Sondagem

31% dos utentes sem médico de família esperam há mais de dois anos

31% dos utentes sem médico de família esperam há mais de dois anos

A atribuição de médico de família a todos os portugueses é uma promessa política antiga, cada vez mais longe de ser concretizada. A esmagadora maioria dos residentes no país estão inscritos em centros de saúde (98%), mas apenas 75% são acompanhados por um especialista em Medicina Geral e Familiar. Do outro lado, estão 16% de utentes que pioraram a sua condição, porque já tiveram clínico mas atualmente não têm, e 6% que nunca tiveram. Entre aqueles que estão a descoberto, quase um em cada três (31%) esperam há mais de dois anos pela atribuição de um médico de família.

A sondagem da Aximage realizada para o JN, TSF e DN confirma um cenário há muito denunciado por ordens, sindicatos e profissionais de dificuldades no acesso aos cuidados de saúde primários, de atrasos na marcação de consultas, exames e cirurgias, com algumas assimetrias entre regiões, idades e classes sociais.

Segundo dados oficiais do Ministério da Saúde, em maio último, 1,3 milhões de utentes não tinham médico de família. O número tem vindo a agravar-se todos os anos - em setembro de 2019 eram 641 mil - devido às aposentações e à dificuldade em fixar e atrair médicos para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). O mesmo problema que afeta as urgências hospitalares, em particular as de Obstetrícia, que têm estado na ordem do dia pelos piores motivos.

Idosos com pior cobertura

As maiores carências de médicos de família são na região de saúde de Lisboa e Vale do Tejo (951 mil utentes a descoberto) e a sondagem reflete isso mesmo. É na Área Metropolitana de Lisboa, no Centro e na Região Sul e Ilhas que mais utentes estão sem médico (nunca tiveram ou perderam). Por oposição, é na Região Norte e na Área Metropolitana do Porto que há mais cobertura, com 89% e 87% dos inscritos a responderem que são seguidos por um especialista de Medicina Geral e Familiar.

A análise por idades revela um dado preocupante, que pode justificar tantas idas às urgências hospitalares: os maiores de 65 anos são o grupo etário com pior cobertura, com um total de 25% a admitirem não ter médico de família.

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As carências refletem-se no acesso aos cuidados de saúde. Embora 34% dos inscritos nos centros de saúde considerem fácil ou muito fácil marcar uma consulta, há 31% que dizem ser difícil ou muito difícil. Outros 31% respondem "médio" quando questionados sobre a facilidade com que conseguem marcar consulta no centro de saúde. Apesar da cobertura de médico de família ser menor em Lisboa, é na Região Centro (34%) que mais inquiridos assumem ser difícil ou muito difícil marcar consulta, seguido da Área Metropolitana do Porto (32%).

Esperas para consulta

Relativamente aos tempos de espera, 29% dos utentes inscritos em centros de saúde revelam esperar entre 15 dias e um mês entre a marcação e a realização da consulta. Um quinto espera entre um e dois meses, outros 20% menos de 15 dias e 19% esperam mais de dois meses. Curiosamente, é no Norte e na Área Metropolitana do Porto, onde há maior cobertura de médicos de família, que mais utentes dizem esperar mais de dois meses por uma consulta (24% e 26%, respetivamente).

Aliás, os atrasos nas consultas médicas no setor público são experimentados pela maioria (64%) dos utentes inscritos ou familiares próximos, como revela a sondagem. Apenas 21% respondem que não têm conhecimento destes problemas nas consultas e 15% não sabem. E mais uma vez é na Área Metropolitana do Porto e no Norte que mais utentes constatam a existência de atrasos.

Atrasos em cirurgias

Paralelamente, 60% do total de inquiridos dizem ter conhecimento, por experiência pessoal ou de familiares próximos, de atrasos nos tratamentos e nas cirurgias realizadas no SNS. As demoras são mais sentidas na Área Metropolitana de Lisboa (67%) e na Área Metropolitana do Porto (64%).

Entre os inquiridos que verificaram atrasos nas consultas e/ou tratamentos e cirurgias (69% do total), mais de metade (53%) considera que estas demoras se devem aos constrangimentos provocados pela covid-19. Outros 35% acham que a pandemia não explica as demoras e 12% não sabem. As mulheres (59%) acreditam mais na justificação da covid-19 do que os homens, assim como a classe económica mais desfavorecida (70%).

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