Entrevista JN/TSF

Diogo Ayres de Campos: "O verdadeiro poder para mudar está no Governo"

Diogo Ayres de Campos: "O verdadeiro poder para mudar está no Governo"

Em plena crise na Saúde, foi o escolhido para liderar a Comissão de Acompanhamento da Resposta em Urgência de Ginecologia/Obstetrícia e Bloco de Partos. Espera apresentar propostas já em setembro ou outubro, a tempo de evitar nova crise no período de Natal, e admite que será necessário considerar o encerramento de maternidades, preservando sempre cidades isoladas no Interior.

No imediato, Diogo Ayres de Campos defende ser urgente clarificar as dúvidas criadas pelo decreto sobre o valor-hora a pagar na urgência e assegura que será difícil procurar resposta no setor privado, com uma organização mais centrada no médico do que na equipa e que induz um aumento das cesarianas.

Apesar de ter até janeiro para apresentar propostas ao Governo, afirmou esta semana que espera conseguir fazê-lo já em setembro. A pressa não poderá ser inimiga das melhores soluções?

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Penso que precisamos de soluções agudas para a situação em que estamos nos meses de verão, mas são soluções sempre temporárias e queremos, de facto, soluções que sejam mais de fundo. Se esperamos muito tempo, podemos pôr em risco a altura de Natal. Estou a pôr a fasquia no final do mês de setembro ou no mês de outubro, sem nenhuma garantia de que o conseguimos fazer, porque não depende só de mim. Mas naquilo que for possível, irei tentar termos soluções relativamente rápidas logo a seguir aos meses de verão.

A pressão criada na opinião pública, com notícias diárias sobre encerramentos de serviços, dificulta o trabalho da comissão?

A comissão, que é constituída por um grupo de profissionais de saúde que está no terreno, pode recomendar, aconselhar, mas o verdadeiro poder para mudar está no Governo. Esta pressão mediática condiciona decisões do Ministério da Saúde, algumas das quais nós concordamos, outras nem por isso. Mas, de facto, coloca muita pressão nestes momentos e, sobretudo, foca mais o problema na questão a curto prazo, no mês de agosto e no mês de setembro, e menos nas reformas estruturais.

Esta semana, houve mais uma situação de uma grávida que perdeu o feto e percorreu 100 quilómetros até ser assistida. Independentemente dos factos a apurar em casos concretos, notícias destas são mais um elemento negativo em relação a este tema?

Este problema foi-se desenvolvendo ao longo de vários anos, eu até diria décadas, porque não houve grandes alterações estruturais durante muito tempo nesta área obstétrica. Sabemos desde há muito tempo que as equipas estão mal preenchidas na obstetrícia e ginecologia e sabíamos que esta situação do verão iria acontecer e algumas entidades foram avisadas de que iria acontecer, sobretudo em Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo, que são as situações mais preocupantes. Na primeira reunião que tivemos com o Governo, sugerimos que houvesse concentração de recursos nalguns hospitais, nem que seja só durante os meses de verão. Foi-nos informado que não era possível forçar os serviços a ser encerrados e as equipas de saúde a trabalhar noutro hospital e, perante isso, estamos naquilo que é possível, que é gerir as contingências para que não haja urgências todas ao mesmo tempo.

Procura de algum modo informar-se pessoalmente deste tipo de casos ou prefere não particularizar?

Há instituições próprias que se encarregam de avaliar....

Há excesso de emotividade na avaliação que muitas vezes fazemos da assistência em obstetrícia?

Sim, claro. É uma especialidade que diz muito às pessoas e é muito sensível, porque é um momento importante da vida das mulheres. Acho que há um pouco de excesso de emotividade em relação a estas situações, mas isso é incontornável.

Já há uma ideia concreta daquilo que vai acontecer nas escalas de agosto, visto que há ainda muitas dúvidas em torno do decreto-lei de valorização da urgência?

Há algumas certezas e ainda algumas incertezas em relação ao mês de agosto. As certezas dizem respeito sobretudo à região Norte e à região Centro, em que a situação estará, tanto quanto é possível prever, semelhante ao que tem acontecido no mês de julho, com alguns encerramentos, mas poucos, pontuais, mais nos hospitais de Braga, Aveiro e Portimão. Relativamente a Lisboa e Vale do Tejo e o Alentejo, ainda há alguma incerteza, porque, de facto, este diploma que foi aprovado na semana passada causou algumas dúvidas na sua interpretação. Os médicos não têm uma grande certeza de qual é o valor-hora que lhes estão a oferecer para se inscreverem em mais urgências durante estes meses. É muito importante esclarecer isso rapidamente. Penso que o ministério o tem feito com os conselhos de administração, mas é preciso que essa informação chegue aos médicos, porque são eles que podem, ou não, resolver o problema das contingências.

Não há certeza em relação aos valores?

O que diz o diploma é que deixa ao critério dos conselhos de administração dos hospitais o valor a pagar; pelo menos é essa a interpretação que a maior parte das pessoas faz. Estabelece valores máximos, mas não há nenhuma garantia de qual é o valor. Agosto vai começar e as pessoas precisam de tomar decisões e de informações claras.

Agosto é também um mês crítico de aposentações. No Garcia de Orta, por exemplo, vão sair três obstetras. Há alguma solução imediata?

A aposentação pode ser, num ou outro hospital, mais crítica no mês de agosto, mas estende-se ao longo do ano. Em cima dos meses de verão, grandes reformas são sempre um pouco problemáticas, podem causar riscos adicionais. A clarificação do diploma não só é importante para cativar alguns médicos para fazer urgências extras, mas também para transmitir confiança entre os médicos e o Ministério da Saúde. É uma mensagem importante, porque depois vamos fazer reformas mais aprofundadas. Precisamos dessa confiança, ninguém faz reformas contra os profissionais de saúde.

Há pouco referiu a questão legal que foi levantada relativamente à mobilização de profissionais de um hospital para outro. Estão a ser trabalhadas soluções legislativas que acabem com essas barreiras burocráticas?

Nessa reforma mais estrutural, há um grupo de trabalho nomeado há cerca de 15 dias e que, nestes 15 dias, tem feito, sobretudo, uma avaliação do número de profissionais de saúde e também tem visto o número de partos, o número de atendimentos e por aí fora. Neste momento, acho que temos uma noção muito clara da situação, das assimetrias preocupantes que há entre hospitais, entre o Interior e os grandes centros urbanos. E se não for feito nada a médio prazo, iremos ter mais problemas ainda. Temos, de facto, de considerar a possibilidade de encerrar algumas maternidades, por dois tipos de razões. Porque, em primeiro lugar, nós não conseguimos formar nem atrair médicos obstetras e ginecologistas em tempo útil para acudir a alguns problemas. Temos alguns hospitais do Interior - mas não só, um dos exemplos é Setúbal - em que é aflitivo o número de médicos de ginecologia e obstetrícia especialistas que lá trabalham. Não se vislumbra nenhuma capacidade de resolver esse problema a curto prazo, de maneira que a única forma é tentar que os recursos sejam centralizados nalguns hospitais, nem que seja temporariamente.

Nalguns locais faz sentido encerrar, porque não há um número de partos que o justifique, e noutros será forçoso encerrar por falta de recursos?

O problema principal é, de facto, nas cidades no Interior, onde o número de partos é baixo, mas as maternidades mais próximas estão a mais de uma hora, mesmo que seja de ambulância. Se encerrarmos a maternidade em Bragança, a solução é uma hora e meia de viagem até Vila Real, de maneira que, embora tenha poucos partos, cerca de 400 por ano, esse encerramento traria problemas enormes para as populações.

Há serviços que deveriam ser encerrados e não são porque é uma opção mal aceite pela opinião pública, mesmo que aumente a segurança para as grávidas?

Não devem ser muitos serviços a ser encerrados e tem de haver muito cuidado se, de facto, avançarmos com o encerramento de maternidades. Se tem um efeito negativo na opinião pública, tem com certeza, e localmente ainda mais dificuldades isso cria. Tem que se ver o número de partos e se há alternativas. Aí, também as distâncias entre as cidades mudaram muito nas últimas décadas, por causa dos acessos mais fáceis, ou seja, tem que haver uma avaliação cuidada caso a caso, para ver aqueles que podem ser encerrados sem grande aumento de risco. Mas é sempre uma das últimas opções que temos, porque, para as populações locais, é sempre algo muito desagradável.

Que ponderadores usa nesse trabalho em curso?

Tem a ver com a distância, com o número de partos, tem a ver também com a constituição das equipas. Nós nunca poderemos encerrar, no meu entender, ainda não falámos sobre isso no grupo de trabalho, mas nunca podemos encerrar maternidades que estão muito distanciadas, como Bragança, como Abrantes, como Portalegre. Têm poucos partos, de facto, e têm imensas dificuldades nas equipas, mas são essenciais para fixar a população e para não retirar todos aqueles benefícios de que as populações necessitam, hoje em dia, para se sentirem seguras.

Os dados estatísticos em análise confirmaram muito do conhecimento que já tinha ou houve algum elemento que lhe trouxesse surpresas?

Há várias coisas que me surpreenderam. Não fazia ideia que havia hospitais que tivessem apenas quatro especialistas de obstetrícia e ginecologia no seu quadro, e todos com mais de 60 anos. Um até tem três e outro elemento que tem 75 anos e continua a fazer urgências. E também outro aspeto importante é que fala-se muitas vezes do número de obstetras e ginecologistas, dizendo que são 1800. Muitos deles estão reformados, outros estão apenas a trabalhar na medicina privada e nós, agora, sabemos exatamente quantos trabalham no SNS em Portugal continental.

E são quantos exatamente?

São 830 e tal, já não sei o número exato de cor.

Qual é o rácio por habitante, comparando com a média europeia?

O rácio por habitante não pode ser assim avaliado, porque, depois, muitos trabalham na medicina privada. A Ordem dos Médicos diz que 50% trabalham na medicina privada. Sinceramente, são números que não sei.

Há um problema de falta de atratividade do SNS?

Estamos a falar, sobretudo, de Lisboa e Porto, mas tem vindo a haver cada vez mais hospitais privados um pouco por todo o lado, porque o SNS não se torna mais atrativo para os médicos.

Já admitiu que poderia vir a ser necessário recorrer aos privados para partos na região de Lisboa e Vale do Tejo e Algarve. Está em cima da mesa alguma negociação em concreto?

É uma possibilidade e foi negociada pelo Governo desde o início, mas, na prática, é um pouco difícil, porque os hospitais privados têm as suas próprias rotinas, têm uma forma de funcionar mais individualizada, mais centrada no médico do que propriamente na equipa. Também isso condiciona muito mais partos induzidos, condiciona mais cesarianas, ou seja, isso tem as suas consequências. Nas situações de trabalho de parto espontâneo, que podem acontecer a qualquer altura do dia ou da noite, é extremamente difícil termos essa resposta da medicina privada. Primeiro, estamos a ver se conseguimos que a situação do mês de agosto seja controlada. Se não for, é algo que temos de pôr novamente em cima da mesa.

Com tantos problemas nas urgências, a tendência é para a taxa de cesarianas piorar? Acha que sim?

Espero que não, mas não tenho a certeza daquilo que estou a dizer, porque acho que aquilo que tem influenciado muito a taxa de cesarianas do país, que voltou outra vez a números de 36%, tem sido o aumento de partos na medicina privada, durante a pandemia sobretudo. Se continuarmos a assistir a uma transferência de grávidas que podiam ir ao SNS, mas vão à medicina privada porque sentem que o SNS não lhes dá resposta ou segurança, isso vai condicionar o aumento da taxa de cesarianas, seguramente.

A mortalidade materna em 2020 atingiu o valor mais alto em 38 anos. Identifica causas? O atual problema das urgências pode vir a refletir-se nestes números?

Temos de ter informações mais concretas sobre as causas dessa mortalidade. A comissão que está criada vai ter a sua primeira reunião daqui a uma semana. Felizmente, a mortalidade materna é algo muito raro, mas é possível que a falta de acessibilidade dos hospitais do SNS, sobretudo para grupos da população mais vulneráveis, pode condicionar situações de maior gravidade e isso pode ter repercussão na mortalidade materna.

Ouça a entrevista completa este domingo ao meio-dia na TSF

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