
Acidentes com animais causaram 118 feridos em 2017
Rui da Cruz / Global Imagens
Sinistros com fauna provocam centenas de vítimas humanas e colocam espécies em perigo.
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Desde janeiro de 2017 registaram-se, pelo menos, 734 acidentes de viação envolvendo animais. Os números, avançados ao JN pelas forças de segurança, representam uma parte exígua dos acidentes rodoviários, mas causaram 120 feridos (seis graves) e não são negligenciáveis, diz o presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa.
A presença de animais nas vias é "um problema de segurança rodoviária", pois "muitos acidentes decorrem não só dos embates com animais, mas também de súbitas manobras de desvio que podem causar despistes", reconhece a Infraestruturas de Portugal, no relatório que analisa a mortalidade de fauna nas estradas e o impacto das vias na conservação de espécies mais frágeis.
Apurar pontos negros
Em 2017, a GNR contabilizou 134 acidentes de que resultaram vítimas, dos quais 92 foram devido a atropelamentos de animais e 42 por outras situações. Este ano, até 31 de outubro, a GNR registou já 110 acidentes com vítimas, envolvendo animais, dos quais 70 foram atropelamentos.
A PSP assinalou, em 2017, 323 acidentes de viação com animais, que provocaram um ferido grave e 25 ligeiros. No primeiro semestre deste ano, registou 167 acidentes, com dois feridos graves e nove ligeiros.
É uma pequena parte dos acidentes rodoviários registados em 2017 e cujo número, segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, ascende aos 130 157. Dos 108 atropelamentos de animais que a ANSR registou em 2017, 48 aconteceram em arruamentos, 32 em estradas nacionais, 18 em municipais e seis em autoestradas. Resultaram 118 feridos, seis graves.
Três mortes em sete anos
José Miguel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa, sublinha que os acidentes com animais não são muito expressivos face aos números globais da sinistralidade, mas "não são negligenciáveis". Entre 2010 e 2016, diz, "ocorreram 517 atropelamentos de animais, que provocaram três vítimas mortais, 25 feridos graves e 558 leves", o que significa "0,06% das vítimas mortais", diz. "No global da sinistralidade, não é a questão que mais nos preocupa. Mas é preciso perceber se há algum ponto negro com muitos atropelamentos de animais e atuar", defende.
Além dos atropelamentos de animais registados, acrescenta José Miguel Trigoso, "há muito outros acidentes que é difícil contabilizar como tendo o envolvimento de animais, mas que têm ligação. Como os despistes de condutores para evitar bater em animais ". Mas provar que foi um animal que desencadeou o sinistro é "difícil". O JN não conseguiu obter esclarecimentos da Associação Portuguesa de Seguradores.
Nem sempre é fácil apurar responsabilidades
De acordo com a Deco, que em 2017 recebeu "cerca de duas dezenas de pedidos de informação e reclamações" sobre acidentes envolvendo animais, "nem sempre é fácil apurar responsabilidades". Ana Sofia Ferreira, coordenadora do Gabinete de Apoio ao Consumidor, diz que nas autoestradas, por serem pagas e existir, portanto, uma espécie de relação contratual entre a concessionária e os utilizadores, a concessionária tem "a obrigação de manter as vias em bom estado de conservação permanente", devendo "responsabilizar-se" pelos acidentes provocados por animais, que não deveriam estar na via. Mas, diz, "nem sempre acontece" e as concessionárias alegam "que as situações foram extraordinárias", dando início a alguns litígios. Quando acontecem estes acidentes, aconselha, os condutores devem pedir sempre a presença de uma autoridade para fazer o auto da ocorrência. O apuramento de responsabilidades noutras vias é ainda mais complexo, pois o dever de manter as estradas em bom estado não é "permanente". E, depois, há "muitas circunstâncias" a considerar, desde provar a intervenção do animal, se era doméstico com chip ou selvagem, entre outras.
Problemas e soluções
Pontos Negros
Na amostra selecionada, a IP identificou 11 pontos negros: quatro no IC1 e um na estrada 253 em Setúbal; as EN 18, 4 e 251, em Évora; e as EN240 e 239, em Castelo Branco.
Espécies afetadas
Os animais mais afetados nos pontos negros foram as garças-boieiras (sobretudo no IC1, junto do qual nidifica uma colónia), carnívoros e aves de rapina noturnas.
Medidas mitigadoras
IP e Life Lines estão a implementar ações, como a reparação de vedações, criação de passadiços secos em passagens hidráulicas, cortinas arbóreas para corujas levantarem o voo e sinalização extra.
