Entrevista JN/TSF

Graça Freitas: "Há pequenas diferenças de eficácia das várias vacinas"

Graça Freitas: "Há pequenas diferenças de eficácia das várias vacinas"

Há um ano e meio que Graça Freitas enfrenta o que nunca julgou enfrentar: uma "maratona numa cordilheira", que já a levou por diversas vezes a ponderar a reforma. Acredita que a partir de setembro teremos condições para retirar restrições e aprender a viver com a covid-19. E admite uma mudança na estratégia de comunicação, definida pelo poder político.

Depois de meses a aparecer quase diariamente em conferências de imprensa, nos últimos meses praticamente ausentou-se do espaço público. Foi uma reação às críticas de excesso de exposição?

Não, foi um acontecimento que eu creio que é natural. Desde que iniciámos o ano de 2020 que não temos tido uma vida plana, como costumo dizer. Temos tido uma maratona numa cordilheira, com altos, com baixos, com ondas, com intervalos entre as ondas, com períodos mais aliviados, períodos menos aliviados, e isso foi determinado por um vírus, por um fenómeno natural, que isso fique bem claro, é a natureza a manifestar-se. Fomos todos adaptando os nossos comportamentos, as nossas estratégias, os nossos aparecimentos, os nossos desaparecimentos e, portanto, houve uma altura de grande exposição.

E agora já não precisamos que apareça?

Talvez sim, talvez não, mas acho que há lugar para tudo e há fases para tudo. E, portanto, aparecerei sempre que for necessário. Isso não significa, como sabem, que a DGS, durante este tempo todo, não tenha estado presente e muito na comunicação, para o bem e para o mal, e que a diretora-geral não tenha estado muito presente.

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Entrou este fim de semana em vigor a proibição de aceder a hotéis e restaurantes sem certificado digital ou sem teste negativo. É uma nova fase em que temos de viver de uma maneira diferente com este vírus?

São, de facto, estratégias de adaptação ao que vai acontecendo do ponto de vista epidemiológico. E são estratégias cujas alternativas são piores. A pior de todas as alternativas seria os restaurantes terem de encerrar.

Mas são coerentes estas diferenças entre os fins de semana e a semana nos restaurantes? Não há alguma dificuldade em perceber estas flutuações nas exigências?

É, de facto, complexo perceber-se. Mas há uma diferença no comportamento das pessoas, e no nosso estilo de vida, ao longo da semana e ao longo dos meses. Não é sempre igual. Habitualmente, e estou a falar da grande maioria, temos um comportamento em relação às refeições nos dias de semana que é muito mais comedido, digamos assim. A maior parte de nós tem refeições curtas, com poucas pessoas, mais ou menos sempre com as mesmas, e portanto não há um ritual, não há convívio intenso. Diferente é o nosso comportamento ao fim de semana porque temos mais tempo, outras pessoas com quem podemos estar e, portanto, aqui as refeições são de facto um momento de risco.

A Madeira anunciou que vai vacinar os alunos das escolas, portanto menores a partir dos 12 anos, na segunda quinzena de setembro. A Madeira tem autonomia para esta decisão?

A Madeira e os Açores habitualmente seguem os programas nacionais. No entanto, não têm essa obrigatoriedade. Em determinadas fases destas últimas décadas, quer a Madeira quer os Açores tomaram algumas decisões de vacinação que consideraram que eram mais apropriadas à sua população.

Mas não lhe parecia mais prudente a Madeira esperar pelo parecer da comissão técnica de vacinação?

Vou ser completamente aberta. Respeitando totalmente a autonomia que a Madeira teve, eu sou pela prudência. Eu própria tenho as minhas opiniões sobre a vacinação e sobre a vacinação em vários grupos etários, e não me manifesto enquanto os especialistas, aqueles que sabem mais de entre todos sobre o assunto, os imunologistas, os virologistas, os clínicos, os biólogos, os farmacêuticos, os enfermeiros não se pronunciam. Portanto, sou muito a favor que as decisões de saúde pública sejam tomadas com a melhor evidência científica disponível.

Falando já não nos menores de 18 mas nas faixas mais jovens, admite que medidas como permitir que pudessem frequentar bares e discotecas quando tivessem a vacinação completa poderiam ser um incentivo para os atrair?

Portugal tem uma experiência fabulosa com os jovens e a vacinação. Começámos a vacinar jovens adolescentes do sexo feminino com a vacina para o HPV, nem sequer é para prevenir uma doença de agora, é uma vacina administrada agora para prevenir um hipotético cancro daqui a 20 ou 30 anos. E temos cerca de 95% de todas as raparigas vacinadas. Portanto, isto quer dizer que os jovens por livre e espontânea vontade, porque já não são levados pelos seus progenitores ou cuidadores, aderem à vacinação. Temos estudos, a DGS e a Universidade Católica fazem frequentemente sondagens sobre o que as pessoas pensam da vacinação. E os jovens têm um fenómeno, que é a hesitação em vacinar-se. Têm dúvidas, não sabem se é mesmo preciso, se a doença neles vai ser assim tão grave, se é uma maçada, se não é uma maçada. E isto são cerca de 16% de pessoas bastante jovens. No entanto, creio que toda a gente perceberá, jovens ou não jovens, que mais tarde ou mais cedo todos vamos ser vacinados. A grande diferença é que uns vão ser vacinados por um vírus selvagem e vão pagar um preço por essa imunidade que é ficar doente, e outros vão ter a oportunidade de ficar imunizados através de uma vacina que é segura, eficaz e tem qualidade.

Será possível termos bares e discotecas a funcionar e eliminar restrições ainda em 2021, como já acontece noutros países da Europa?

Vai depender de algumas coisas. A primeira, e a mais importante, é que estamos com um excelente ritmo de vacinação. Temos uma previsão de que, no início de setembro, cerca de 80% da população elegível recebeu uma dose, e 70% duas doses. Sendo que a vacinação ainda não está licenciada para crianças antes dos 12 anos.

Mas esses valores são já no pressuposto de a vacina ser aprovada a partir dos 12?

Já trabalhando no pressuposto de termos autorização dos 12 aos 15 anos, apesar do parecer técnico, que já o li e conheço, ainda não ter sido publicado pela comissão de vacinação.

Mas o facto de já conhecer o parecer e de assumir essas contas é porque não haverá dúvidas em relação à vacinação nessa faixa etária?

Há sempre uma margem de erro em todas estas previsões, quando dizemos 70% ou 80% temos um intervalo de confiança. Se isso acontecer, e apesar de termos a variante delta em circulação, dá-nos já um nível de imunidade bastante bom. Não havendo risco zero, e dependendo, mais uma vez, da situação epidemiológica nessa altura, creio que a tendência será para assumir a nossa vida com alívio das medidas. Mas, sabendo que, de vez em quando, teremos de fechar a torneira, porque o vírus está com maior capacidade de expandir.

É fazer algo semelhante ao que o Reino Unido está a fazer?

Vamos ver. O Reino Unido é muito interessante em relação aos outros países, porque estamos a assistir a um ensaio clínico brutal. 60% da população já tem as duas doses. Todos os outros países estão a tirar ensinamentos e lições do que vai acontecer. Eles próprios não têm a certeza do que vai acontecer, apesar de dizerem que terão 100 mil casos por dia e de entenderem que conseguem suportar esses casos.

A questão é saber se o Sistema Nacional de Saúde consegue aguentar?

Exato, mas também é importante sabermos a filosofia de como vamos encarar esta doença em termos de saúde pública, porque a covid não é gripe.

Iremos encarar a covid-19 como uma gripe, conseguindo viver com o vírus?

Não sabemos a gravidade e intensidade com que este vírus se vai manifestar, mas o que almejamos, neste momento, é controlá-lo. É o que fazemos em relação a todas as doenças infecciosas. O máximo de controlo que se consegue é erradicar. E só uma vez isso aconteceu na história da humanidade, com a varíola, que foi eliminada em 1980. Depois, há microrganismos e bactérias que não se deixam eliminar. Nestes casos, o objetivo é reduzir ao mínimo a sua ação. Este vírus, pela sua capacidade de se multiplicar e sofrer mutações, não é um candidato a ser erradicado, com a tecnologia que existe neste momento no Mundo.

Tem dados atualizados de quantas pessoas com vacinação completa adoeceram com covid-19?

Foram identificados, num total de 2 984 095 pessoas com esquema vacinal completo, e passados 14 dias sobre a segunda dose, um pequeno número de 3580 que, mesmo assim, adoeceram.

Há oscilações nos resultados desses mais de 3000 que estejam ligadas especificamente ao tipo de vacina?

Teoricamente as vacinas são mais ou menos semelhantes em termos da sua efetividade. Há pequenas diferenças, de facto há, das várias marcas. E há até pequenas diferenças entre as duas vacinas MRNA. Neste momento, pelo menos na Europa e nos Estados Unidos, nos países que fazem mais estudos, há uma assimetria imensa no fornecimento das vacinas. E portanto, as vacinas que são mais estudadas, são aquelas em que há mais milhões de doses administradas.

Quando diz que há pequenas diferenças, não quer concretizar quais? Acha perigoso as pessoas conhecerem as reais características ou a eficácia das vacinas?

Eu acho que não é perigoso. Eu acho que as pessoas devem conhecer toda a realidade e a clareza aqui é muito importante. Agora, nós só podemos comunicar com clareza quando a temos. E neste momento não dispomos, nem eu, nem a comunidade científica em geral, de dados, por exemplo, sobre a vacina da Jansen.

Como é que sentiu o reparo do presidente da República quando pediu à DGS que explicasse bem a decisão de colocar o primeiro-ministro 10 dias em isolamento, apesar de ter a vacinação completa?

Acho que foi um reparo pertinente porque, de facto, a ideia que as pessoas têm é que as duas doses da vacina são completamente efetivas. Mas, neste momento, nós ainda não temos tanta certeza sobre essa proteção. Ou seja, nós sabemos que duas doses mais 14 dias na maior parte das pessoas resultam e as pessoas estão protegidas. Mas ainda há uma percentagem que não fica imunizada. Portanto, ainda havendo aqui uma margem de incerteza, se há um contacto de alto risco, pelo princípio da precaução, as autoridades de saúde recorrem a um regime de isolamento, já não dos 14 dias, mas encurtado para 10 dias com dois testes, um feito no início e outro feito depois no fim da doença.

Mas esse princípio de tanta precaução, exatamente quando as pessoas tendem a considerar que aumenta a proteção e por isso deve aumentar a capacidade de circular com mais segurança, não poderá fazer desacreditar na eficácia da vacinação?

Na incerteza e na dúvida é melhor ter ainda alguns princípios preventivos. Obviamente que a tendência será para, à medida que nós tivermos mais a noção correta de quantas pessoas não ficam protegidas em cada 100, podemos aliviar medidas.

Não é também altura de rever o isolamento profilático de 14 dias, uma vez que já se conhece melhor o comportamento do vírus e temos mais facilidade de testar?

Exatamente, esse está também a ser revisto. Agora, há uma coisa que é uma medida que deve ser tomada, outra é o timing. Na semana passada, fizemos uma reunião para decidir se fazíamos já essas medidas. E foi considerado que, estando nós numa fase ascendente da curva epidémica, é arriscado tomar medidas de alívio numa fase em que a doença ainda está em franca expansão. Provavelmente, equacionaremos um timing mais favorável numa altura em que a doença esteja controlada.

Esta semana a ministra da Saúde assegurou que o poder político não interfere no trabalho da Direção-Geral da Saúde. Nunca sentiu nenhuma pressão política no sentido de defender as posições assumidas pelo Governo?

O Governo detém o poder executivo. A Direção-Geral é um órgão técnico.

Então, efetivamente, a ministra da Saúde manda na Direção-Geral da Saúde?

Obviamente. Nós somos funcionários públicos. Agora, nunca nos coartou a autonomia técnica, portanto, nunca a ministra da Saúde disse que o intervalo entre duas doses da vacina devia ser, sei lá, 50 dias se nós disséssemos 48, portanto há aqui uma linha em que, de facto, nós cumprimos a nossa missão. A nossa missão é técnica, normativa, com base na melhor evidência científica possível. Esses dados são entregues à tutela e a tutela tem de tomar decisões com base em coisas que ultrapassam a esfera técnica, porque tem a ver com as questões de equidade, com as questões sociais, com as questões económicas. E, portanto, não senti nunca nenhuma intervenção da minha tutela ou do Governo sobre matéria meramente técnica.

Em que áreas sentiu essa intervenção?

Relativamente à estratégia de comunicação, obviamente que quem a define é o poder executivo.

Mas admite que foi muitas vezes errática essa estratégica de comunicação? E que a dificuldade de comunicação, em muitos momentos, tem criado obstáculos à adesão das pessoas?

Eu tenho visto também, e isso tenho de o dizer, análises opostas. Por vezes, a própria análise sobre ser ou não errática a comunicação que é feita a nível governamental também é um bocadinho errática. O que volto a dizer, e digo isto com toda a convicção, é que não vivemos uma situação plana, vivemos com altos e baixos. E tentamos, nem sempre se acerta, fazer o melhor em cada época. Obviamente, as questões de comunicação aqui são críticas.

Remeteu-se ao silêncio porque houve indicações do Governo nesse sentido?

Não. Foi uma estratégia. Não foi uma questão de silêncio. A Direção-Geral da Saúde nunca esteve silenciosa, falamos através de muitos outros fóruns, fomos respondendo aos jornalistas, tivemos as nossas próprias campanhas, tivemos uma grande presença nas redes sociais. Portanto, o facto de a diretora-geral não ter aparecido não quer dizer que a Direção-Geral não tivesse estado muito ativa em termos de comunicação. É uma questão de oportunidade. Há alturas em que devem ser mais os técnicos a comunicar ou a aparecer. Há alturas em que é mais o poder executivo e político que o deve fazer.

A DGS também tem sido muitas vezes acusada de anunciar normas sem discussão prévia e as maiores críticas vêm do mundo do futebol. Quais as razões para tantas restrições nos estádios?

Olhe, tenho a expectativa que, quando começar a época desportiva, esta quarta onda esteja controlada. E, ao contrário do que muitas pessoas comentaram, creio que as experiências-piloto com o futebol correram bem e que a questão da Champions também correu bem.

Portanto, do ponto de vista técnico temos condições para ter, nesta altura, adeptos nos estádios?

Do ponto de vista técnico, teremos. Voltamos sempre à mesma questão: há aqui um fator que nós não podemos ignorar que é a dinâmica do vírus que, em determinada altura, nos troca completamente as voltas.

Já falou várias vezes em maratona e será inevitável que tenha sentido muitos momentos de cansaço, de desgaste. Nalgum momento sentiu vontade de pedir para sair?

Olhe, eu vou ser, como costumo ser, absolutamente sincera. A sensação de "quero sair, quero ir-me embora, vou gozar a reforma" acontece com alguma frequência. Mark Twain dizia: "não sei, não percebo porque é que as pessoas acham que é fácil deixar de fumar, só eu já deixei mais de 300 vezes". Portanto, essa questão do querer sair, do querer ir descansar, do querer ir dormir, do querer ir fazer outras coisas, obviamente que me assalta o espírito várias vezes e depois tal e qual como nasce morre. Passa rapidamente.

A infeção deixou-lhe alguma sequela, algum cansaço acrescido?

Até eu, que tive uma covid ligeira, sim. Fiquei com algumas sequelas passageiras. Tive durante uns tempos sintomas e, depois, por uma outra razão que não tinha nada a ver com a covid, tive de fazer um raio-x ao tórax. E, para surpresa minha, tinha algumas lesões residuais que se resolveram sem grandes problemas. Mas isto para dizer que até quem tem covid ligeira, que foi o meu caso, depois fiquei com repercussões durante uns tempos. Durante umas semanas tinha uma prostração e um cansaço que não eram normais.

Ouça a entrevista completa este domingo ao meio-dia na TSF

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