Quarentena

Rir da Covid sem culpa. O humor é uma "arma" contra o isolamento

Rir da Covid sem culpa. O humor é uma "arma" contra o isolamento

A Covid-19 entrou de forma abrupta nas nossas vidas, alterando radicalmente os nossos dias. E qual foi a primeira preocupação? Comprar papel higiénico! Os números associados a esta pandemia não são para rir, mas "o humor é uma estratégia positiva" para lidar com o confinamento.

"O humor é uma estratégia positiva e pode por as pessoas a falar aquilo que estão a sentir ou validar aquilo que as pessoas estão a sentir", defende a psicóloga Ivone Patrão.

"Nem toda a gente vai conseguir fazer humor com a sua própria situação mas ver alguém a fazer humor sobre isso e a falar sobre isso é muito positivo", explica ao JN.

Numa altura em que já se perdeu a conta aos dias de confinamento - o primeiro período do estado de emergência entrou em vigor a 19 de março mas no dia 16 as escolas já tinham fechado obrigando milhares de portugueses a ficar em casa - as rotinas alteraram-se, as exigências também.

Não pode faltar papel higiénico.

Estar entre "quatro paredes" não é fácil.

É preciso cumprir as normas de desinfeção.

Usar a tecnologia pode ser um desafio extra.

Com mais tempo livre, surgem novos desafios ("vestir" almofadas).

E este ano a Páscoa foi muito diferente das tradicionais reuniões de família.

Estamos em isolamento, em teletrabalho, a cuidar dos filhos, fisicamente longe de familiares e amigos. Sem sair de casa "estamos sempre a ver o mesmo. É normal ficarmos ansiosos? É. É normal ficarmos mais irritados? É", segundo a psicóloga do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA).

E o humor funciona como um mecanismo de libertação do stress. "No cérebro, a ativação de hormonas que são mais prazerosas, alivia, faz um contrabalanço daquilo que a pessoa está a sentir", salienta Ivone Patrão.

Por outro lado, "a procura do humor ajuda à procura de informação, a contactar com os outros, promove a partilha, ou seja, menos isolamento... pode ser um bom modo para a conversa."

Ivone Patrão sublinha que "as pessoas estão a aderir a redes sociais que não tinham e a receber mais informação. Os mais velhos estão a aderir ao Instagram e os mais novos que só tinham Instagram voltaram ao Facebook neste momento de confinamento".

A psicóloga coordena o projeto PsiQuaren10 de intervenção psicológica gratuita durante e após a quarentena, criado em meados de março. Um grupo de dez voluntários dá consultas online. "Na primeira semana tivemos 142 pessoas, na segunda eram 317 pessoas e na terceira 1100", revela.

Os resultados da terceira semana (entre 4 e 11 de abril) mostram que a Saúde e o Desemprego continuam do topo das preocupações, 36% sentem-se muito ansiosos, 34% muito exaustos, 28% muito irritados e 22% muito deprimidos. Há 24% a reportar mais conflitos familiares agora e 37% sente que a quarentena tem perturbado muito o sono.

"Conseguimos perceber que os níveis vão aumentando" semana após semana. "O humor poderá ser aqui uma estratégia muito eficaz", reitera Ivone Patrão.

"O humor é uma forma de se falar. O risco de não se falar é mais perigoso do que falar disto de uma forma que, parece que é leve mas, facilita a pessoa verbalizar o que sente".