Conferência JN

A solução a Norte

Esta crise económica é inédita: porque foi provocada pelo encerramento temporário determinado pelos governos em resposta à crise sanitária.

Não se sabendo quando esta estará debelada, percebe-se já que para além da quebra abrupta de rendimentos, haverá igualmente uma crise generalizada de liquidez e, posteriormente, uma alteração muito profunda nas cadeias de valor.

As medidas que têm sido adoptadas procuraram responder à emergência, com lay-offs e créditos e rendimentos garantidos. Essa solução não pode ser perpetuada ou replicada, e urge por isso tomar medidas de outra índole, com um horizonte mais longínquo, mas ainda assim com a urgência possível. E não havendo uma panaceia comum a todos os países e regiões, é fundamental que a Região Norte adopte uma estratégia adequada à sua condição que deve determinar a alocação dos recursos escassos que serão disponibilizados pelo Estado e, fundamentalmente, pela União Europeia.

Se não houver essa estratégia, esses recursos serão cobiçados por outros e alocados a prioridades que não são relevantes para a região. O sinal dado com a intervenção na TAP deve servir de alerta para o que aí vem.

O Norte é uma região industrializada e com forte vertente exportadora, que assenta fundamentalmente em empresas de média dimensão, as "mid caps". São essas empresas de diversos sectores que se mantiveram em laboração, a par do sector do turismo, que esteve imobilizado, quem garante os níveis de emprego na região. No caso do turismo, prevê-se que, a nível mundial, a recuperação plena só ocorra em 2022. A ser assim, o nosso sector só sobreviverá se, entretanto, ganharmos quota de mercado. Isso exige que se aposte na diferenciação do produto, como já está a ser feita pelas entidades e agentes turísticos, e que se entenda a importância da segurança percepcionada pelo turista potencial. Portugal tem andado mal nessa matéria, ao adiar medidas de prevenção sanitária nos aeroportos, e ao insistir em divulgar dados que os europeus desconsideram.

No caso da indústria, as restrições físicas da procura e a retracção do consumo e a disrupção das cadeias de consumo ameaçam levar muitas das empresas à insolvência. O impacto será mais severo nas empresas que, já antes da crise, tinham baixos níveis de rentabilidade e forte endividamento. Se muitas dessas estão agora irremediavelmente condenadas à inviabilidade, é fundamental alocar os recursos disponíveis para garantir o crescimento acelerado de outras empresas, o que exigirá um forte investimento na inovação tecnológica e na diversificação de produtos e de mercados-alvo, e participando no recentramento das cadeias de valor à escala europeia. Só assim será possível equilibrar os níveis de emprego, criando novos postos de trabalho que substituam aqueles que serão ou já estão perdidos.

Ora, esse investimento não será exequível através das habituais fontes de financiamento, pelo que haverá que criar condições urgentes para a recapitalização dessas empresas, se necessário com fundos públicos.

Por fim, e em matéria de infra-estruturas, é indispensável que o investimento que poderá ser feito através de fundos europeus aposte na sustentabilidade ambiental, nomeadamente na área dos transportes, e na redução dos custos de contexto.

Tudo isto é possível e indispensável, e necessita de ser discutido por todos, pelas empresas e pela academia, a par dos poderes políticos, evitando tanto quanto possível os tabus de carácter ideológico que toldam a boa decisão.

Presidente da Câmara Municipal do Porto

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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