"O TikTok não fez nada". Francesa culpa redes sociais pela morte do filho adolescente

Clément cometeu suicídio aos 15 anos
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Uma mãe francesa, cujo filho adolescente cometeu suicídio, quer responsabilizar as plataformas de redes sociais, alegando que os seus algoritmos impulsionaram conteúdos relacionados com o suicídio, o que levou o jovem de 15 anos a uma "espiral descendente".
Emmanuelle Pouedras contou a sua história à AFP, numa altura em que França pondera restringir o acesso de adolescentes às redes sociais, incluindo através de uma possível proibição para menores de 15 anos, semelhante à da Austrália.
Clément tinha acabado de começar o segundo ano do ensino secundário quando se atirou de uma ponte na região noroeste da Bretanha, em 2024.
A mãe, uma comerciante de 55 anos, e o marido, Sébastien, procuram agora reabrir a investigação sobre a morte do filho e responsabilizar as plataformas de redes sociais. Em setembro, apresentaram uma queixa contra a TikTok e a Meta, entre outras empresas do mesmo sector, por acusações que incluem incitamento ao suicídio.
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A grande maioria dos vídeos da página "Para Ti" do TikTok, onde o algoritmo da plataforma recomenda conteúdos, o "incitava à morte, dizendo-lhe que não importava para ninguém", disse a mãe de Clément.
O conteúdo sobre a automutilação "exacerbava" o sofrimento do filho e levou-o a uma "espiral descendente", referiu. "O TikTok sabia que ele não estava bem, o TikTok não fez nada e o TikTok não nos está a ajudar a descobrir a verdade", continuou, acusando a plataforma de omissão.
O filho também sofreu cyberbullying no WhatsApp até às últimas horas antes da sua morte.
Pouedras reuniu-se, na quarta-feira, com o presidente francês, Emmanuel Macron, na cidade de Saint-Malo, também na Bretanha, onde discutiria o desafio que as redes sociais e os seus algoritmos representam para a democracia. Numa carta enviada ao presidente na segunda-feira, descreveu o filho como "mais uma vítima das redes sociais".
"Incitamento" à morte
Antes de Clément morrer, Pouedras disse estar preocupada com os potenciais danos causados pelo acesso irrestrito a smartphones e exigiu que os dois filhos mantivessem os seus fora dos quartos à noite.
Durante a investigação da morte de Clément, a polícia não examinou o seu telemóvel, mas a mãe encontrou posteriormente mensagens que indicavam que tinha sofrido cyberbullying. "Já acabaste o teu suicídio de m...?", lia-se numa mensagem no WhatsApp.
Pouedras disse que passou meses a tentar entrar em contacto com as plataformas de redes sociais, incluindo o Snapchat, Instagram e TikTok, para ter acesso aos dados dele e tentar perceber o que levou à sua morte. Porém, recebeu apenas respostas parciais, apesar de as plataformas serem obrigadas a dar-lhe acesso a esses dados, de acordo com a autoridade francesa de proteção de dados, a CNIL.
A família apresentou queixa a 19 de setembro, com o advogado, Pierre Debuisson, a acusar as plataformas de "obstrução deliberada". Argumentou que as redes sociais foram palco de uma onda de "múltiplas incitações ao suicídio, acessíveis a menores sem qualquer filtro de proteção".
O Ministério Público regional não informou que medidas iria tomar em resposta à queixa da família Pouedras.
O TikTok declarou à AFP que "proíbe estritamente o conteúdo que retrate ou promova o suicídio ou a automutilação" e "remove 98% do conteúdo infrator antes mesmo de ser denunciado". As pesquisas que contêm termos como "suicídio" são redirecionadas para "uma página com recursos específicos", acrescentou.
Primeira ação mundial
Existe uma crescente pressão global para abordar o impacto das redes sociais na saúde mental dos jovens. Em setembro, uma comissão parlamentar francesa que investigava os efeitos psicológicos do TikTok recomendou a proibição do uso da rede social por crianças com menos de 15 anos e a adoção de um "recolher obrigatório digital" para jovens dos 15 aos 18 anos.
A comissão foi criada em março, depois de sete famílias terem processado o TikTok no final de 2024, acusando-o de expor os filhos a conteúdos que os poderiam levar ao suicídio.
Nas últimas semanas, Macron defendeu uma supervisão mais apertada das redes sociais e dos algoritmos, descrevendo-as como o "Velho Oeste".
Numa medida inédita no Mundo, a Austrália proibiu, na quarta-feira, o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, declarando ser tempo de "retomar o controlo" das mãos dos gigantes tecnológicos. A Nova Zelândia e a Malásia estão a considerar restrições semelhantes.
O YouTube, a Meta e outros gigantes das redes sociais manifestaram-se contra a proibição.
