Covid-19

Emigrantes na Suíça indignados com quarentena após Natal em Portugal. Muitos já cancelaram viagens

Emigrantes na Suíça indignados com quarentena após Natal em Portugal. Muitos já cancelaram viagens

A comunidade portuguesa está indignada com a decisão da Suíça de incluir Portugal na lista de países de elevado risco de infeção pelo novo coronavírus, o que obriga os emigrantes que passem o Natal e o fim do ano no seu país a uma quarentena obrigatória de dez dias no regresso. A situação já está a provocar o cancelamento de viagens que tinham sido marcadas para a época festiva e começou a circular uma petição para a retirada de Portugal daquela lista, que conta já com mais de 11 mil assinaturas.

"Filho de pai suíço e mãe portuguesa, sinto o dever cívico de expor uma situação que está a afetar diretamente a comunidade de perto de 270 mil portugueses na Suíça, na esperança de que lhe possam dar eco em Portugal". A denúncia chegou-nos assim, nas palavras de Alexandre Luyet, uma voz de protesto entre várias que se multiplicam nas redes sociais e nos órgãos de comunicação social suíços. Em causa está a decisão da Suíça, anunciada no dia 4, de incluir Portugal na lista de países de elevado risco de infeção pelo novo coronavírus, o que implica a quarentena obrigatória de dez dias para quem regresse desse país. A multa para quem faltar a essa obrigação pode chegar aos 10 mil francos suíços (cerca de 9272 euros).

A medida entra em vigor na próxima segunda-feira, dia 14 de dezembro, e está a causar a indignação dos emigrantes portugueses que se veem dessa forma condicionados ao viajar para Portugal para passar o Natal e o Ano Novo com a família e amigos. Muitos já cancelaram as viagens.

Um país é colocado na lista quando ultrapassa em 60 o número de casos por 100 mil habitantes em 14 dias na Suíça, de acordo com os dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC). "Tendo por base os dados oficiais da ECDC, as incidências nos últimos 14 dias por 100 mil habitantes eram mais baixas em Portugal do que na Suíça no dia 4 - 652 e 628.7 para Suíça e Portugal, respetivamente", fez notar Alexandre Luyet, acrescentando que "essa tendência tem-se mantido consistentemente ao longo dos últimos dias".

Esta quinta-feira, o ECDC indicava que Portugal tinha 565 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias, menos do que a Suíça. Por essa razão, "a comunidade portuguesa não entende como pode entrar em vigor na próxima segunda-feira uma lista já totalmente desatualizada e injusta que penaliza a terceira maior comunidade estrangeira da Suíça", explicou Alexandre. "Assim, garantiram que, apesar de objetivamente Portugal já não preencher os requisitos de inclusão na lista, os membros da comunidade portuguesa se vissem obrigados a cancelar as suas viagens a Portugal pelo Natal, uma vez que a quarentena obrigatória de 10 dias à chegada de um país incluído na lista não é paga", lamentou.

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Portugal já tinha estado na lista suíça de países com elevado risco em outubro, mas tinha saído no final do mês. "Num ano complicado em que os membros da comunidade já cancelaram outras viagens previstas ao seu país por causa da pandemia, acaba por ser de uma atrocidade enorme "proibi-los" de irem ver os seus entes queridos no Natal", criticou Alexandre.

Petição com mais de 11 mil assinaturas para tirar Portugal da lista

Entretanto começou a circular na Internet uma petição para que Portugal seja retirado da lista de países sujeitos a quarentena. Até agora, terão sido já recolhidas mais de 11 mil assinaturas.

"No início desta semana, os números não estavam a favor de Portugal. Mas nos últimos dias vimos que a incidência em Portugal está a diminuir, mais rapidamente que na Suíça, uma vez que o número de casos em Portugal tem sido menor nos últimos dias. É incompreensível que uma decisão seja tomada com 10 dias de antecedência, quando se verifica que o número de casos é mais elevado na Suíça", lê-se na petição.

A petição, criada por iniciativa de Samuel Soares, autor da página de Facebook "Emigrar para a Suíça", foi enviada na quarta-feira para o Ministério da Saúde suíço por correio registado. "Ao impor esta quarentena, a Confederação Suíça vai estragar as férias de uma das maiores comunidades na Suíça, que todos os anos, após um ano de trabalho na Suíça, tenta encontrar as suas famílias nas férias de Natal. A comunidade "Emigrar para a Suíça" pede à Confederação que reavalie esta lista antes da sua entrada em vigor a 14 de dezembro", apelam os emigrantes.

"Não posso ir a Portugal porque não consigo tirar dias de férias extra"

Em declarações ao JN, Samuel Soares diz ser um dos afetados pela situação e que não poderá viajar para Portugal no Natal. "Pela primeira vez, essa lista que é atualizada aproximadamente a cada duas semanas, foi anunciada com 10 dias de antecedência. Eu, por exemplo, era para ir a Portugal nas férias de Natal, durante 10 dias. No entanto, não posso ir a Portugal porque não consigo tirar sete dias de férias extra para ficar em casa quando voltar de férias", lamenta o português, que costuma passar o Natal no seu país, "mas não é todos os anos", porque os pais vivem em Portimão e por vezes são eles que vão passar o Natal à Suíça.

Samuel conta que decidiu criar a petição "porque na última semana estava atento aos números diariamente, pois sabia que iria ser anunciada uma nova lista". Para "grande surpresa", Portugal encontrava-se na lista. "O anúncio com 10 dias de antecedência também foi um motivo forte para fazer esta petição. Achei que deveria ser feita alguma coisa e uma petição poderia dar o mediatismo necessário para mudar esta situação. Atualmente com mais de 11 mil assinaturas, esta petição já chegou a grande parte dos media suíços, incluindo o telejornal da parte francesa e alemã da Suíça", explica.

"A Confederação defende-se referindo que tomaram a decisão numa reunião de dia 2 de dezembro. No entanto, não se percebe porque só anunciaram dia 4 se a decisão já tinha sido tomada dia 2 de dezembro", critica ainda o português.

Novas medidas apresentadas esta sexta-feira

Quanto a possíveis alterações na lista após o envio da petição ao Ministério da Saúde suíço, Samuel refere que "por enquanto não se sabe", mas vai haver uma conferência de imprensa durante a tarde desta sexta-feira para apresentar novas medidas. "Veremos se darão novidades sobre a situação de Portugal, pois receberam a petição por carta registada na quarta-feira. Sobre as autoridades portuguesas, sabemos desde ontem [quinta-feira] que estão a fazer todos os possíveis para encontrar uma solução com as autoridades suíças", revelou.

O JN tentou entrar em contacto com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas não obteve resposta até ao momento.

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