Explosões em Beirute

Nitrato de amónio, um fertilizante usado para fabricar explosivos

Nitrato de amónio, um fertilizante usado para fabricar explosivos

O nitrato de amónio, que estará na origem das devastadoras explosões na terça-feira em Beirute, é usado principalmente como fertilizante químico para uso agrícola, mas também pode entrar na composição de alguns explosivos para uso civil.

A Sociedade Química de França indica que o nitrato de amónio "é utilizado sobretudo como fertilizante químico para as culturas de leguminosas". Sob a forma de granulado branco, é utilizado em todo o mundo para obter um melhor rendimento e considerado indispensável por muitos agricultores.

O Líbano é conhecido como um grande consumidor de fertilizante químico: com 330 quilogramas por hectare, o país utiliza duas vezes mais que a média mundial, assinalava em fevereiro a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O nitrato de amónio também é utilizado no fabrico de explosivos. "Misturado com TNT (trinitrotolueno) ou com PETN (tetranitrato de pentaeritritol), é usado na construção, nas minas e pedreiras", precisa a Sociedade Química de França.

É igualmente usado como propulsor na indústria aeroespacial, nos sacos para conservar congelados e na apicultura o seu fumo pode anestesiar as abelhas para se poder mover uma colmeia.

O nitrato de amónio (NH4NO3) resulta da reação entre o amoníaco e o ácido nítrico, sendo a Rússia o principal país produtor, com perto de 10 milhões de toneladas em 2017, cerca de 45% da produção mundial, segundo a FAO.

O composto, como os seus derivados, está sujeito a regras estritas: é necessário "isolar o fertilizante químico de produtos incompatíveis com nitrato de amónio, principalmente em caso de incêndios", precisa uma ficha técnica do Ministério da Agricultura, que cita em particular os líquidos inflamáveis, gases liquefeitos ou líquidos corrosivos.

Sublinha que um dos principais perigos associados aos fertilizantes que contêm nitrato de amónio é "a detonação de 'amonitratos' de alta dosagem", ou seja, os que contêm mais de 28% de nitrogénio.

"Insensível ao choque e ao atrito, o nitrato de amónio é um explosivo 'medíocre' a menos que seja misturado com combustíveis ou se estiver derretido e confinado durante, por exemplo, um incêndio violento", indica a Sociedade Química de França.

"A onda de detonação do nitrato de amónio provoca uma destruição muito significativa. (...) A explosão de Beirute é uma das mais fortes explosões químicas da história", assinalou em declarações à agência France-Presse o perito em explosivos Daniel Vanschendel.

Andrea Sella, químico na universidade londrina UCL, citado pelo Science Media Centre, comentou que "as explosões são tipicamente detonações que causam enormes danos devido à onda de choque supersónica, que é claramente visível nos vídeos" de Beirute.

Trata-se de uma "falha de regulamentação catastrófica, porque as regras sobre o armazenamento de nitrato de amónio são muito claras", disse.

Pelo menos 100 pessoas morreram e mais de 4.000 outras ficaram feridas após duas fortes explosões sucessivas que devastaram a capital do Líbano na terça-feira.

Cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio que estavam armazenadas no porto de Beirute estarão na origem das explosões, que também deixaram até 300.000 habitantes da cidade sem casa.

Beirute foi declarada "zona de desastre" e o Presidente libanês, Michel Aoun, anunciou ter desbloqueado 100 mil milhões de libras libanesas (55 milhões de euros) de financiamento de emergência, numa altura em que o país enfrenta uma crise económica sem precedentes.

O primeiro-ministro, Hassan Diab, apelou aos aliados do Líbano para apoiarem o país.

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