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Virologistas portugueses desconfiam do quadro clínico de Trump

Virologistas portugueses desconfiam do quadro clínico de Trump

Presidente americano, hospitalizado desde sexta-feira com covid-19, tem "sintomas ligeiros" mas está a tomar "super-cocktail" experimental da Regeneron, além de Remdesivir e esteroides para "casos graves". Dois especialistas explicam ao JN o que não bate aqui certo.

"A real situação clínica de Donald Trump, um doente de risco elevado com covid-19, pode ser muito pior do que se diz oficialmente", afirmou ao JN o virologista Celso Cunha, do Instituto de Higiene e Doença Tropicais.

O especialista diz que o estado de saúde do presidente norte-americano, que revelou na madrugada de quinta-feira ter contraído a doença respiratória aguda provocada pelo novo coronavírus, "tem que ser grave" e que os seus médicos "não estarão a dizer tudo".

"Não sabemos sequer se estarão a falar verdade", sustentou Celso Cunha, sugerindo que "a informação médica oficial está a ser gerida com mais cuidados políticos do que com esclarecimentos científicos", aludindo ao contexto das eleições presidenciais, que terão lugar em menos de um mês (3 de novembro).

Tratamento "exagerado" para "sintomas ligeiros"

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Donald Trump, 74 anos, obeso, hipertenso e com colesterol alto, estará, segundo os médicos da Casa Branca, a atravessar só "sintomas ligeiros" da doença, mantendo "a boa disposição e continuando a trabalhar" no hospital militar Walter Reed, onde foi internado na sexta-feira.

O presidente republicano está a ser tratado com o potente antiviral Remdevisir, "um fármaco que reduz os dias de hospitalização, mas não a taxa de mortalidade", segundo o virologista português, e ainda com o novo "super-cocktail" da Regeneron, que "bloqueia a infeção" e "neutraliza a sua capacidade reprodutiva", alegadamente desacelerando o avanço da doença.

"Seria um tratamento exagerado, e errado, para um doente comum e com 'sintomas ligeiros', o que nos leva a pensar", diz o virologista, "que os médicos da Casa Branca estão a esconder informação".

Com que intenções? "Só eles saberão, mas é senso comum que o estado de saúde de um presidente é um segredo de Estado", responde Celso Cunha.

O cientista insiste na nova droga experimental dos laboratórios da Regeneron, uma farmacêutica em que Trump já investiu no passado com compra de ações: "Deixa-me muito desconfiado. É um fármaco ainda em fase experimental, que não foi aprovado para uso geral pela FDA [Food and Drug Administration, o equivalente ao Infarmed] e que só se usa em doentes em fim de linha, ou seja, pessoas que já não têm qualquer outra esperança. Aliás, advoga-se o seu uso, restrito, em tratamentos de compaixão. Ora, isso bate certo com os 'sintomas ligeiros' publicitados pelo médico da Casa Branca? Claro que não".

O presidente americano, que no sábado teve duas quebras nos níveis de oxigénio no sangue, descendo numa delas para a marca perigosa de 93% (há perigo abaixo dos 95%), está também a tomar dexametasona, um esteroide que a Organização Mundial da Saúde só deixa usar em doentes com covid que estejam em situação "grave ou crítica".

Comportamento "errado" e "criminoso"

Para Pedro Simas, virologista do Instituto de Medicina Molecular, o comportamento do presidente Trump, que não advoga nem pratica o uso de máscara ou o distanciamento social, "é um comportamento de risco". E diz mais: "É um comportamento errado, aliás, é erradíssimo. É pena que o presidente americano se comporte assim" e "influenciando negativamente tantos seguidores".

Trump "devia ser um modelo para os EUA e para toda a Humanidade", continua Pedro Simas, "mas não o vemos a assumir essa postura responsável e sabemos que o grande poder traz grande responsabilidade - veja-se o exemplo do nosso presidente da República [Marcelo Rebelo de Sousa] que tem um comportamento exemplar e anda sempre de máscara, cumprindo a etiqueta respiratória num quadro de pandemia".

Celso Cunha vai mais longe na condenação de Trump. "É um comportamento irresponsável e quase criminal ou criminalizável. Ele faz tudo aquilo que não se deve fazer numa pandemia. Anda ostensivamente sem máscara, promove encontros sociais sem distanciamento mínimo, goza até com quem usa a máscara, como vimos que fez com [o candidato democrata Joe] Biden. E persiste nestes comportamentos condenáveis, influenciando o seu eleitorado a ter comportamentos de risco que, como sabemos nesta grave doença, levam à morte".

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