Desconfinamento

Cautela nas visitas aos lares, sem abraços ou beijos

Cautela nas visitas aos lares, sem abraços ou beijos

Muitos protelaram decisão para criar condições. Até ao final da semana, misericórdias acreditam que 95% das estruturas estarão aptas para abrir portas.

Foi uma reabertura cautelosa e sem qualquer possibilidade de contacto físico para matar, em pleno, as saudades. Alguns lares e estruturas residenciais do país começaram ontem a abrir as portas aos familiares dos utentes, mas com restrições, cuidados de higienização e distanciamento.

Muitos foram ainda os que protelaram a medida para poderem criar condições de o fazer com a segurança máxima. As principais organizações concordam que nem todos os lares se encontravam aptos para abrir as portas às visitas, ou por questões de funcionalidade ou mesmo porque ainda abrigam casos positivos de covid-19. Das três auscultadas pelo JN, a União das Misericórdias Portuguesas, que agrega 700 estruturas residenciais do Norte ao Sul do país (550 lares), é a mais otimista.

"O amor não se confina"

Manuel Lemos, presidente do Secretariado Nacional da UMP, afirma que "um número significativo" já abriu esta segunda-feira e que "95%" estarão aptas para reabrir "até ao fim de semana". Considera que, a correr bem esta primeira fase, "a partir de 1 de junho" os lares já poderão passar à fase de permitir abraços e beijos. "Nada substitui o abraço. O amor não se confina", diz.

"O toque faz falta a qualquer pessoa, independentemente da doença ou da situação. É importante", comenta Francisco Amorim, de 56 anos, que ao fim de dois meses pôde visitar a mulher, Celeste, de 55, no lar Casa de Magalhães, em Freixo, Ponte de Lima. Marido dedicado, pai de dois filhos, foi o primeiro a marcar visita. Celeste, com quem está casado há 30 anos, sofreu, há cinco, um AVC que deixou sequelas profundas. Os 30 minutos a que teve direito para a ver foram duros.

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A instituição criou, na entrada traseira do edifício, um espaço para as visitas, mas com um acrílico a separar. Francisco conta, à saída, que Celeste tentou tocar-lhe várias vezes com a mão apesar da barreira física que os separava. "Foi muito complicado. Deixei de ir trabalhar hoje [para a visitar] e assim que ela puder ir a casa, vamos ter os dois uma semaninha de férias", diz, afirmando a vontade de "lhe dar um abraço".

Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, que tem 850 lares associados, não arrisca uma estimativa sobre quantos poderão ontem ter reaberto. Afirma, contudo, que "todos estão a criar condições" para visitas, com a máxima proteção. "Tem de ser feito com muitos cuidados, porque os lares são residências coletivas de pessoas, muitas vezes com um histórico de saúde complicado. Os toques podem ser perigosos", avisa. "Há receios, tem que haver cautelas e confiança. Os idosos que estão em lares precisam de ver um sorriso, de partilhar uma lágrima, mas não deve ser com contacto físico".

Para João Ferreira de Almeida, presidente da Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos, a reabertura será gradual. "Alguns lares abriram, mas muitos estão a protelar para ganhar tempo e criar condições", afirma, referindo que muitas instituições estão "condicionadas" pela própria tipologia dos edifícios.

Óbitos nas misericórdias

De acordo com dados de um inquérito aos lares da União das Misericórdias, registaram-se "128 mortes" num universo de 35 mil utentes. "Cerca de 95 % tinham mais de 90 anos".

315

Segundo o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, os casos de infeção nos lares de idosos estão estáveis, havendo 315 casos positivos nas cerca de 2500 instalações.

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