Cálculo

Covid-19 pode atingir até 48 mil pessoas ainda este mês

Covid-19 pode atingir até 48 mil pessoas ainda este mês

O matemático Jorge Buescu estima que Portugal possa ter até 48 mil pessoas infetadas no final deste mês, ainda muito longe do pico do surto.

A epidemia atingirá o ponto mais alto em território luso no fim de abril ou no início de maio, calcula o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que pede medidas duras.

O nosso país tinha ontem 331 pessoas infetadas, um valor que fica ligeiramente aquém da previsão para o dia 16 de março (ler infografia). Soma-se a enorme taxa de crescimento diária portuguesa (40,8%), acima de Itália, de França e de Alemanha e só comparável com a vizinha Espanha.

Ponta do icebergue

E os casos detetados são "a ponta do icebergue", prevê o matemático: "É muito difícil saber a dimensão real desse icebergue", acrescenta, calculando que, se temos cerca de 300 infetados conhecidos, significa que "há entre três e oito mil casos reais" entre situações em vigilâncias e diagnósticos ainda desconhecidos.

Jorge Buescu, que está a desenvolver um novo modelo específico para Portugal em colaboração com outro professor do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, receia que o pico da epidemia no final de abril ou no início de maio seja "gigantesco" com "milhões de infetados". As medidas atuais não chegam, sendo que, nos próximos 12 dias, não se refletirão nos números de doentes, uma vez que o contágio aconteceu em período anterior.

"Numa fase inicial, houve um estado de negação durante alguns dias. Cada dia que passa representa mortes desnecessárias. É preciso ir além", assinala o professor, que defende medidas muito mais restritivas e a declaração do estado de emergência em Portugal.

Testar população

A exemplo de Itália, pede o encerramento total dos serviços que não são essenciais, mantendo farmácias e mercados abertos, onde entra uma pessoa de cada vez para fazer compras. O transporte de mercadorias deve ser feito por avião ou por comboio, sem entrada de camiões no território.

O Governo tem de ir ao mercado o quanto antes para adquirir ventiladores e milhões de kits de testes do coronavírus, dando prioridade aos casos suspeitos, mas estendendo o rastreio à generalidade da população. Tendo presente as previsões matemáticas, Jorge Buescu receia que a escassez de ventiladores nos hospitais seja sentida já "dentro de uma semana".

Mesmo com medidas draconianas, a atitude dos Estados Unidos e do Reino Unido terá repercussão na Europa e o matemático admite que gerará uma forte "segunda vaga" do surto de Covid-19 no outono.

Demografia é maior fraqueza da Europa

O coronavírus terá maior impacto na Europa do que em Wuhan, na China, onde despontou. O matemático Jorge Buescu sublinha que em Wuhan 60% da população tem menos de 39 anos. A suscetibilidade à infeção e a taxa de mortalidade são maiores na população acima dos 40 anos. A fase europeia da doença, alerta, terá uma taxa de contágio e de mortalidade superior à chinesa devido à população mais envelhecida.