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Entrevista

"Temo pelo que possa acontecer-me", diz dirigente do SOS Racismo

"Temo pelo que possa acontecer-me", diz dirigente do SOS Racismo

Depois de duras críticas à intervenção policial no bairro da Jamaica, no Seixal, Mamadou Ba tem recebido dezenas de ameaças de morte.

Prepara agora a denúncia formal ao Ministério Público. "Estou a viver os piores dias da minha vida, mas não vou parar a minha luta", afirma.

"Há muito anos que recebo insultos, quase todos eles passando pela animalização do negro, nada no entanto que se compare à violência que estou a viver há dois dias", lamentou ao JN o dirigente do movimento SOS Racismo, que diz ter recebido centenas de mensagens de ódio.

Nem a vasta experiência no combate diário ao racismo, nem a exposição permanente nas redes sociais evitam alguma surpresa do ativista. "Estou assustado com tal nível de ódio", diz, para concluir: "Neste momento, temo pelo que possa acontecer-me".

Por isso, prepara agora uma denúncia formal ao Ministério Público. É a segunda vez que Mamadou Ba apresenta queixa às autoridades. Aconteceu há 3 anos, quando teve a morada exposta em páginas ligadas a movimentos de extrema-direita. Na altura, para proteção da família, foi obrigado a mudar de residência.

Agora, a preocupação é ainda maior. A intervenção violenta da polícia no bairro da Jamaica - demonstrada em vídeo que circula desde segunda-feira nas redes sociais - mereceu-lhe duras críticas e a classificação "bosta da bófia". A declaração, associada ao facto de ser assessor parlamentar do Bloco de Esquerda, exponenciou o ódio. E o ódio "é tanto e vem de tanto lado, que me pergunto se as pessoas não irão passar das palavras aos atos". Lembra: "Estamos a falar de gente que tem treino militar e que está irada".

Mamadou Ba, 45 anos, tem dupla nacionalidade: a de origem, senegalesa, e a do país onde vive desde 1997. Chegou a Portugal com uma bolsa do Instituto Camões para fazer o mestrado em Língua e Cultura portuguesas. Com dois filhos portugueses, tem sido um dos ativistas mais empenhados no combate antirracista. E assim continuará a ser: "Não vou parar a minha luta".