afastar-se de alguns dos seus aliados", acusa Macron
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O presidente francês Emmanuel Macron afirmou, nesta quinta-feira, que os Estados Unidos estavam a "libertar-se das regras internacionais que ainda recentemente promovia" e a "afastar-se gradualmente" de alguns dos seus aliados.
Macron proferiu o discurso anual aos embaixadores franceses no Palácio do Eliseu, numa altura em que as potências europeias se esforçam por encontrar uma resposta coordenada à política externa assertiva dos Estados Unidos no hemisfério ocidental, na sequência da captura do líder venezuelano Nicolas Maduro por Washington e dos desígnios de Donald Trump sobre a Gronelândia.
"Os Estados Unidos são uma potência estabelecida, mas que está gradualmente a afastar-se de alguns dos seus aliados e a libertar-se das regras internacionais que ainda recentemente promovia", disse Macron aos embaixadores no Palácio do Eliseu. "As instituições multilaterais estão a funcionar cada vez menos eficazmente", acrescentou Macron.
"Estamos a viver num mundo de grandes potências com uma verdadeira tentação de dividir o mundo". Macron falou após as forças especiais norte-americanas terem retirado Maduro e a sua mulher da Venezuela, no sábado, num raid relâmpago, e os terem levado para Nova Iorque, provocando a condenação de que os Estados Unidos estavam a minar o direito internacional.
Na sequência da intervenção militar na Venezuela, o presidente Trump fez soar os alarmes na Europa ao repetir a sua insistência em querer assumir o controlo da Gronelândia. Trump recusou-se repetidamente a excluir a possibilidade de recorrer à força para se apoderar da ilha estratégica do Ártico, o que provocou o choque e a ira da Dinamarca, potência controladora, e de outros aliados europeus de longa data.
Copenhaga avisou que qualquer ataque significaria o fim da aliança da NATO.
Reinvestir totalmente na ONU
O líder francês afirmou que a "governação global" é fundamental numa altura em que "todos os dias as pessoas se perguntam se a Gronelândia vai ser invadida" e se "o Canadá vai enfrentar a ameaça de se tornar o 51.º Estado". É o momento certo para "reinvestir totalmente nas Nações Unidas, uma vez que o seu maior acionista já não acredita nelas".
A Casa Branca anunciou quarta-feira a saída dos EUA de 66 organizações e tratados globais - cerca de metade afiliados às Nações Unidas - que identificou como "contrários aos interesses dos Estados Unidos", incluindo de proteção ambiental. Macron afirmou que a Europa deve proteger os seus interesses e apelou à "consolidação" da regulamentação europeia do sector tecnológico.
Macron sublinhou a importância de salvaguardar a independência académica e saudou "a possibilidade de ter um espaço de informação controlado, onde as opiniões possam ser trocadas de forma totalmente livre, mas onde as escolhas não sejam feitas pelos algoritmos de alguns".
Bruxelas adotou um poderoso arsenal jurídico para controlar os gigantes tecnológicos, nomeadamente através da Lei dos Mercados Digitais (DMA), que abrange a concorrência, e da Lei dos Serviços Digitais (DSA), relativa à moderação dos conteúdos.
Washington denunciou as regras tecnológicas como uma tentativa de "coagir" as plataformas americanas de redes sociais a censurar os pontos de vista a que se opõem.
"O DSA e o DMA são dois regulamentos que devem ser defendidos", afirmou Macron.
