Entrevista

Sobrinho Simões: "O maior problema de Portugal é a pobreza"

Sobrinho Simões: "O maior problema de Portugal é a pobreza"

"Gaita!" Manuel Sobrinho Simões completa 73 anos em setembro, foge-lhe sempre o pé para falar de si na terceira pessoa e como se tivesse 100 anos - mas esse "gajo" que dorme seis horas por noite afinal corre como se tivesse vinte. A razão? "O cagaço" da morte após uma coleção de sustos. Às tantas, pensou: "O gajo pode morrer, pá!" Nunca tinha percebido. Passou a correr mais.

Fundador do Ipatimup em 1989, Prémio Pessoa em 2002, considerado o patologista mais influente do Mundo em 2015, autoridade máxima no cancro da tiroide, o homem que é acima de tudo professor escreve palavras num caderno para não se esquecer delas. Mas são as palavras dele, cantadas no calão do Porto, que merecem ser escritas, para não nos esquecermos delas.

Pai de três filhos e avô de seis netos, "fala pelos cotovelos" mas não queria falar da pandemia e, a quase tudo, respondeu com um novo "não sei". Sabe mais mais do que diz e ao JN respondeu a tudo, entregando duas horas do seu tempo. "Sorte de gaiola", a nossa.

Estava a falar da inveja e do ciúme quando chegámos. Hoje, pensa mais nos sete pecados mortais?
Penso mais na morte. Não é um pecado, é uma inevitabilidade. Mas não tem que ver com a pandemia. Se tivesse que identificar a primeira coisa que mais me assustou na vida, diria que foi a reforma, o cagaço de passar a ter outra vida. Estava habituado a uma vida de que gostava muito e, de repente, pensei: "Este gajo, se calhar, vai morrer!"

E como resolveu isso?
Cada um tem a sua resposta. A minha foi por excesso. Passei a correr. Mais ainda. Aumentei o número de atividades que tinha antes da reforma. É uma fuga em frente. Esta minha aceleração - e acelerei mesmo muito - é uma demonstração indireta do cagaço da morte. Morte física e intelectual. Porque esta morte de que falo também é simbólica.

O medo da morte fez com que Deus se lhe atravessasse no caminho?
Não, mas tenho pena.

A sua relação com a fé não mudou em nada?
Não sei. Mas sempre me pareceu mais interessante perceber como é que nós, seres humanos, chegámos onde chegámos - somos extraordinários -, do que perceber de onde vimos.

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O que lhe aconteceu no período de confinamento, quando não foi possível continuar a acelerar?
Pensei: "Porra, o gajo está parado!" Foi uma grande surpresa. Mas tive sorte, porque no dia 30 de janeiro fiz uma conferência para a Gulbenkian chamada "Être vivant" [Ser e estar vivo]. E então resolvi apostar em continuar a ser e estar vivo. Assustado, triste, mas vivo.

Passou a ver menos os filhos e os netos?
Vi menos, mas nunca cortámos totalmente. E tive uma experiência engraçadíssima com a minha mãe, que tem 91 anos. Ela vive sozinha em Arouca e teve um enfarte do miocárdio. Foi de Arouca para a Feira, depois para o Hospital São João, e depois veio para cá. Em meados de março, disse que queria voltar para a casa dela. E nós achámos bem.

Continuando sozinha?
Sim, com apoio durante o dia. Para a noite, arranjámos-lhe um botão da Cruz Vermelha e uma pastilha que se põe debaixo da língua, para o caso de sentir dor. Fui, pela primeira vez, a casa dela no dia 31 de março. E, a partir daí, durante dez semanas, fui lá todos os dias conversar com ela. E adoro ir. Em circunstâncias normais, deveria ter ido para Istambul ou para Londres - assim, vou para Arouca. E para Âncora, ao fim de semana. É a tal fuga para a frente do gajo que parou. A minha mulher ainda é mais do que eu a favor de viver a vida. Se temos pouco tempo para viver, mais razões temos para viver.

Como é que o professor, que gosta tanto da velhice - não da sua, mas no sentido da "sagesse", da sabedoria - olhou para o confinamento radical dos lares em Portugal?
Foi uma surpresa muito negativa. A quantidade de pessoas muito velhinhas que estão muito abaixo do tal nível do "ser e estar vivo" deixou-me muito surpreendido. Na minha família, dos dois lados, nunca ninguém foi para os lares. Todos quiseram sempre ficar em casa. Em Portugal, é terrível, porque a nossa experiência é muito marcada pelas nossas possibilidades económicas.

Só fica em casa quem tem dinheiro para isso...
Pois, é muito fácil dizermos que as pessoas devem ficar em casa enquanto puderem, mas... têm poder económico? Passamos a vida a saltar da floresta para a árvore, e da árvore para a floresta. Repare, sou especialista em diagnóstico de cancro. Isso é a árvore. Ajudo o senhor X e o senhor Y. Mas como será quando tivermos muitas pessoas com muitas doenças muito chatas de tratar e não necessariamente mortais? Isso é a floresta. Como é que vamos conseguir manter a ternura pela árvore no meio de uma floresta do "arco da velha"?

O exemplo mais recente dessa floresta é o que aconteceu nos lares. Ao privarem os utentes de visitas, os velhos ficaram mais velhos e ainda mais sozinhos...
Tenho uma ternura brutal pelos velhinhos. Sempre tive, pá! Passo a minha vida a conversar com eles. E digo velhos, não digo idosos. Já viu aqueles livros? Já viu se [o livro de Sepúlveda] fosse "O idoso que lia romances de amor"? Ou [o livro do Hemingway] fosse "O Idoso e o Mar"? [gargalhada] Sempre tive velhinhos muito velhinhos na minha família, mas foi sempre assim: velhos mas bons de cabeça. Eh pá, mas e se não fosse assim? E se fossem pessoas demenciadas? Não sei.

Daí ter-lhe perguntado o que acha do isolamento de quem vive nos lares.
Não sei o suficiente. Se é um isolamento cego, é uma estupidez. Se fosse possível e economicamente sustentável, tínhamos que ter respostas adequadas às necessidades. Mas isso já é política. Queremos arriscar soluções mais personalizadas ou arriscar a cometer erros?

Vivemos cada vez mais anos mas cada vez pior.
Sou totalmente contra a ideia de que o truque é prolongar a vida. Interessa-me a qualidade da vida, não a quantidade da vida. Percebo o argumento de manter a vida, mas para mim o mais importante é o bem-estar.

Uma estrada larga em vez de uma estrada longa.
É isso mesmo. Mas estou com este paleio e, quando estiver à rasca, não sei como me vou comportar.

A pandemia veio acentuar a desigualdade social, territorial, intergeracional?
Pode ter agravado, não sei. Nós percebemos, há muito tempo, que não estávamos a ir num caminho bom, em termos sociais. E não me refiro só à globalização. Refiro-me ao esgotamento dos recursos fisíco-bioquímicos e biológicos. Estamos outra vez a consumir de mais. É a gula, é a luxúria, é a vontade de poder. É uma tragédia. Já tínhamos um problema de falta de empatia, de atenção; agora, temos também o problema intergeracional.

Como se trava esse fosso?
Esse é o grande desafio. Até porque esses problemas ligam-se a outro, que é a nossa incapacidade de ter uma atitude comunitária. Sem respostas comunitárias, não há respostas políticas. Estamos a rebentar com a política.

Também olha com preocupação para o isolamento das crianças?
Também. Sou totalmente a favor de voltar a pôr as crianças nas creches, nas escolas. Ninguém aprende a ser criança à distância. Não há coisa mais importante para viver do que viver com o outro. A escola é a coisa mais extraordinária que há, precisamente porque é uma comunidade. Se fosse à distância, estávamos lixados.

Estamos a falar de uma geração que já tem tendência para viver de forma isolada, porque é muito dependente do digital.
Estou de acordo. E isso vai ser péssimo no futuro. Em termos intergeracionais, vai diminuir a capacidade de tornar a relação benéfica. Eu adoro estar com os meus netos, mas fui pai só a partir do momento em que os putos se tornaram intelectualmente interessantes.

A mobilidade crescente das novas gerações - viajam mais, estudam fora cada vez mais cedo - está a conduzir a uma rutura de laços e ao fim de uma certa simbologia familiar?
Isso já diminuiu. É indiscutível. Mas não quer dizer que não possa manter-se alguma ternura pelo passado. O problema não está só na memória e no discurso, está também no toque. Abraçar netos e bisnetos vai ser cada vez mais difícil. É muito fruto da organização social.

Essa nova organização social também é uma consequência cultural. Ou não?
Nós somos dos países mais assimétricos que há. O grande problema de Portugal é a pobreza. As pessoas não querem que diga isto, mas esta é a verdade. É de tal maneira dilacerante que as soluções familiares amortecem alguns aspetos negativos, mas não os resolvem.

Voltamos à velhice. Porque a pobreza ataca sobretudo os velhos. Como é que isso se trava?
Não sei como se trava, gaita! A minha grande aspiração era morrer de repente! Já viu a sorte que era? "O gajo estava numa fase tão boa e foi para o galheiro! Ainda por cima, não sofreu!" [gargalhada] Eh pá, mas isso é querer muito. O mais impressionante é isto: o que é que nós fazemos quando ficamos velhos? Eu tenho aceitado. Não gosto de paleio, gosto de fazer coisas.

Que diagnóstico faz do país além da pobreza?
A coisa mais importante a montante da pobreza é, de longe, a Educação. Depois, temos a Justiça e a Saúde. Mas também já têm que ver com a Educação.

Como avalia o desempenho do Serviço Nacional de Saúde (SNS) durante a fase crítica da pandemia?
Nós tivemos pouca sorte com a infeção, porque demos cabo do ecossistema e a natureza entrou pela humanidade adentro. Mas eu sou um gajo do SNS e acho que correu bem. Demonstrámos que tínhamos capacidade, porque temos um sistema educacional bom.

O novo coronavírus ganhou mais importância do que o cancro?
Claro! É mais importante socialmente, não é em mortalidade. Isto é muito interessante: como é que nós, que tínhamos chegado a um ponto tão inteligente, ao fim destes milhões de anos, ainda termos cancros e os cancros ainda são manifestações da vida de dentro de nós, com mais eficiência do que nós, não em termos intelectuais mas biológicos?

Nunca o ouvi dizer tantas vezes "não sei", independentemente de saber ou não. Porque diz tantas vezes "não sei"?
Por duas razões: porque é verdade e porque lido mal com a incerteza. Portanto, é bom senso e cagaço.

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