"Politicamente motivado", "perseguição política". Pena de 20 anos para Jimmy Lai contestada no âmbito internacional

Jimmy Lai, em 2020. Seis anos depois, recebeu uma sentença de 20 anos de prisão.
Foto: Anthony Wallace / AFP
A sentença de 20 anos de prisão para o ex-magnata dos média e fundador do extinto jornal "Apple Daily, Jimmy Lai, provocou fortes reações internacionais nesta segunda-feira. O Reino Unido, a União Europeia (UE) e Taiwan lamentaram a decisão judicial em Hong Kong.
O Governo do Reino Unido, país ao qual Lai possui cidadania, prometeu "intervir mais e sem demora". "Estamos ao lado do povo de Hong Kong", afirmou a secretária britânica dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper.
A chefe da diplomacia afirmou ainda que Jimmy Lai foi sentenciado por "exercer o seu direito à liberdade de expressão" e que o processo foi "politicamente motivado". "A Lei de Segurança Nacional de Pequim foi imposta em Hong Kong para silenciar críticos da China", sublinhou Cooper, acrescentando que, para o magnata, de 78 anos, esta pena é "equivalente a uma sentença de prisão vitalícia". Disse ainda estar "profundamente preocupada com a saúde" do ativista e apelou à sua libertação para que possa "reunir-se com a sua família".
A governante revelou que o primeiro-ministro britânico abordou diretamente o caso com o presidente chinês, Xi Jinping, durante uma visita oficial recente, abrindo o caminho a um "diálogo mais intenso" entre Londres e Pequim sobre a situação de Lai. O Governo britânico afirmou que continuará a comprometer-se com a proteção da população de Hong Kong e a honrar os compromissos históricos assumidos sob a Declaração Conjunta Sino-Britânica, que define o estatuto da região após a transferência de soberania em 1997.
"UE deplora severa pena"
Bruxelas condenou também a decisão judicial. "A UE deplora a severa pena de prisão de 20 anos imposta ao cidadão britânico e empresário dos média Jimmy Lai pelo Superior Tribunal de Hong Kong, em 9 de fevereiro de 2026", lê-se no comunicado publicado pelo Serviço de Ação Externa da União Europeia. O bloco "reitera o seu apelo à libertação imediata e incondicional de Jimmy Lai, tendo também em conta a sua idade avançada e o seu estado de saúde".
"A perseguição política de Jimmy Lai e dos ex-executivos e jornalistas do [jornal] 'Apple Daily' prejudica a reputação de Hong Kong", sublinhou o serviço diplomático. Segundo o documento, a UE apelou as autoridades do território "a restaurarem a confiança na liberdade de imprensa em Hong Kong, um dos pilares do seu sucesso histórico como centro financeiro internacional, e a cessarem a perseguição aos jornalistas".
Taiwan critica "um país, dois sistemas"
O Conselho para os Assuntos do Continente (MAC) de Taiwan - entidade responsável pelas relações com a China continental - exigiu o "fim da perseguição política" e a "libertação imediata" de Lai, condenado por conspiração com forças estrangeiras e divulgação de publicações sediciosas. "A severa pena aplicada a Jimmy Lai ao abrigo da Lei de Segurança Nacional de Hong Kong não só o priva da liberdade pessoal e esmaga a liberdade de expressão e de imprensa, como também nega o direito fundamental dos cidadãos a responsabilizarem os seus governantes", afirmou o MAC.
Segundo a entidade, este caso demonstra novamente que, sob o modelo de "um país, dois sistemas" promovido pelo Partido Comunista Chinês (PCC), as liberdades e direitos prometidos aos habitantes de Hong Kong "não passam de meras declarações formais", tendo o sistema judicial sido convertido numa "ferramenta de repressão política e de vingança contra dissidentes". O Governo de Taipé criticou ainda o facto de os crimes imputados ao empresário incluírem a sua influência mediática e ligações internacionais no âmbito da segurança nacional, com o objetivo de "criar um efeito dissuasor que transcenda setores e fronteiras".
"Não se trata de um caso isolado nem exclusivo de Hong Kong, mas de um sinal de alerta de que o PCC está a acelerar a exportação do seu autoritarismo", declarou o MAC, apelando aos cidadãos taiwaneses para que "tomem como advertência a dolorosa experiência de Hong Kong" e protejam o seu "modo de vida livre".

Imprensa em frente ao Tribunal de Magistrados de West Kowloon, em Hong Kong (Foto: May James / EPA)
Jimmy Lai, empresário e ativista pró-democracia, fundou o agora extinto jornal "Apple Daily", encerrado em 2021. O seu julgamento tornou-se um dos processos judiciais mais emblemáticos desde a imposição da Lei de Segurança Nacional pela China na Região Administrativa Especial de Hong Kong.
Lai tinha sido condenado em dezembro e hoje conheceu a sentença. Dada a sua idade, a pena de prisão pode manter o ex-magnata atrás das grades o resto da vida. Os co-réus do empresário neste julgamento, seis antigos funcionários do periódico - entretanto extinto - e dois ativistas, receberam penas de prisão entre seis anos e três meses e dez anos.
A organização de defesa dos Direitos Humanos Human Rights Watch considerou uma "sentença de morte" a condenação hoje a 20 anos de prisão do ex-magnata da imprensa pró-democracia Jimmy Lai pela justiça de Hong Kong. Já a família de Lai classificou a pena como "draconiana" e "cruel".
