
Drone lançado pelos russos, na aproximação a Kiev
Yasuyoshi CHIBA / AFP
Vladimir Putin tem recorrido à ameaça nuclear para responder ao apoio de europeus e americanos à Ucrânia. Mas as forças armadas russas, assim como as de Kiev, têm usado sobretudo drones para surpreender o inimigo
Numa guerra mais prolongada do que se antevia, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, recorre amiúde à ameaça nuclear, mais para assustar o Ocidente do que para anunciar planos de ataque. É esta, pelo menos, a esperança de uma Europa que, ao longo de um ano, nunca negou ajuda militar à Ucrânia, mas que, como se percebeu pela demora na cedência de tanques pesados a Kiev, evita tornar-se num alvo dos drones do Kremlin. Estes aparelhos não tripulados têm sido a grande novidade num conflito que, em muitos momentos, foi uma autêntica guerrilha urbana.
Quando a Finlândia e a Suécia, com medo de também serem invadidas pela Rússia, anunciaram a vontade de aderir à NATO, Moscovo valeu-se, pela primeira vez, da ameaça nuclear. Fê-lo através do vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitry Medvedev.
Foi, contudo, em setembro que o Mundo tremeu. Depois de comunicar ao país a mobilização de 300 mil homens na reserva, Putin jogou a cartada que pensava ser decisiva. "Se houver uma ameaça à integridade territorial do nosso povo, certamente usaremos todos os meios à nossa disposição. Isto não é um bluff", declarou perante as câmaras de televisão. E para que não restassem dúvidas, o líder russo, em tom pausado e solene, acrescentou: "Aqueles que estão a tentar chantagear-nos com armas nucleares devem saber que o vento também pode virar na sua direção".
"Bomba suja"
Perante estas palavras, até o Papa Francisco veio exigir bom senso. No entanto, a ameaça não levou, como pretendia Putin, à rendição dos ucranianos e, no mês seguinte, o homem que deseja restaurar o império russo deu passo atrás ao desdramatizar a questão nuclear. Alegou que a detonação de uma bomba nuclear não fazia "qualquer sentido, nem político, nem militar", mas poucos foram os que respiraram de alívio.
Até porque, na conferência anual do clube Valdai, um centro de reflexão ligado ao regime, o presidente russo falou numa "bomba suja", combinação de explosivos com materiais radioativos e químicos, que a Ucrânia estaria a planear usar no próprio território e, logo de seguida, culpar a Rússia deste crime de guerra. A interpretação a Ocidente foi exatamente a oposta, com os analistas a avançarem que era Putin quem estava a preparar-se para explodir a tal "bomba suja" sem ser responsabilizado.
No final do ano, as armas nucleares voltaram à ordem do dia, com Putin a assegurar que deitaria mão a todos os meios de que dispõe, mas que a Rússia só as utilizaria "como resposta" e que nunca "será a primeira a utilizá-las".
Todos querem drones
Ainda em dezembro, e com as ogivas nucleares sempre guardadas, os drones transformaram-se nos protagonistas do teatro de operações. As forças armadas ucranianas atacaram três bases militares russas com estes aparelhos e puseram a nu as fragilidades defensivas de um adversário que todos classificavam como uma das principais potências militares do planeta.
Com material fornecido clandestinamente pelo Irão, a Rússia também se socorreu de dezenas de aparelhos não tripulados para, na noite de Ano Novo, lançar um ataque massivo sobre instalações militares industriais, onde, precisamente, estavam a ser produzidos drones ucranianos.
Antes desta ofensiva, a União Europeia (UE) já tinha tomado medidas para impedir a Rússia de aceder a drones. Discutiu, igualmente, a cedência de material bélico à Ucrânia. Isto porque Volodymyr Zelensky apelou, desde o início do confronto, ao coração de europeus e americanos, alegando que as armas do Ocidente eram fundamentais para pôr fim à invasão e proteger o Mundo livre.
Depois dos tanques, os aviões
Estados Unidos da América e UE foram oferecendo material de defesa antiaérea, metralhadoras e até alguns mísseis. Antes do fim de 2022, só os europeus tinham enviado oito mil milhões de euros em armamento para a Ucrânia. Porém, foram necessários meses de negociações para quebrar a resistência da Alemanha em ceder tanques Leopard 2. Ninguém queria dar desculpas à Rússia para progredir para uma guerra global e bombardear outras nações que não a Ucrânia.
O chanceler alemão, Olaf Scholz, autorizou a medida no final do mês passado e, desde logo, países como Espanha e Suécia mostraram disponibilidade para ceder veículos que Zelensky vê como essenciais, para travar os avanços das forças de Moscovo que, então, se verificavam no terreno.
O presidente americano, Joe Biden, acrescentou 31 Abrams M1 ao esforço de guerra europeu, provocando uma reação musculada do Kremlin. Cinquenta mísseis foram lançados sobre diferentes cidades ucranianas, mas Zelensky insistiu: além de tanques, passou a pedir aviões de combate. Para já, os aliados resistem, mas, tal como aconteceu relativamente aos Leopard 2, o evoluir da guerra poderá ditar mudanças rápidas.
