
Foto: Maria João Gala
Martinho demorou tempo até perder o medo de atravessar a ponte que une Castelo de Paiva e Penafiel. Cresceu, leu muita coisa, aprendeu uma lição: prevenir em vez de reagir. Na sala de aula e no recreio da escola, Sofia não ouvia falar do que tinha acontecido. Nem na catequese. Quando sai da vila e diz de onde é, toda a gente sabe onde fica, ninguém esquece. Francisco decalca a imagem da tia Lina a ver um dos cestos que tinha vendido a flutuar no rio. Descreve-a como se tivesse estado lá, como se sentisse aquela dor. Nenhum dos três era nascido quando a ponte Hintze Ribeiro desabou e 59 pessoas morreram. Uma tragédia que abalou o país há 25 anos. Na quarta-feira haverá flores no Douro.
João Martinho nasceu oito dias depois da queda da ponte de Entre-os-Rios, faz 25 anos a 12 de março. Os pais e as duas irmãs poderiam ter passado na ponte naquele fatídico 4 de março de 2001. Aos domingos, era costume a família ir ao Porto, passeio pela marginal, pela baixa da cidade, jantar e regresso a casa já sol-posto, atravessando o rio. Não aconteceu, o dia não estava bonito, chuva e frio, a mãe estava grávida em fim de tempo, a poucos dias do parto, convinha estar sossegada. "Calhou, nesse dia calhou não irem ao Porto."
