
Pedro Serafim, porta voz do estado maior da Armada
André Luís Alves / Global Imagens
O Hospital das Forças Armadas (HFAR), no Lumiar, só este mês recebeu mais 429 militares vindos da Marinha, Exército e Força Aérea e já foi buscar 22 militares à reserva para reforçar os recursos humanos. A unidade atinge a sua capacidade máxima amanhã, sábado, com 212 camas para doentes covid-19 montadas em tempo recorde.
O refeitório do polo de Lisboa do Hospital das Forças Armadas já não tem mobília e, aos poucos, vai ganhando 50 novas camas para pacientes covid-19, divisórias, paredes improvisadas e equipamento hospitalar. Este é o último espaço dos vários edifícios da unidade a ser reconvertido em enfermaria, que deverá estar pronta amanhã. Na última semana, militares e civis redobraram-se em esforços e, em poucos dias, transformaram gabinetes de consultas, átrios e salas de espera em enfermarias para receberem doentes covid-19 de outros hospitais. O HFAR começou por ter, em março do ano passado, 20 camas de enfermaria e cinco de cuidados intensivos. Quase um ano depois tem dez vezes mais camas, 197 em enfermaria e 15 de cuidados intensivos.
Todos os dias, a Administração Regional de Saúde e Vale do Tejo (ARS) pergunta ao HFAR quantas vagas tem para pacientes covid-19. A pressão para a abertura de mais camas, aqui como em todos os hospitais da Grande Lisboa, é enorme, mas o Brigadeiro-General Rui Sousa, diretor do HFAR, para já não está a equacionar a abertura de novos espaços. Esta tem de ser acompanhada por um aumento dos recursos humanos, "onde há sempre mais limitações". "Em situação de catástrofe arranja-se sempre espaço, nem que seja nos corredores. O problema é a falta de recursos", observa Rui Sousa ao JN.
No sentido de colmatar a carência de profissionais de saúde, que levou, por exemplo, o hospital de campanha de Lisboa a adiar a sua abertura, o HFAR só este mês recebeu mais 429 militares, desde profissionais de saúde a outros serviços de apoio, vindos da Marinha, Exército e Força Aérea e 22 militares da reserva, médicos e enfermeiros, meios que poderão continuar a ser reforçados. "Felizmente integramos uma organização que tem alguma flexibilidade. É um esforço extraordinário que só é possível pela colaboração da Marinha, Exército e Força Aérea. Sem eles não teria sido possível operar estas camas", explicou.
"Sempre que abrimos um espaço novo enche imediatamente"
As Forças Armadas já receberam, desde o início da pandemia, 1107 doentes covid-19 do SNS, dos quais 750 no polo de Lisboa. Só desde outubro, este mesmo polo recebeu 175 doentes covid-19 referenciados pela ARS, maioritariamente do Hospital Beatriz Ângelo, de onde vieram 92 utentes. Quando a rede de oxigénio do Amadora-Sintra entrou em sobrecarga, na passada terça-feira, receberam cinco doentes deste hospital.
Numa altura em que vários hospitais da Grande Lisboa estão no limite das suas capacidades, o HFRA não é exceção. "Sempre que abrimos um espaço novo enche imediatamente, o que é natural porque a necessidade é tão grande. Quando montamos 20 camas, no início desta semana, depois de abrirmos mais uma enfermaria, vieram logo 20 ambulâncias, recebemos os doentes de uma vez. Não foi fácil de processar", recorda.
Numa semana em que o aumento do número de casos e mortes por covid-19 atinge números dramáticos, o Brigadeiro-General é perentório. "Estamos sempre dispostos a colaborar com tudo o que nos seja solicitado pelo Serviço Nacional de Saúde. Encaramos isto como uma missão humanitária dentro de fronteiras, é a nossa obrigação, nem é preciso pedirem-nos. Se nos derem mais recursos, mais fazemos, damos tudo na medida das nossas possibilidades", reforça Rui Sousa, que por opção será o último a ser vacinado contra a covid-19 no Hospital das Forças Armadas.
Áreas urgentes salvaguardadas
Com todas as transformações que o hospital sofreu, o diretor da unidade assegura que não esqueceram outras patologias e que "todas as áreas emergentes e prioritárias, como oncologia, foram salvaguardadas". "Continuamos com o serviço de urgência aberto, a operar apendicites e todo o tipo de situações clínicas urgentes. Nenhum doente é esquecido", garante. O serviço de internamento da psiquiatria foi o único a ser desativado, tendo sido os doentes transferidos temporariamente para a enfermaria da Medicina Interna.
A grande mobilização de médicos, neste momento maioritariamente militares, de diferentes especialidades também tem garantido o tratamento de um maior número de doentes. "Temos cirurgiões, ortopedistas e até psiquiatras a ver doentes covid-19. Apesar de pertencerem a áreas clínicas cirúrgicas estão a colaborar neste esforço", salienta. O mais difícil tem sido mesmo encontrar médicos especializados em cuidados intensivos. "Esta é a área mais crítica porque é muito especializada e aí já não conseguimos ter tanta flexibilidade. É uma limitação que já não pode ser ultrapassada", admite o diretor do Hospital das Forças Armadas.
