Tensão

Por que é que os turcos atacam os curdos na Síria?

Por que é que os turcos atacam os curdos na Síria?

A tensão estalou na quarta-feira, quando as forças turcas lançaram um ataque há muito antecipado contra as "Forças Democráticas Sírias", uma milícia liderada pelos curdos, no nordeste da Síria. Os EUA, que por decisão de Donald Trump retiraram as tropas da região, ficam divididos entre dois aliados.

A Turquia lançou na quarta-feira uma terceira ofensiva na Síria, no nordeste do país, contra a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG), que considera um grupo "terrorista", mas que é apoiada pelos países ocidentais. "As Forças Armadas turcas e o Exército Livre da Síria [rebeldes sírios apoiados por Ancara] iniciaram a operação Fonte de Paz no norte da Síria", anunciou Erdogan no Twitter.

Um artigo do jornal "The New York Times" relembra que a disputa entre a Turquia e os curdos tem raízes profundas na dinâmica regional do poder "que criou uma teia de interesses". Para complicar ainda mais o cenário de tensão, há o facto de os EUA serem simultaneamente aliados dos turcos e das forças democráticas sírias.

O presidente da Turquia, Recep Erdogan, afirmou que o objetivo da ofensiva era "destruir o caminho do terror" que as forças curdas estão a tentar estabelecer na fronteira sul do país e assim trazer paz à região.

Por sua vez, Donald Trump, que no domingo anunciou a retirada das tropas norte-americanas da região, assegurou que "não abandonou" os curdos, seus aliados, e ameaçou "destruir completamente a economia da Turquia" caso Ancara "ultrapasse os limites".

Líderes das forças sírias e outras pessoas na região dizem que os ataques estão a colocar a vida dos civis em risco e alertam para uma iminente crise humanitária. Grupos curdos no terreno partilharam fotografias e vídeos de pessoas que fugiam das aldeias.

Mas por que é que os turcos atacam, afinal, os curdos na Síria? Para compreender o conflito, é necessário recuar no tempo e conhecer os antecedentes da disputa e de que forma é que os EUA se meteram entre eles.

Os curdos são o quarto maior grupo étnico do Médio Oriente. Apesar dos números, são um povo apátrida (sem nacionalidade) e muitas vezes marginalizado, cujas terras se estendem pela Turquia, Iraque, Síria, Irão e Arménia.

Após a Primeira Guerra Mundial e a queda do Império Otomano, muitos curdos reivindicaram um Estado independente e chegou a haver promessas nos primeiros tratados para a criação do Curdistão. Porém, quando a região foi finalmente dividida, a nação nunca se formou e, nos anos seguintes, várias tentativas de criar uma nacionalidade voltaram a falhar.

O "New York Times" aponta que a Turquia vê o crescente poder das forças curdas ao longo da sua fronteira no sul como uma ameaça e Erdogan tem anunciado durante anos os planos para uma intervenção militar no norte da Síria.

Porém, os antecedentes da disputa estão relacionados com um conflito interno na Turquia. Aquele país está em conflito com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão desde que este lançou um violento movimento separatista no início dos anos 80. Tanto os turcos como os norte-americanos consideram o partido uma organização terrorista.

Do outro lado da fronteira, na Síria, as Unidades de Proteção do Povo Curdo estão ativas desde 2004. Esta milícia secundária procura há muito tempo formar um Estado autónomo para os curdos. Esta e uma outra milícia de combatentes femininas foram aplaudidas no Ocidente pela posição anti-islâmica e atraíram voluntários norte-americanos e europeus para lutar nas suas fileiras contra o Estado Islâmico.

Os membros destas milícias têm laços profundos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que a Turquia considera uma organização terrorista, e acabaram por se juntar a outros grupos, chegando ao Departamento de Defesa dos EUA, fundamental na retirada do Estado Islâmico do território sírio, que terminou no início deste ano.

À medida que o Estado Islâmico foi sendo expulso do território no nordeste da Síria, o poder dos curdos na região aumentou. E, ao mesmo tempo, aumentou a preocupação de Erdogan.

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou, no passado domingo, que iria retirar definitivamente as tropas da região e isso abriu caminho à ofensiva da Turquia, que há muito tempo defendia a saída dos norte-americanos da Síria.

Os EUA ficaram entalados entre dois aliados: são parceiros da Turquia na NATO e partilham com os curdos uma longa história de cooperação.

A aliança com as forças democráticas sírias, liderada pelos EUA, começou em 2015, altura em que que os curdos eram vistos como os mais capazes de afastar os militantes do Estado Islâmico que tinham ocupado grandes extensões de território no Iraque e na Síria.

A posição dos EUA tornou-se menos clara quando, depois de expressar o apoio a Erdogan, Trump voltou atrás com a sua palavra, ignorando as objeções de aliados políticos e oponentes.

"Podemos estar em vias de deixar a Síria, mas de forma alguma abandonaremos os curdos, que são pessoas especiais e combatentes maravilhosos", escreveu Trump no Twitter, afirmando depois que os EUA estavam a ajudá-los financeiramente e alertou a Turquia sobre ataques desnecessários.

No entanto, durante uma conferência de imprensa na noite de quarta-feira, Trump voltou a confundir a sua posição e disse que decidiu permitir a ofensiva turca no norte da Síria porque os curcos "não ajudaram os EUA durante a Segunda Guerra Mundial".

"Agora os curdos estão a lutar pelas suas terras. Eles não nos ajudaram na Segunda Guerra Mundial, não nos ajudaram com a Normandia, por exemplo". Trump justificou o argumento com o facto de ter lido um artigo sobre o tema, sem no entanto o identificar, que reduzia a importância da aliança com os curdos. "Estão lá para nos ajudar com as suas terras e isso é uma coisa diferente", afirmou.

Enquanto turcos e curdos medem forças durante o conflito no norte da Síria, o Estado Islâmico (EI) poderá aproveitar para voltar ao território.

Depois de as forças democráticas sírias terem assumido o controlo das áreas ocupadas pelos militantes do EI e terem capturado dezenas de milhares de combatentes, essas pessoas ligadas ao grupo terrorista ficaram detidas em prisões improvisadas numa região de responsabilidade turca, embora sem planos para a sua realocação.

Com o conflito e instabilidade no nordeste da Síria, as pessoas da região começam a temer que se crie o mesmo vácuo de poder que existia antes da ascensão do EI, podendo abrir caminho ao regresso dos terroristas. Apesar de terem perdido território, os militantes do EI continuam ativos na Síria.

Com a nova ofensiva da Turquia no país, é provável que as forças democráticas sírias desviem a atenção dos anteriores inimigos. "Existe um risco muito grande de o Estado Islâmico tirar vantagem de as forças sírias, os americanos e outros membros da coligação se concentrarem nas implicações dos ataques turcos", disse Melissa Dalton, diretora do Projeto de Defesa Cooperativa do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, citada pelo "New York Times".

Igualmente preocupante é o aumento da possibilidade de fugas da prisão e conflitos entre os detidos do EI: "É uma receita para o desastre".

O Presidente da Turquia ameaçou que poderia "abrir as portas" do país e enviar milhares de refugiados para a Europa se Bruxelas criticar a ofensiva militar de Ancara contra as milícias curdas na Síria.

"União Europeia: recupera o juízo. Se defines a nossa operação como invasão, o nosso trabalho é fácil. Abrimos as portas e enviamos 3,6 milhões de refugiados", ameaçou o chefe de Estado turco durante um discurso hoje em Ancara.