Saúde

Médico que não detetou malformações em bebé volta a ser investigado

Médico que não detetou malformações em bebé volta a ser investigado

O Ministério Público abriu um inquérito ao caso do bebé de Setúbal que nasceu sem nariz, olhos e parte do crânio, malformações que não foram detetadas durante a gravidez.

É a segunda vez que a Justiça investiga um nascimento com malformações graves que não foram identificadas por Artur Carvalho, o médico que fez as ecografias. O primeiro caso remonta a 2011 e foi arquivado. O médico tem quatro processos em curso no Conselho Disciplinar da Ordem dos Médicos.

"Perante a gravidade dos factos", o bastonário Miguel Guimarães pediu um "esclarecimento cabal" ao presidente do Conselho Disciplinar do Sul e apelou a uma "ação rápida, eficaz e justa que dignifique a profissão médica e proteja os doentes".

O bebé Rodrigo nasceu no dia 7 no Centro Hospitalar de Setúbal. Está em estado crítico devido às graves lesões cerebrais, noticiou ontem a imprensa.

Durante a gravidez, a mãe fez os exames na clínica Ecosado, junto ao hospital. Nas três ecografias, o obstetra não terá detetado qualquer problema. Nem mesmo quando alertado pelos pais para a possibilidade de malformações, após a realização de uma ecografia 5D noutra clínica privada. Limitou-se a questionar e a pôr em causa a fonte de tal informação, contou a madrinha, Tânia Contente.

Após o nascimento, os pais de Rodrigo, David e Marlene, apresentaram queixa contra o médico por negligência grosseira. Ontem, o Ministério Público confirmou "a receção, muito recentemente, de uma queixa apresentada pela mãe", que deu origem a um inquérito que corre termos no Departamento de Investigação e Ação Penal de Setúbal, afirmou a conselho disciplinar da Ordem dos Médicos.

Obstreta pediu desculpa

Ao JN, a madrinha de Rodrigo contou que o bebé está num quarto, acompanhado do pai e da mãe, a receber apoio da equipa de cuidados paliativos. "Come e dorme, mas o futuro não é promissor", disse. Segundo Tânia Contente, Artur Carvalho, que também é médico no hospital, não voltou a aparecer, depois de ter sido chamado ao bloco de partos quando Rodrigo nasceu. No momento, terá assumido a responsabilidade pelo que aconteceu, pedindo desculpa aos pais. "Não voltou a aparecer e ainda bem. Não sei como os pais lidariam agora com a sua presença".

Após a divulgação do caso, Tânia já recebeu dezenas de relatos, de utentes e profissionais de saúde, que põem em causa a ética e competência do médico. O JN tentou, sem sucesso, contactar Artur Carvalho, através da clínica Ecosado.

Fez "ecos" de criança que nasceu com pernas ao contrário e sem queixo

Em janeiro de 2011, nasceu no Hospital Amadora-Sintra uma bebé com várias deficiências físicas e mentais - não tinha queixo e as pernas estavam viradas ao contrário - que não foram detetadas nas ecografias. A mãe fez os exames numa clínica privada na Amadora (que tinha protocolo com o centro de saúde) com o médico Artur Carvalho, o mesmo que seguiu a gestação de Rodrigo. O caso deu origem a uma investigação judicial, mas acabou arquivado. Na altura, a Ordem dos Médicos tinha duas queixas contra o médico.

Defeitos identificáveis

Um feto sem olhos, sem nariz e sem parte do crânio deveria ser identificável numa ecografia, refere Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia, escusando-se a comentar o caso de Setúbal.

Processo disciplinar

Um médico que realize ecografias na gravidez sem ter as devidas competências pode incorrer num processo disciplinar, afirmou João Bernardes, presidente do Colégio de Obstetrícia da Ordem dos Médicos. Além da especialidade, é necessária formação pós-graduada.

Três queixas na ERS

A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) recebeu, de 2015 a 2019, três reclamações sobre a clínica Ecosado, em Setúbal, que não desencadearam averiguações complementares. Segundo a ERS, uma seguiu para a Ordem dos Médicos, responsável pelas temáticas deontológicas e averiguação da conformidade da prática clínica com os preceitos da arte.

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