Pandemia

Neste século, nunca morreu tanta gente num dia: 633, a 11 de janeiro

Neste século, nunca morreu tanta gente num dia: 633, a 11 de janeiro

Desde 5 de janeiro que, diariamente, estão a morrer mais de 500 pessoas em Portugal. Nos primeiros 11 dias deste ano o excesso de mortalidade equivalia a 17% do apurado para 2020. Covid-19 responde por metade.

11 de janeiro de 2021. O dia em que mais pessoas morreram, em Portugal, neste século. São 633 óbitos, dos quais 155 por covid-19. Também, aqui, um novo máximo. Com o país a registar mais de 500 óbitos diários há oito dias consecutivos, o excesso de mortalidade segue em escalada.

De acordo com os dados do eVM - sistema de vigilância da mortalidade em tempo real - às 21 horas de ontem registavam-se 633 mortes no dia 11. Face à média do período 2009/2019, são 248 óbitos a mais.

Os dados facultados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) ao JN mostram tratar-se do valor mais alto desde, pelo menos, 2000. O máximo (até 2020) verificara-se a 2 de janeiro de 2017, com 572 óbitos, ano em que a gripe e o frio provocaram um excesso de 4467 mortes.
Sendo que, nesse ano, em apenas dois dias se ultrapassou a fasquia dos 500. Agora, desde o dia 5 que se excede, diariamente, aquele valor. Às 21 horas de ontem, o eVM contabilizava já 504 mortes a 12 de janeiro.

Com impactos na mortalidade semanal: entre 4 a 10 de janeiro há registo de 3749 mortes, que compara com o valor mais elevado verificado no ano passado: 2992 mortes, na semana de 7 a 13 de dezembro. Pelo menos desde 2018, é também um novo máximo.
Analisando a mortalidade nos primeiros 11 dias, contam-se 5733 óbitos, 74% dos quais de pessoas com idade igual ou superior a 75 anos. Para esse período, o SARS-CoV-2 respondeu por 19% do total. De realçar, ainda, um aumento de 26% na mortalidade prematura.

2222 óbitos em excesso

Grandeza esta que impacta na sobremortalidade. Utilizando os dados do eVM (óbitos observados versus linha de base apurada com a mortalidade diária a cinco anos), conclui-se que o excesso de óbitos estimado nestes 11 dias corresponde já a 17% da sobremortalidade calculada pelo INE para o período entre 2 de março e 27 dezembro de 2020.

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Feitas as contas, até à passada segunda-feira contavam-se, neste ano, 2222 mortes em excesso, metade das quais por covid-19. "Nota-se, para já, um excesso de mortalidade sem igual", diz Carlos Antunes, professor da Faculdade de Ciências de Lisboa, que, com os seus modelos matemáticos, apoia o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, perito ouvido pelo Governo.

Com probabilidade de subestimado, avisa o investigador em Bioestatística Paulo Nogueira. Primeiro, porque comparámos realidades incomparáveis: médias a cinco anos que não podiam ponderar a covid. Depois, porque no início de 2020 "tínhamos um superávite [a mortalidade era inferior à média], entretanto fulminado pela pandemia". Há, por isso, "um potencial de ser maior", conclui.

Mortes colaterais que, adianta Carlos Antunes, podem ser explicadas pela "vaga de frio e diminuição de assistência médica associada à saturação dos hospitais". Saturação essa que, por sua vez, pode explicar a subida de óbitos por covid dos últimos dias.

"O aumento de mortalidade em covid é essencialmente devido às regiões Centro e Lisboa e Vale do Tejo, onde o aumento dos internamentos covid tem subido mais nas últimas semanas", explica. "Com hospitais no limite da sua capacidade, esta letalidade pode estar relacionada com a falta de capacidade hospitalar", admite.

Refira-se que as projeções ontem apresentadas por Carmo Gomes colocam-nos, no fim do mês, com 14 mil novos casos diários, 150 mortes e 700 internados em Cuidados Intensivos.

Funerárias "não se lembram" de tanta procura

Não há memória de tanta procura de funerais. O relato é do presidente da Associação Nacional de Empresas Lutuosas, Carlos Almeida, que trabalha no setor há cerca de 35 anos. "Há subidas nesta altura, mas não me lembro de nada com esta intensidade durante tanto tempo e penso que não atingimos o pico", referiu à TSF, apelando às famílias para que não peçam cerimónias complexas nesta fase da pandemia.

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