
Óscar Gaspar é o presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada há dez anos
Foto: Pedro Gomes Almeida
Face a uma elevada procura por cuidados de saúde, a falta de recursos humanos é uma das maiores preocupações do presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP). Em entrevista, Óscar Gaspar admite a existência de listas de espera nos privados e lamenta a "diabolização" das parceiras público-privadas (PPP).
Como descreveria o percurso do Serviço Nacional de Saúde (SNS) desde que foi secretário de Estado até hoje?
Nos indicadores de mortalidade infantil, esperança de vida, atendimento e acesso, o SNS fez um trabalho notável. Ao longo dos últimos anos, há um crescimento muitíssimo forte da procura por cuidados de saúde em Portugal e na Europa. As populações estão mais envelhecidas, têm mais literacia, querem uma segunda opinião e conhecem mais meios de diagnóstico. Há uma pressão enorme sobre os sistemas de saúde. Mesmo tendo mais recursos humanos e financeiros, o SNS tem batido recordes: no final de 2025, havia uma lista de espera cirúrgica de quase 300 mil pessoas e mais de um milhão à espera de consulta.
A hospitalização privada sente a pressão da procura?
Há um crescimento muito substancial: existem mais unidades e atividade assistencial. Quatro milhões e 60 mil pessoas têm seguro de saúde, às quais acresce mais de um milhão e meio que têm um subsistema público (ADSE, PSP, GNR ou militares). Temos falta de profissionais de saúde em Portugal e na Europa, porque a procura continua a crescer muito. O privado tem muita falta de médicos. Tem falta de dermatologistas, psiquiatras, pedopsiquiatras e anestesistas. Temos dito [enquanto APHP], meio a sério, meio a brincar, que se souberem onde há profissionais de saúde para podermos contratar, que nos digam, por favor. A verdade é que, hoje, há listas de espera no privado. Mais para consultas, mas admito que também para cirurgias.
"A verdade é que, hoje, há listas de espera no privado. Mais para consultas, mas admito que também para cirurgias"
Têm sido noticiados tempos de espera de nove meses para agendar consultas de dermatologia em hospitais privados. Qual é a razão?
Penso que não chega a tantos meses, mas há listas de espera muito substanciais em dermatologia. Hoje, não temos dermatologistas a querer trabalhar com seguros ou com a ADSE, o que nos leva a pensar até que ponto é que a valorização dos atos médicos é adequada ou efetiva para termos os profissionais de saúde. Os preços em algumas especialidades não estão ajustados.
Há a possibilidade de termos uma divulgação pública dos tempos e das listas de espera dos hospitais privados, como já temos do setor público?
Sim, não vejo dificuldade em que isso aconteça. No caso das urgências, a maioria dos hospitais privados já tem os tempos de espera no seu site.
Quantos dos 130 hospitais privados têm as urgências 24 horas abertas, com todas as especialidades, como no SNS?
Em Lisboa, tem pelo menos três. A estrutura da oferta deve estar adequada à procura esperada. Não se justifica, nem no privado, nem no público, ter uma urgência aberta com todas as especialidades, 24 horas por dia, com dezenas de profissionais. Não é uma questão de ser caro, é a racionalidade de ajustar a oferta à procura.

Foto: Pedro Gomes Almeida
As dificuldades nas áreas da ginecologia e obstetrícia são conhecidas no SNS, sobretudo em Lisboa e Vale do Tejo. No privado, há mais partos a ser realizados: cerca de três quartos são feitos em maternidades privadas de Lisboa. O privado tem capacidade para atender todas as grávidas?
Há uma evolução muito significativa e sustentada do número de partos, tendo aumentado cerca de 6,7% por ano. No ano passado, foi ultrapassada a barreira dos 16 mil partos. Há uma maior concentração em Lisboa, nas maternidades da CUF, Luz e Lusíadas. Temos tido capacidade para fazer face a este aumento da procura. É preciso recordar que o Governo lançou uma convenção, há uns anos, para que os privados pudessem apoiar as maternidades públicas da região de Lisboa. Essa convenção está em vigor. Centenas de senhoras foram redirecionadas pelo INEM, via CODU [Centro de Orientação de Doentes Urgentes], para terem o parto em maternidades privadas, quando não havia possibilidade de serem atendidas no SNS.
Na última semana, foi anunciado pela ministra da Saúde o encerramento da urgência de obstetrícia do Barreiro, um concelho onde o grupo CUF anunciou a abertura de um novo hospital privado em 2028. É o setor privado a avançar onde o público recua?
Cada grupo tem de responder por si. Eu não posso comentar aquilo que são decisões políticas da senhora. ministra da Saúde. O SNS tem mais recursos e faz mais. O privado também faz mais e não está a crescer à custa do setor público. Está a crescer em complementaridade. Dizer que os doentes estão a sair do público para o privado é uma falsa questão, porque tudo é sistema de saúde. A minha preocupação é ver os números muito significativos do aumento da lista de espera cirúrgica e das consultas no relatório da ACSS [Administração Central do Sistema de Saúde]. Do lado dos privados, há disponibilidade para fazer mais em articulação com o SNS. Mas nós estamos em níveis mínimos de relação com o público. Nunca fizemos tão pouca atividade com o público como hoje.
"O privado não está a crescer à custa do público. Está à crescer em complementaridade com o SNS"

Foto: Pedro Gomes Almeida
O melhor para o país em matéria de saúde seria ter os dois sistemas em harmonia?
Eu considero que o SNS deve ser forte e capaz e defendo que deve ter um forte investimento. Portanto, critiquei quando o nível de investimento nos últimos anos, mesmo com o PRR [Plano de Recuperação e Resiliência], foi muito abaixo do que estava previsto. O país ganha se houver uma maior articulação entre o público e privado. O setor privado faz mais de 11 milhões de consultas de especialidade. Sem ele, o público teria colapsado. Se não houvesse o privado na atividade assistencial, seria absolutamente dramático para os portugueses.
A falta de profissionais de saúde pode condicionar a abertura de novos hospitais privados em Portugal?
Não há nenhuma reunião internacional em que a falta de recursos humanos não esteja no topo das preocupações. Diz-se que a formação de médicos em Portugal é suficiente e se fossem todos para o SNS, não haveria problemas. Mas um médico não pode nem deve estar só no SNS. As seguradoras têm de ter uma direção clínica. A ADSE tem de ter médicos, assim como a indústria farmacêutica. Um hospital tem de estar aberto 24 horas. Precisa de pessoas que assegurem as noites e os fins de semana. Enquanto país, não podemos minimizar o problema. Temos de encará-lo como uma prioridade absoluta, até de soberania nacional. Nós precisamos de profissionais de saúde.
Um responsável da hospitalização privada disse, há uns meses, que o setor público pagava demasiado aos tarefeiros, o que obrigava o privado a subir os preços. O novo regime sobre estes profissionais, ainda em banho-maria, será útil aos privados?
Nós não reconhecemos a figura dos tarefeiros no privado. Não sabemos o que está para sair no decreto-lei, mas parece-nos que seria importante que houvesse alguma disciplina no país e no SNS. Parece-nos que os procedimentos e as decisões são distintas entre as ULS [unidades locais de saúde], o que desestrutura o sistema. Temos de ter a noção clara de que o nível de despesa com recursos humanos é muitíssimo superior ao que existia há três ou quatro anos. Nos últimos três anos, os salários dos médicos e dos enfermeiros no SNS subiram 35%, o que tem implicações diretas nos custos do resto do sistema, nomeadamente nos hospitais privados.
Foto: Pedro Gomes Almeida
O novo Sistema Nacional de Gestão do Acesso a Consultas e Cirurgia (SINACC), que substituirá o SIGIC, vai começar a funcionar na gestão da lista de espera das cirurgias e depois das consultas. Tendo em conta a espera por consultas no privado, haverá capacidade para responder à procura no âmbito do SINACC?
Dependerá das especialidades, das zonas do país e da disponibilidade. Enquanto APHP, dissemos durante muito tempo que o SIGIC vigora há mais de 20 anos com uma série de incentivos perversos. Nunca funcionou como devia. O sistema está montado para se autoalimentar e tem havido, ano após ano, listas de espera. Não há nenhum tipo de incentivo para que o cidadão possa ser operado numa entidade privada ou da área social. Isso é errado, porque o que é suposto é que sejam cumpridos os tempos máximos de resposta garantidos. O Governo criou o SINACC em janeiro e, à data de hoje, eu não tenho a certeza se vai ser operacionalizado. Eu não noto que o sistema esteja particularmente motivado para aderir ao SINACC. Há um enorme desfasamento entre a vontade política e a capacidade de implementação das políticas.
"Há um desfasamento entre a vontade política e a capacidade de implementação das políticas"
Mas estamos a falar da Direção Executiva do SNS?
Sou dos maiores defensores da Direção Executiva e sempre entendi que seria importante para despartidarizar, criar um nível mais técnico e menos político e ter capacidade de organização. Tenho a melhor das opiniões sobre o professor Álvaro Almeida.
O que falta?
Não sei se continua a haver obstrução ideológica em alguns casos. Como aconteceu com o SIGIC, continua a haver incentivos perversos. O sistema não quer abrir mão daquilo que são os seus processos.
Sobretudo à Esquerda, tem sido voz comum dizer que este é o Governo mais "amigo" dos privados. Está confiante com o regresso das PPP [parcerias público-privadas] aos hospitais de Braga, Loures, Amadora-Sintra, Vila Franca de Xira e Almada?
As declarações de alguns responsáveis políticos vão no sentido de condicionar o comportamento do Governo. As quatro PPP que existiram tiveram ótimos resultados assistenciais e financeiros. O que aconteceu foi uma rutura da confiança entre os privados e o público. Eu tenho evitado dizer PPP e prefiro dizer, em inglês, o "partnership", porque a parceria em Portugal foi diabolizada. Vejo com dificuldade que possa haver alguma aproximação. Não há espaço de confiança suficiente.
