Covid-19

"Impraticável": hotéis e restaurantes duvidam da medida do Governo

"Impraticável": hotéis e restaurantes duvidam da medida do Governo

Representante da hotelaria no Algarve considera que a nova medida para os setor é "um exagero desnecessário". "Não podemos ser polícias uns dos outros", diz Elidérico Viegas.

O governo anunciou, esta quinta-feira, após a reunião do Conselho de Ministros que a partir das 15.30 horas do próximo sábado será necessário apresentar um certificado digital covid-19 ou um teste negativo para se frequentar hotéis, em todo o país, e o interior de restaurantes nos concelhos de risco elevado (27) e muito elevado (33), onde se incluem Porto e Lisboa.

Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, criticou a medida, em declarações à TVI24, considerando que "aumentar as restrições não promove nenhum desenvolvimento". "Não estávamos à espera de uma medida desta natureza", confessou.

Para o presidente da associação, trata-se de uma transferência de "responsabilidades" que não pertencem aos funcionários dos hotéis, mas sim às "forças de segurança". Lamentou que o governo não tenha tido a capacidade de "retardar esta medida uma vez que é perfeitamente impraticável".

"Um verdadeiro pesadelo"

Daniel Serra, presidente da associação PRO.VAR, disse ao JN que aquilo que "poderia ser uma boa notícia, acabou por se revelar um verdadeiro pesadelo". Por um lado critica o alargamento de restrições a mais concelhos e a inclusão da sexta-feira, considerando que isso vai "afastar muitos clientes".

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O presidente da PRO.VAR destaca, por outro lado, a contradição que resulta da medida. "Ainda esta semana, ouvimos a ministra da Saúde afirmar que a restauração não é um local forte de contágios e, posteriormente, o primeiro-miistro corroborar ao dizer que os contágios advinham sobretudo de festas ilegais em locais não controlados", observa, lamentando que as novas regras ocorram num período "em que os restaurantes estão a trabalhar à velocidade de cruzeiro para se prepararem para o inverno".

O dirigente ilustra ainda as críticas com um caso prático: "O cliente vai para a esplanada, onde não precisa de apresentar um teste, mas, depois vai à casa de banho, e opta por ficar dentrro do restaurante, podendo dar azo a uma situação de incumprimento".

Para Daniel Serra, além dos restaurantes não estarem vocacionados para fazer testes, "nem terem disponibilidade de funcionários para isso", as novas regras podem dar origem a "situações de animosidade" à porta dos estabelecimentos. "No mínimo, deviam dar um período de 15 de dias de adpatação, porque assim os clientes não vão ter tempo para compreender estas exigências", destaca.

Sublinha que os empresários não perceberam ainda se os testes serão comparticipados, ou se serão suportados pelos empresários. "O que vai acontecer é que, na dúvida, há muita gente que vai optar por não ir ao restaurante", diz.

Finalmente, aponta outra contradição na manutenção dos horários limitados. "Se as pessoas entram com testes negativos ou certificados válidos, estão em segurança para ficar até ao fim, no horário normal, ou seja até à meia-noite. O covid não chega às 22.30 horas", desabafa.

Quanto aos impactos que a medida possa ter na restauração, Daniel Serra antevê que seja "uma confusão" e teme os seus efeitos práticos. "Enquanto toda a gente não perceber bem as regras, vai afastar muito clientes", assegura.

"Parece policiamento"

No centro do Porto, a medida é recebida com apreensão. Jaime Barros, um dos proprietários do Restaurante Celta Endovélico, tem dúvidas sobre a sua execução "Não sei como posso exigir a alguém que entra porta dentro um certificado, um teste. Como é que vou conseguir? Vou ter de ter uma pessoa para fazer isso a todos os clientes, é incomportável", disse ao JN pouco tempo depois do anúncio do Governo. A solução que encontra é trabalhar apenas com a esplanada e continuar a cumprir todas as regras impostas, desde máscaras ao distanciamento entre mesas.

No restaurante chinês King-Long, uma das colaboradores, Emília Chow, partilha da mesma opinião, apontando a falta de pessoal e a necessidade de passar a existir um funcionário apenas para a verificação da documentação. "Qual é o restaurante que vai conseguir colocar um funcionário à porta para pedir certificado digital e teste. Parece que está a fazer uma ação de policiamento", desabafou.

Ambos consideram que estas medidas vão afastar os clientes dos restaurantes. E Jaime Barros até vai mais longe: "parece que é tudo feito em cima do joelho, que não há preparação, nada é prevenido. Tudo é feito a posteriori, a reagir".

Mais otimista está a chefe de sala do Restaurante Ginjal, Susana Silva. "Temos de pensar na saúde pública, tendo em conta que os números têm vindo a aumentar. Acho que as medidas são justas". O restaurante trabalha maioritariamente ao almoço com o público português, que tem estado em teletrabalho, e à noite essencialmente com turistas, pelo que a redução de clientes já é sentida há muito tempo.

No caso do Restaurante Ginjal, Susana Silva acredita que a medida será exequível. "Nós temos sempre um funcionário que está a porta a receber os clientes, vamos fazer o possível para que corra tudo dentro da normalidade e para que o nosso serviço continue a ser positivo ".

Susana Silva acredita que a medida "transmite ao consumidor uma certa confiança, que acho que é o que está em falta hoje em dia. Vemos aí umas esplanadas cheias e acho que há uma falsa segurança de que quando estamos ao ar livre estamos mais seguros, mas não é bem assim."

Os teste negativos à covid-19 podem ser de quatro tipos: PCR (realizado até 72 horas antes), antigénio (realizado até 48 horas antes), e os autotestes, realizados perante o proprietário do estabelecimento (no momento, à porta do restaurante) ou atestado por um profissional de saúde (24 horas antes).

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