Marinha francesa e guarda costeira britânica responsabilizadas por naufrágio com 27 mortos

Foto: Sameer Al-Doumy/AFP
Uma comissão de inquérito britânica responsabilizou, esta quinta-feira, dois navios da Marinha francesa e da guarda costeira britânica pela morte de 27 migrantes e o desaparecimento de quatro num naufrágio no canal da Mancha, em 2021.
O presidente da comissão de inquérito, Ross Cranston, lamentou "a enorme tragédia humana" ao apresentar as conclusões da investigação iniciada em março de 2025, num relatório hoje divulgado.
"As travessias em pequenas embarcações devem cessar. Além de qualquer outra razão, é imperioso impedir novas perdas de vidas humanas", declarou.
No total, 33 pessoas, na maioria curdos iraquianos, estavam amontoadas num bote insuflável "completamente inadequado" nas primeiras horas do dia 24 de novembro de 2021, quando este começou a afundar-se na fronteira entre as águas francesas e britânicas.
Foi preciso passarem 12 horas até que um barco de pesca os avistasse, apesar dos vários pedidos de socorro.
"Muitas vidas, talvez todas", podiam ter sido salvas se a lancha de patrulha Flamant, da Marinha francesa, que estava próxima, tivesse respondido ao pedido de socorro, afirmou o presidente desta investigação independente destinada a analisar o papel das autoridades britânicas no naufrágio, independentemente de qualquer processo judicial.
O papel da Flamant está no centro de uma investigação criminal em França.
"A investigação pública [britânica] não consegue determinar por que razão a Flamant não respondeu ao pedido de ajuda. Cabe às autoridades francesas decidir sobre este ponto", sublinha-se no relatório.
"No entanto, houve falta de cooperação entre as guardas costeiras britânica e francesa em relação à transmissão da mensagem de socorro", refere o documento.
O relatório, que não pretende determinar a responsabilidade criminal, aponta ainda "falhas sistémicas" na resposta da guarda costeira britânica.
Uma dessas falhas resultou da "crença generalizada" de que os passageiros da embarcação estavam a "exagerar o seu grau de desespero".
A guarda costeira tomou também "uma série de decisões erradas" durante a operação de busca e salvamento, prematuramente interrompida a 24 de novembro.
"Se as buscas tivessem prosseguido durante todo o dia, algumas mortes poderiam ter sido evitadas", concluiu o inquérito.
O relatório culpa ainda a "escassez crónica de pessoal" na guarda costeira, "uma falha grave e sistémica do Governo" do Reino Unido.
Em França, o ministério público de Paris requereu em novembro o julgamento de 14 protagonistas de redes de contrabando de pessoas envolvidas. E sete militares foram também acusados de omissão de ajuda a pessoas em perigo.
Cerca de 41.472 migrantes chegaram à costa britânica em 2025, o segundo número mais elevado desde o início dos registos, em 2018. No ano passado, pelo menos 29 pessoas morreram durante a perigosa travessia.
