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Que promessas cumpriu Trump e o que pretende Joe Biden mudar

Que promessas cumpriu Trump e o que pretende Joe Biden mudar

Republicano baixou impostos, ergueu um muro, perseguiu imigrantes e não restaurou os EUA como "gigante operário", nem repeliu Obamacare. Democrata quer ser "o anti-Trump".

O 45.º presidente dos EUA, o republicano Donald J. Trump, demorou 827 dias para superar as dez mil afirmações falsas ou enganosas, segundo o verificador de factos The Fact Checker, do jornal "Washington Post". É uma média de 12 mentiras oficiais por dia. Mas a 9 de julho, 440 dias depois disso, o presidente ultrapassou a marca das 20 mil inverdades - o que o mete numa métrica calamitosa: 23 alegações infundadas por dia, um "tsunami de mentiras".

Esse tempo incluiu os factos que levaram ao julgamento de impeachment de Trump (destituição de que se salvou devido ao travão da maioria republicana no Senado), à instalação da pandemia, que atira os EUA para o topo das mortes (226 mil) e infeções mundiais por covid (8,5 milhões), enquanto afunda a economia, até à erupção de protestos e confrontos raciais pela morte por asfixia do cidadão negro George Floyd às mãos de polícias brancos numa rua de Minneapolis, em maio.

Cumprir também o mau

Em quatro anos, Trump cumpriu muito do que o elegeu - e hoje nos seus comícios, onde há ajuntamentos e desprezo pela ética do distanciamento e da máscara, canta-se "promessas feitas, promessas cumpridas".

Mas a verdade, aqui, anda pela metade. O que cumpriu? Baixou impostos (mais às grandes empresas do que aos indivíduos; o custo da reforma tributária é de 1,6 triliões de dólares aprovados pelo Congresso para dez anos); anulou regulações industriais sobre ambiente, bancos e educação; investiu 738 biliões na indústria da guerra; baniu parcialmente migrantes de cinco países maioritariamente muçulmanos (Líbia, Síria, Iémen, Somália e Irão); triplicou o investimento no ICE, a polícia da imigração que se transformou numa polícia de segregação (a medida mais gravosa é a separação na fronteira de famílias e crianças, havendo ainda 545 menores que não reencontraram pai nem mãe) e construiu parte do famoso "enorme, bonito e poderoso muro" na fronteira com o México (ainda que não tenha posto, como prometia em delírio e ilusão, os mexicanos a pagar por ele).

Antiglobalista declarado (é isso o slogan "América primeiro!"), renegociou o acordo NAFTA com os vizinhos diretos México e Canadá; retirou os EUA da parceria transpacífica com dez nações asiáticas; extinguiu o acordo nuclear com o Irão; e desviou os EUA dos acordos climáticos de Paris (as regras eram conflituantes com a cumprida desregulação das grandes indústrias).

Mas, mais relevante do que tudo isso é o seu conseguimento no Supremo Tribunal, órgão máximo judicial composto por nove juízes vitalícios e para o qual Trump já nomeou dois e se prepara para instalar um terceiro (Amy Coney Barrett), fazendo pender a balança para o lado republicano, num desequilíbrio de seis juízes conservadores para só três juízes democratas. E, pergunta o futuro, se a resolução das eleições for parar, como em 2000 (Bush vs Gore) de novo ao Supremo? Responde inquieto o presente: Trump pode manobrar o processo eleitoral.

E o que não fez?

As promessas que não cumpriu, além de não ter conseguido "drenar o pântano" de lobbies e corrupção, têm todas a ver com dinheiro.

Duas são muito importantes: não restabeleceu, como prenunciava, a América como novo "gigante operário", falhando na promessa à classe média que trabalha em carros, petróleo e carvão, desapontando os eleitores que lhe deram a vitória em 2016 nos "swing states" Michigan, Wisconsin e Pensilvânia; e não repeliu nem substituiu, como cantava, o Obamacare, programa pioneiro de saúde subsidiada instituído pelo seu antecessor democrata Obama.

Outros dois incumprimentos: não diminuiu o défice da balança comercial EUA-China, que continua exatamente igual a 2016 (31 biliões de dólares); e não fez baixar a dívida nacional, como se arvorava ("Sou o rei da dívida, ganho milhões com dívidas"), atirando-a, aliás, para o máximo histórico de 22 triliões de dólares.

biden: desfazer trump

Quando entrou formalmente na corrida presidencial, Joe Biden declarou que defendia duas coisas: os trabalhadores que "construíram este país" e "os valores que podem unir as nossas divisões". "Orgulhoso democrata", diz que governará "como presidente de todos os americanos". Mas, primeiro, muitos americanos desconhecem o seu real programa de governo e, segundo, Trump faz, e repetidamente, comentários enganosos sobre a posição do ex-vice-presidente de Obama: apesar do que Trump diz, Biden não é socialista nem marxista, nem de extrema-esquerda; Biden é um centrista que adotou propostas progressistas nos seus planos para o país.

Biden quer ser "o anti-Trump", jurando "devolver à América razões éticas básicas, como o respeito pela lógica, pela verdade, pelos factos, pela ciência". Sumariamente: quer "reconstruir melhor" ( slogan de três bês: "build back better") e "recolocar a América nos eixos".

Covid: quer um programa nacional gratuito de testes e rastreamento. Saúde: expandir o Obamacare e dar seguro a 97% dos americanos (custo em dez anos: 2,25 triliões de dólares). Emprego: aumentar salário mínimo para 15 dólares à hora e criar "empregos verdes". Imigração: desfazer ordens executivas xenófobas de Trump, logo nos primeiros 100 dias. Educação: tornar a universidade gratuita e perdoar dívidas estudantis. Raça: reformar a justiça criminal (e não cortar financiamento à Polícia) e subsidiar comunidades minoritárias. Clima: reintegrar Acordo Climático de Paris e investir 1.7 triliões em energia verde até 2030.

DEBATE É ÀS 2 DA MANHÃ E VAI TER BOTÃO DE SILÊNCIO

Após o caos do 1.º debate (29 set.), marcado por constantes interrupções de Trump, que se sobrepunha ao seu oponente Biden e ao moderador, uma tática cerrada de ataque que parece tê-lo prejudicado, a Comissão dos Debates Presidenciais mudou as regras. Assim, para manter o civismo, quando um candidato começar a falar, o microfone do outro será silenciado. É uma medida inédita. Vai permitir-se a discussão direta, mas com ordem: há seis tópicos em discussão e os candidatos terão dois minutos ininterruptos a abrir cada segmento, seguindo--se só depois a interpelação livre. O debate de 90 minutos é esta noite e arranca às 21 horas (2 da manhã em Portugal), na Universidade de Belmont, em Nashville, no Tennessee. Moderado por Kristen Welker, é emitido na NBC News. Os seis tópicos, que excluem política externa, o que já motivou protestos da campanha republicana de Trump, são: medidas de combate à covid-19; economia das famílias americanas; confrontos raciais na América; alterações climáticas; segurança nacional; e capacidade de liderança de cada candidato.

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