Ucrânia

Generosidade entope instituições. Saiba como ajudar de forma eficaz

Generosidade entope instituições. Saiba como ajudar de forma eficaz

A avassaladora onda solidária que inundou o país no início da semana, com iniciativas espontâneas de Norte a Sul para ajudar a população ucraniana, está a criar problemas de logística nas fronteiras com a Ucrânia. Para evitar o desperdício e garantir que toda a ajuda chegue efetivamente a quem precisa, as organizações não-governamentais apelam à cautela na doação de bens e explicam como é que os portugueses podem ajudar.

Com dezenas de pavilhões repletos de doações e camiões a serem carregados, todos os dias, para seguirem viagem em direção ao conflito, a Cruz Vermelha Portuguesa está a pedir às entidades e movimentos particulares a máxima coordenação, uma vez que a capacidade de logística e coordenação nas fronteiras está a atingir o limite.

Através das redes sociais, a organização informa que "as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho não estão a aceitar doações em espécie neste momento" por dois motivos. Primeiro, porque as organizações não-governamentais (ONG) que estão no terreno têm "exata noção das necessidades" e aproveitam o comércio local para comprar "o que é fundamental às respostas que a cada instante se tornam prementes", e depois porque há dificuldade na "receção e gestão" dos bens que chegam.

Ao JN, fonte da Cruz Vermelha Portuguesa revelou que está a tornar-se muito complicado gerir tantos bens que chegam às fronteiras com a Ucrânia, não só de Portugal, como de todo o Mundo. "O desperdício é claramente desnecessário, entope as fronteiras e torna-se complexo". O apelo é reiterado pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha, que está a desaconselhar a angariação de bens como alimentos, medicamentos e roupa.

Donativos financeiros são a melhor forma de ajudar

A forma "mais efetiva de ajudar no terreno" é através de donativos financeiros, para serem canalizados no local pelas organizações e utilizados para suprir as necessidades reais e mais prementes. Para isso, a Cruz Vermelha Portuguesa tem disponíveis inúmeras formas de doar dinheiro, nomeadamente através de transferência bancária ou MB Way.

"É importante as pessoas estarem informadas e confiarem nas organizações", afirma ao JN Beatriz Imperatori. A diretora-executiva da Unicef Portugal garante que "a transparência é também um assunto sério" para a organização, que está há 25 anos na Ucrânia, e tem neste momento 140 pessoas espalhadas por várias regiões do país a prestar assistência humanitária.

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Beatriz Imperatori alerta para o facto de o ambiente operacional na Ucrânia ser "extremamente complexo" e para o facto de as restrições de acesso e linhas da frente estarem em "constante mudança". Desta forma, a ajuda humanitária é fundamental para quem está no terreno. Através das redes sociais e de uma campanha criada no site da Unicef Portugal, é possível fazer a diferença. "Os donativos permitem que a UNICEF responda às necessidades mais prementes que vão surgindo".

Dicas para orientar recolhas de bens

De forma a orientar as inúmeras iniciativas de recolha de bens em espécie, a Cruz Vermelha Portuguesa aconselha a que sejam seguidos três pontos: primeiro, perceber quais são as efetivas necessidades, através do contacto com alguma organização ou associação que esteja no terreno; segundo, planear o percurso e garantir que os produtos vão devidamente armazenados; terceiro, garantir que há uma equipa preparada para os receber à chegada.

"Reconhecemos a imensa generosidade, mas não vale dar tudo que temos em casa para ajudar, só porque sim. Até num processo de solidariedade, a organização e o planeamento são extremamente importantes", assegura ao JN fonte da Cruz Vermelha Portuguesa.

Autarquias são "essenciais" para gerir doações

Sensibilizado com a enorme generosidade do povo português, o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal revela ao JN que as "ofertas estão a ser 200% superiores aos pedidos", mas sublinha que "toda a ajuda é precisa", nomeadamente para quem está nas cidades com cenários mais dramáticos, como Kharkiv ou Mariupol. "É muito importante que os medicamentos e o material de primeiros socorros cheguem. Há muitas vítimas, os hospitais estão cheios".

Pavlo Sadokha informa que a associação está em contacto com diversas autarquias ucranianas e portuguesas, por forma a coordenar esforços, definir funções e gerir a logística. Para quem quer ajudar em Portugal, o presidente da associação aconselha a contactarem as câmaras municipais, que estão a ser "essenciais" para coordenar as ações espontâneas que foram surgindo ao longos dos últimos dias.

Voluntários para organizar doações

Uma das autarquias que rapidamente assumiu o papel de "regulação" foi Gondomar, que criou um centro logístico no parque tecnológico GoldPark para fazer frente às centenas de doações da população.

Logo durante o fim de semana, as ofertas começaram a espalhar-se por vários pontos do município, sobretudo na sede da Amizade - Associação de Imigrantes de Gondomar, com sede em Rio Tinto, e na segunda-feira, "a confusão estava instalada". "Toda a gente doava tudo, em todo o lado. Como já não havia capacidade de armazenamento, montamos um circuito de logística, com recolha nos 12 edifícios das juntas de freguesia e transporte para o centro logístico, onde fazemos a separação por produtos e a montagem para os camiões", explica ao JN Marco Martins, presidente da Câmara Municipal de Gondomar.

Para fazer o transporte para a Polónia, a autarquia contratou quatro camiões TIR, um investimento de cerca de 20 mil euros.

O que é preciso agora são voluntários para ajudar a organizar as doações e a carregar os camiões. "Já temos dezenas de inscrições, mas continuamos a precisar de voluntários", alerta Marco Martins.

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