Covid-19

Verdadeiro ou falso? As mentiras que nos rodeiam

Verdadeiro ou falso? As mentiras que nos rodeiam

Mais rápidas do que o próprio vírus, as notícias falsas que circulam por estes dias nas redes sociais sobre o novo coronavírus são tão difíceis de travar como a epidemia.

Entram pelos telemóveis e pelos emails, a toda a hora, são replicadas vezes sem conta até que se assumem como verdades quase absolutas. Mas a maioria não são. A diretora-geral da Saúde e a ministra da Saúde já alertaram para a desinformação que está a circular, pedindo aos portugueses que procurem fontes de informação fidedignas. Dois docentes da Faculdade de Medicina do Porto e investigadores do Cintesis, Bernardo Sousa Pinto e Jorge Félix Cardoso, indicam o que é falso e deve deixar de ser reencaminhado.

Tomar ibuprofeno agrava doença

O "tweet" do ministro da Saúde francês tornou-se viral. A informação de que tomar ibuprofeno para tratar os sintomas da Covid-19 pode agravar os efeitos da doença, sendo um dos motivos para a elevada taxa de mortalidade em Itália, terá chegado a milhões em poucos minutos. O problema é que a informação não é verdadeira. "Neste momento, não existe evidência científica que permita tomar esta conclusão", garantem Bernardo Sousa Pinto e Jorge Félix Cardoso. O que aconteceu, dizem, é que tendo por base o conhecimento dos recetores aos quais o coronavírus se liga para entrar nas células, "três investigadores colocaram a hipótese (num comentário, e não num artigo científico) de alguns medicamentos - de entre os quais o ibuprofeno - poderem associar-se a maior gravidade da infeção". A informação foi publicada num artigo da revista "The Lancet", mas "trata-se de uma hipótese que nunca foi testada". "Nunca foi realizado qualquer estudo comparando a gravidade da infeção Covid-19 em pacientes que tomaram ibuprofeno versus pacientes que não tomaram ibuprofeno", alegam, considerando que são necessários estudos para perceber se o ibuprofeno tem ou não associação com maior gravidade da doença. O Infarmed também já disse não haver ainda evidência, acrescentando que a Autoridade Europeia do Medicamento deve divulgar uma conclusão em maio.

Beber água ajuda a matar vírus no estômago

É apresentado como um conselho de médicos chineses. Manter a boca sempre húmida, bebendo água a cada 15 minutos para que o vírus quando entra pela boca desça diretamente pelo esófago e seja eliminado pelos ácidos do estômago. Caso contrário, diz a mensagem, pode entrar nos pulmões e ser muito perigoso. "Estas informações são falsas, não tendo qualquer base científica", garantem os docentes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Não há qualquer tipo de alimento, bebida ou suplemento que previna ou trate a infeção pelo novo coronavírus, esclarecem.

Evitar gelados e ingerir apenas alimentos quentes

A informação circula com o logótipo da Unicef, mas a própria organização das Nações Unidas para a Infância já veio dizer que é falsa. Está a passar nestes termos: "Deve-se evitar comer gelados ou pratos frios; os alimentos quentes são mais seguros, visto que o calor elimina o vírus". O desmentido foi feito em várias línguas e a Unicef pediu mesmo aos "criadores de tamanha falsidade" que parassem de propagar "informação falsa" sobretudo sob o nome de "entidades que estão em posição de transmitir confiança" como é o caso da Unicef: "é perigoso e é errado". Bernardo Sousa Pinto e Jorge Félix Cardoso acrescentam: "No corpo humano, o vírus liga-se a recetores das células humanas (nomeadamente do trato respiratório), entrando para dentro destas, para que se possa replicar", e por isso "beber água quente ou frequentemente em nada impede este processo".

Álcool gel não mata vírus, mas vinagre sim

O vídeo publicado nas redes sociais, com um homem brasileiro a garantir que o álcool gel não mata o novo coronavírus, ao contrário do vinagre que é eficaz na desinfeção, foi prontamente desmentido pelas autoridades de saúde brasileiras e rotulado de fake news. Os investigadores do Cintesis - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde não têm dúvidas: "A lavagem de mãos com água e sabão ou com soluções desinfetantes (como o álcool gel) é eficaz para matar o coronavírus, fazendo-o através da destruição do seu revestimento". Nesse sentido, alertam, para prevenir a transmissão da infeção, é fundamental uma lavagem frequente das mãos com água e sabão ou, eventualmente, soluções alcoólicas.

Suster o ar para testar se tem o novo coronavírus

Desta vez a alegada fonte são "especialistas de Taiwan". A mensagem alerta para a importância de um autoteste matinal para um diagnóstico do Covid-19. A sugestão passa por suster a respiração durante dez segundos. Se não houver dificuldade nesse procedimento é porque não há sinais de fibrose nos pulmões, ou seja, não há infeção, diz o texto que circula nas redes. Mais uma vez, sem qualquer fundo de verdade. "Não existe qualquer evidência ou base científica a favor desse autoteste". Os únicos testes que podem confirmar o diagnóstico de infeção Covid-19 são de cariz laboratorial", sustentam Bernardo Sousa Pinto e Jorge Félix Cardoso.

Cuba já produziu vacina para o Covid-19

Circulam nas redes sociais várias publicações, em língua portuguesa, destacando que Cuba terá criado uma nova vacina que "já curou 1500" infetados com o coronavírus na China e até alguns meios de comunicação social brasileiros caíram na armadilha. A informação peca logo pela falta de rigor porque as vacinas não servem para curar, mas para prevenir a doença, para imunizar. Foi de imediato desmentida. Uma mensagem idêntica, mas sobre os Estados Unidos, também foi partilhada na Internet. Desta vez, a base foi uma notícia de um laboratório norte-americano que informou ter produzido uma vacina, mas deixou claro que a mesma ainda terá que ser testada ao longo de meses e ainda não está comprovada a respetiva eficácia.

Aviso da DGS para quem viajou e andou de barco

Poucas horas depois da Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN) ter feito um apelo a todos os que estiveram presentes numa festa no Hard Club, no Porto, para contactarem um número específico (verdadeiro), surgiu uma nova mensagem a pedir que quem viajou no dia 2 de março para os Açores, via TAP e Sata, e quem viajou no barco mestre Jaime Feijó devia entrar em contacto com a linha SNS24. Esta última mensagem foi desmentida e condenada pela diretora-geral da Saúde.

Os animais domésticos podem apanhar?

Até ao momento, não há evidência de que os animais de estimação, como os cães e os gatos, possam ser infetados com coronavírus nem transmissores da doença, refere a Organização Mundial de Saúde. Porém, é sempre boa ideia lavar as mãos com água e sabão após o contacto com animais. É uma medida simples que protege contra a E. coli e a salmonela, bactérias que já se sabe que passam de animais para pessoas, refere a OMS.

Hotéis de CR7 transformados em hospitais

A notícia começou a circular, anteontem à noite, através da rede de mensagens WhatsApp, e chegou a ser replicada em sites de jornais desportivos internacionais: dava conta de que Cristiano Ronaldo decidira transformar todos os hotéis dos quais é proprietário em hospitais improvisados para tratar doentes com Covid-19, de forma totalmente gratuita. Dizia ainda que o internacional português se disponibilizava para pagar aos médicos e outros profissionais que fossem tratar os doentes. Pouco depois, na TVI24, o comentador Rui Pedro Braz desmentiu a notícia e mais tarde o jornal "Observador", informou ter contactado uma fonte próxima do jogador que negou que Cristiano Ronaldo estivesse a ponderar uma medida do género.