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Costa, o homem que já foi tudo no PS volta a ganhar

Costa, o homem que já foi tudo no PS volta a ganhar

Elogiado por uns por ser um hábil negociador político, outros há que o acusam de ser frio, calculista e temperamental. Uma coisa é certa: quando se candidatou à liderança do PS, em 2014, António Costa disse que recusava o conceito de "arco da governação". E, apesar de derrotado nas urnas, conseguiu comprometer BE, PCP e Os Verdes com uma solução de Governo.

Em 2015, pediu maioria absoluta - o que não ousou fazer desta vez - e perdeu. Mas não se deu por derrotado: conseguiu acordos para formar uma coligação informal na Assembleia da República que lhe garantiu quatro anos de Governo. O que vai fazer agora?

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António Luís Santos da Costa nasceu em Lisboa a 17 de julho de 1961 (tem 58 anos), filho da jornalista Maria Antónia Palla e do escritor e publicitário de origem goesa Orlando Costa, que se separaram cerca de um ano após o seu nascimento. Cresceu entre o Bairro Alto e o Príncipe Real e, aos 14 anos, no verão quente de 1975, inscreveu-se na Juventude Socialista (JS), então liderada por Arons de Carvalho, estrutura em que iniciou a sua atividade política e ganhou especial notoriedade no movimento académico. Licenciado em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito de Lisboa, onde Marcelo Rebelo de Sousa foi seu professor, Costa terminou o curso em setembro de 1985 com 15 valores. Foi estagiar para o escritório de advogados de Jorge Sampaio e Vera Jardim, que chegaram a ser ambos seus patronos.

Eleito pela primeira vez para a Assembleia Municipal de Lisboa em 1982 (onde foi deputado municipal até 1993), foi convidado por Vítor Constâncio para o Secretariado Nacional do PS em 1987 (por sugestão de Guterres) e mais tarde por Jorge Sampaio, que apoiou sempre para a liderança do partido e de quem foi diretor de campanha nas presidenciais de 1996.

Em 1991, ano da segunda maioria absoluta de Cavaco, Costa conquistou a Federação da Área Urbana de Lisboa do PS e foi eleito pela primeira vez deputado à Assembleia da República. Nas autárquicas de 1993, foi desafiado a disputar a Câmara de Loures, que perdeu para a CDU. A campanha ficou célebre pela corrida entre um burro e um Ferrari na Calçada de Carriche, ganha pelo primeiro, para demonstrar os graves problemas de acessibilidade ao concelho. Costa ficaria como vereador, ao mesmo tempo que exercia a função de deputado até 1995, quando António Guterres ganhou as legislativas foi estrear-se em funções governativas.

Primeiro como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, depois como ministro (1997/99), cargo a que chegou com apenas 35 anos e que confessa não ter apreciado à exceção do papel que teve na concretização da Expo 98. Em outubro de 1999, tomou posse como ministro da Justiça no segundo governo de Guterres, que acabaria por se demitir na sequência da derrota nas autárquicas de 2001. Com a ascensão de Durão Barroso à liderança do Governo, Costa continuou a ser um dos principais rostos socialistas, ficando à frente da bancada parlamentar durante a liderança de Ferro Rodrigues, quando ambos tiveram de lidar com o envolvimento de Paulo Pedroso no caso Casa Pia.

Em 2004, foi número dois da lista do PS ao Parlamento Europeu, eleição que ficou marcada pela morte do cabeça de lista, o antigo ministro das Finanças Sousa Franco, em plena campanha, após incidentes entre socialistas na lota de Matosinhos. Nesse ano, com a decisão de Sampaio de dar posse a Santana Lopes para a chefia do Governo sem eleições, devido à ida de Durão para a presidência da Comissão Europeia, Ferro Rodrigues demitiu-se da liderança do PS e Costa apoiou a candidatura de José Sócrates a secretário-geral.

Em 2005, Sócrates conseguiu a primeira maioria absoluta para o PS e Costa passou a seu "número dois", desempenhando as funções de ministro de Estado e da Administração Interna. Em 2007, foi desafiado para se candidatar à Câmara de Lisboa nas eleições intercalares e ganhou a Carmona Rodrigues. Seria reeleito em 2009 e 2013, então com maioria absoluta, cargo que lhe deu abundante protagonismo para todo o país e em que ganha proximidade com Rui Rio, autarca no Porto.

Em janeiro de 2013 chegou a admitir disputar a liderança do PS a António José Seguro, mas acabaria por adiar a decisão, assinando um acordo de tréguas (o "Documento de Coimbra"). A paz seria de pouca dura: em maio de 2014, na sequência do que classificou como uma vitória "poucochinha" nas Europeias, assumiu que iria disputar a liderança do PS por entender que Seguro não dava garantias de vitória nas legislativas do ano seguinte. E a 28 de setembro, numas eleições primárias abertas a simpatizantes, Costa ganhou com 67,7% dos votos.

A 21 de novembro, a uma semana do congresso da sua consagração como líder, um enorme balde de água fria: José Sócrates foi detido à chegada a Lisboa vindo de Paris. Costa tentou, num SMS enviado aos militantes, fazer um cordão de segurança, confiando a condução do processo à Justiça, máxima que tem repetido desde então, sempre que membros do seu Governo se viram envolvidos em processos judiciais.

No discurso de consagração, definiu como objetivo estratégico uma vitória com maioria absoluta nas legislativas de 4 de outubro de 2015, mas falhou. Contra todos os prognósticos, a coligação "Portugal à Frente" (PaF) ganhou com cerca de 38% dos votos contra 32% do PS. António Costa não se demitiu de secretário-geral e não se deu por vencido. Ao fim de duas reuniões, PS e a coligação PSD/CDS romperam as negociações. Três semanas depois, António Costa anunciou ter chegado a acordo com o Bloco de Esquerda, PCP e PEV para a formação de um Governo de iniciativa socialista que, para surpresa de muitos, acabou por aguentar quatro anos. Agora, não abriu o jogo sobre como tenciona governar. O que irá fazer o homem, benfiquista e agnóstico, casado e pai de dois filhos, que confessa ter nos puzzles um dos seus vícios?

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