Crimes de guerra

"Noiva" alemã do Estado Islâmico deixou menina Yazidi morrer de sede ao sol

"Noiva" alemã do Estado Islâmico deixou menina Yazidi morrer de sede ao sol

Um tribunal de Munique condenou a dez anos de prisão uma mulher alemã que se juntou ao grupo terrorista Estado Islâmico, por ter deixado morrer de sede ao sol uma menina "escrava" Yazidi de cinco anos. O ato foi, esta segunda-feira, considerado um crime de guerra pelo coletivo de juízes.

Jennifer ​Wenisch foi considerada culpada de "dois crimes contra a humanidade sob a forma de escravidão", bem como de ajuda e cumplicidade no assassinato da rapariga, por não a ter auxiliado quando estava a morrer. Reinhold Baier, juiz presidente do tribunal regional superior de Munique, proferiu o veredicto de condenação da mulher alemã de 30 anos, numa das primeiras decisões em todo o mundo relacionadas com a perseguição do Estado islâmico à comunidade Yazidi.​​​​​​

Wenisch e o seu marido, militante do Estado Islâmico, "compraram" uma mulher Yazidi e uma criança como "escravos" domésticos, que mantiveram em cativeiro enquanto viviam em Mossul, Iraque, cidade que se encontrava ocupada pelo Estado Islâmico, em 2015.

"Depois de a menina ter adoecido e molhado o colchão, o marido da acusada acorrentou-a no exterior de casa como castigo e deixou a criança morrer enquanto agonizava de sede debaixo de um calor abrasador" de cerca de 50 graus, explicaram os procuradores durante o julgamento. "A acusada permitiu que o seu marido o fizesse e não fez nada para salvar a rapariga". A menina morreu enquanto a sua mãe, Nora, foi obrigada a permanecer ao serviço do casal.

O marido de Wenisch, Taha al-Jumailly, está também a ser julgado num processo separado em Frankfurt, cujo veredicto deverá ser proferido em finais de novembro. Identificada apenas pelo seu nome próprio, Nora, a mãe da rapariga Yazidi testemunhou repetidamente tanto em Munique como em Frankfurt sobre o tormento infligido à sua filha.

Os yazidis são uma comunidade ancestral que vive na zona norte do Iraque e em algumas partes da Síria e da Turquia. Esta minoria religiosa mistura elementos de várias tradições religiosas, como o zoroastrianismo, que chegou a ser a religião maioritária na antiga Pérsia, mas também do Islão e do cristianismo. A minoria é particularmente repudiada pelos islamitas sunitas, que apelidam os yazidis de satânicos.

Polícia da moral

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Durante o julgamento, a Defesa tinha alegado que o testemunho da mãe não era digno de confiança e disse não haver provas de que a rapariga, que foi levada ao hospital após o incidente, tivesse morrido de facto. Os advogados pediram que a mulher recebesse apenas uma pena suspensa de dois anos por apoiar uma organização terrorista.

Quando questionada durante o julgamento sobre o facto de não ter salvado a menina, Wenisch disse que tinha "medo" que o seu marido a "empurrasse ou a prendesse" e afirmou que estava a ser usada como "um exemplo" de tudo o que aconteceu durante os anos de terror do Estado Islâmico.

Wenisch converteu-se ao Islão em 2013 e viajou no ano seguinte, através da Turquia e da Síria, para o Iraque, onde aderiu ao grupo terrorista. Recrutada em meados de 2015 para a autointitulada polícia de moralidade, hisbah, patrulhava parques urbanos em Fallujah e Mosul. Armada com uma espingarda de assalto AK-47, uma pistola e um colete explosivo, a sua tarefa era assegurar que as regras estritas do Estado Islâmico em matéria de vestuário, comportamento público e proibição do consumo de álcool e de tabaco eram cumpridas.

Em janeiro de 2016, visitou a embaixada alemã em Ancara, na Turquia, para solicitar novos documentos de identidade. Quando deixou o edifício, foi presa e extraditada dias mais tarde para a Alemanha, mas só foi presa em junho de 2018, depois de ser apanhada a tentar chegar, juntamente com a sua filha de dois anos, aos territórios que o grupo ainda controlava na Síria.

Foi nessa viagem que contou à motorista do carro a sua vida no Iraque, mas a motorista era, na verdade, uma colaboradora do FBI e o carro estava equipado com microfones, tendo as gravações sido usadas pela acusação. Este processo é um dos primeiros a julgar crimes cometidos contra os yazidis.

Em outubro de 2020, uma mulher germano-tunisina, casada com um jiadista, foi condenada por um tribunal alemão a três anos e meio de prisão por ter contribuído para tornar uma jovem yazidi numa escrava, quando estava na Síria.

A pequena minoria etno-religiosa yazidi foi particularmente perseguida pelos jiadistas, que mataram centenas de homens, fizeram das mulheres escravas sexuais e obrigaram as crianças a tornarem-se soldados.

Iraquianos não árabes e não muçulmanos, muitos yazidis encontraram refúgio na Alemanha, especialmente no sudoeste do país, onde muitas mulheres, acompanhadas dos seus filhos, foram tratadas depois de violações repetidas.

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